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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Tudor diet

Fonte: Revista Veja - 09/06/08

Maria Bolena foi amante de Henrique VIII antes de suairmã Ana. Mas A Outra tira o sal dessa história suculenta

Isabela Boscov

Durante os 118 anos da dinastia Tudor, entre 1485 e 1603, a Inglaterra passou de um reino instável, sempre acossado pelos interesses ora da França, ora da Espanha, a uma superpotência: o País de Gales foi incorporado à sua estrutura administrativa, a Irlanda foi pacificada, o inglês se tornou a língua nacional de fato, as artes floresceram, seu poder político se separou em definitivo da Igreja de Roma, o país se abriu às navegações e a riqueza se multiplicou, assim como sua influência esmagadora sobre o cenário global. Sob Henrique VIII e, em especial, sob sua filha, Elizabeth I, a Inglaterra se tornou, em suma, uma nação, e definiu muito do que até hoje constitui sua identidade. No que toca à ficção histórica, porém, esses feitos pouco interessam; para ela, o que distingue os Tudor é a sua capacidade inesgotável para a intriga.– tanto a política quanto a sexual, até porque poucas famílias reais misturaram sexo e poder de forma tão intensa e criativa. Por causa dessa imagem, Henrique VIII e Elizabeth I são disparado os reis preferidos para fins de entretenimento; e por causa dela também os roteiristas se sentem autorizados a perpetrar bobagens como A Outra (The Other Boleyn Girl, Inglaterra/Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país.

A outra, no caso, é Maria Bolena, irmã pouco mais nova da notória Ana Bolena – a cortesã por quem Henrique VIII se divorciou da rainha Catarina de Aragão e rompeu com o papa. Maria passou antes de Ana pela cama do rei e é possível que tenha tido dele um filho, que não ganhou o sobrenome Fitzroy dado aos bastardos reconhecidos pelo rei porque, a essa altura, a campanha para tornar Ana Bolena rainha andava a toda – e até para os padrões de rotatividade de Henrique VIII pegaria mal assumir um filho da irmã de sua noiva. A história mostraria que Maria teve sorte: após alguns anos de casamento, Henrique VIII se cansou de Ana e executou a ela e a seu irmão, George, com uma acusação estapafúrdia de incesto. A caçula só escapou ilesa da perseguição por estar já casada de novo, em obscuridade e sem favor na corte.

Reunindo o pouco que se sabe de Maria ao muito que é conhecido sobre Ana e adicionando à mistura alguma imaginação fundamentada, a escritora Philippa Gregory fez de A Irmã de Ana Bolena um romance repleto de detalhes saborosos sobre os costumes do período e escrito em uma prosa que não ofende. Acima de tudo, o livro (lançado aqui pela Record) contém fartas doses de maquinação – o esporte por excelência das cortes – e de ambição nua. Tudo o que a autora urdiu, o roteirista Peter Morgan, de A Outra, desmancha em sua adaptação. As Bolena juntaram seu destino ao do rei dentro de um quadro épico de disputa pelo poder; no filme, tudo se resume a uma rivalidade entre irmãs. Vá lá, que irmãs: juntas, a loira Scarlett Johansson, como Maria, e a morena Natalie Portman, como Ana, atendem à provável totalidade dos sonhos de consumo do público masculino (Eric Bana, como o ainda atlético e atraente Henrique VIII, faz as honras junto à platéia feminina). Não que Morgan aproveite a contento o potencial desse trio – a série de televisão Os Tudor é muito mais picante –, ou a crueza das intrigas que Philippa desenha em seu livro. Quando escreveu A Rainha, com Helen Mirren no papel de Elizabeth II, Peter Morgan não economizou na ferocidade; para A Outra, ele achou que beleza e suspiros já dariam conta do recado. Os Tudor, porém, foram mais

domingo, 25 de maio de 2008

"Mash" mostra que o cinema envelheceu

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 25/05/08
INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA
O único desgosto de rever "Mash" (TC Cult, 22h) quase 40 anos depois é constatar o quanto o cinema envelheceu nesse período. O que era, em 1970, ainda uma arte jovem, impetuosa e irresponsável tornou-se nesse meio tempo uma expressão respeitosa, sisuda, que procura, na falta de imaginação de um Indiana Jones, por exemplo, prolongar seu estado agônico.
Ok, talvez não seja bem isso, e talvez quem tenha envelhecido nessas quatro décadas seja o mundo. Em 1970, estávamos perto da sublevação vital de 1968. Em "Mash", por exemplo, estamos em um hospital de campanha em plena Guerra da Coréia e ninguém se vexa de achar que um pastor, quando reza, está doido. Na saudável anarquia que ali vigora, Sally Kellerman é uma caxias que, por marotagem dos médicos, passa a se chamar Lábios Ardentes. Pois a anarquia que ali se instaura não pretende tomar o poder, tirar o lugar de ninguém. A lei marcial é uma piada e o objetivo, voltar para casa.É possível mesmo que "Mash" hoje mostre melhor suas virtudes de comédia corrosiva. Na época, havia o Vietnã, e o combate ao militarismo pelo riso podia ser assimilado à campanha pelo fim da guerra. Hoje o filme perdeu esse interesse e se mostra melhor como representação de uma época. É a comédia de um mundo menos controlado, em que mesmo nas ditaduras podia-se sonhar com a liberdade. Hoje sonhamos com crachás e câmeras ocultas.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Outras mostras revelam seleção bem atraente

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 23/05/08

A Quinzena dos Realizadores recebe nomes como Jean-Marie Straub, Jerzy Skolimowski e Albert Serra

Luiz Carlos Merten, Cannes

Alguns dos melhores filmes desta edição do Festival de Cannes estão passando em outras mostras que não a competitiva. A Quinzena dos Realizadores, por exemplo, abriga uma seleção muito atraente. Além de Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, a Quinzena também mostrou Le Genou d?Artemide, de Jean-Marie Straub; El Cant des Ocells, de Albert Serra; e Cztery Noce Z Anna (Quatro Noites Com Ana), de Jerzy Skolimowski. A Quinzena pode não ter selecionado os filmes desse jeito, mas está fazendo um arco desde os anos 60 até os 2000.

Mais informações no blog do Merten

Straub surgiu no novo cinema alemão, ao qual legou um de seus mais belos títulos (o melhor?) - A Crônica de Ana Madalena Bach. Depois, em outros países - na Itália, principalmente -, ele desenvolveu em parceria com Danièle Huillet uma obra cujo rigor nunca será suficientemente exaltado - Sicília! é um exemplo perfeito. Após a morte de Danièle, Straub assina seu primeiro filme sozinho. O Joelho de Artemide retoma a cultura erudita num cinema que radicaliza o experimento sem perder a fascinação da humanidade.

Jean-Marie Straub trabalha os mitos. Skolimowski, o ex-enfant terrible do cinema polonês, que os críticos comparavam a Jean-Luc Godard, fala de sua geração e da própria linguagem - do que e como ela mudou nos últimos anos.

Albert Serra, o mais jovem de todos, é outro que adora revisar os mitos. Há dois ou três anos, ele já veio a Cannes - e concorreu à Palma de Ouro com Honor de Caballeria, uma revisão do mito de Dom Quixote, de uma dureza, mas também de uma beleza, de cortar o fôlego. Serra é de Barcelona. Músico, fotógrafo, cenógrafo, roteirista e romancista, diretor, é um multiartista, mais do que um artista multimídia. El Cant des Ocells, ou O Canto dos Pássaros, recria outra história clássica, a dos Três Reis Magos. Como no filme anterior, no qual não temos todo o Quixote, mas um fragmento magnificamente filmado (e com um impressionante uso do som), O Canto dos Pássaros também retoma a história bíblica para discutir os temas da busca e da descoberta - do conhecimento. Os cinéfilos de carteirinha vão amar.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Jean-Pierre e Luc Dardene, os irmãos belgas que se completam

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/05/08

Eles explicam como se inspiraram numa história real para fazer O Silêncio de Lorna

Luiz Carlos Merten, Cannes

Jean-Pierre e Luc - que cinéfilo de carteirinha não identifica os dois irmãos belgas, os Dardenne, duas vezes vencedores da Palma de Ouro? Eles conversam com o repórter do Estado - que foi integrante do júri que presidiram, e que atribuiu a Caméra d''Or de 2005 - no stand da Unifrance no Village International, a parte ''aberta'' do Mercado de Filmes que se desenrola numa paisagem de frente para o mar. Os Dardennes estão felizes de voltar a Cannes, e à competição. ''Submetemos o filme à comissão de seleção e Thierry Frémaux (diretor artístico) poderia tê-lo recusado. Independentemente de prêmios, é sempre bom estar aqui para rever amigos e ver alguns bons filmes.''

É difícil estabelecer divisões quando se fala com Jean-Pierre e Luc. Eles possuem uma cabeça em dois corpos. Não são jograis, mas seus pensamentos se completam e às vezes um começa a frase que o outro termina. Eles estão muito satisfeitos com o novo filme, O Silêncio de Lorna.

Por que Lorna?

Uma amiga albanesa nos havia contado a história que serviu de base para o personagem de Jérome Rénier. Seu irmão era junkie e foi abordado para fazer um casamento branco, para uma estrangeira puder adquirira nacionalidade belga. Ele estava prestes a aceitar, mas felizmente sua irmã lhe fez ver que, em geral, essas histórias terminavam abruptamente por uma overdose. O assunto nos interessou, mas não queríamos fazer mais um filme na perspectiva masculina, como em O Filho e A Criança. Contar a história pelo ângulo feminino nos pareceu mais interessante, e surgiu Lorna.

É interessante ver como homens conseguem expressar de forma tão verdadeira a intimidade de uma mulher.

Era nosso desafio e foi o que nos atraiu. E também porque Lorna nos permite retomar, em outro nível e com outras preocupações, temas que já estavam em O Filho e A Criança. Se você se lembrar de O Filho, o homem ficava preso na amargura do assassinato do filho. A mulher se reconstruía. Casava-se com outro e vinha lhe anunciar que estava grávida. As mulheres, que vivem numa sociedade dominada pelos homens, podem ser muito duras na manipulação do poder, mas e também são mais ternas e fundadoras do que os homens, talvez por causa das mudanças físicas. O homem planta a semente, mas é a mulher que gera o filho.

O filme possui estrutura estranha, vamos dizer assim. Lorna é cooptada para esse casamento branco com um junkie ao qual ela se liga, mas na metade do filme ele morre abruptamente. Por quê?

Não nos peça para explicar, porque não saberíamos dizer, mas sempre estivemos de acordo de que a morte não deveria ser filmada. Isso introduz uma quebra no filme, que foi deliberada, e também a ausência do morto meio que prepara o espectador para a criança que, na verdade, também não está no filme, e até há dúvida se existirá. Lorna engravida, mas há a suspeita de que seja uma falsa gravidez.

Vocês usam menos o plano-seqüência, desta vez. Por quê?

Filmamos muito em planos-seqüências que depois desconstruímos na montagem por uma questão simples, de ritmo. Contamos uma história que tem vários personagens e diferentes pontos de vista. O corte permite juntar mais as diferentes perspectivas.

Como sempre, vocês têm atores maravilhosos. Como encontraram Lorna?

Arta Dobroshi é uma atriz húngara muito talentosa. Nós a selecionamos por audição, após vê-la em dois filmes. No início, ela não falava francês, foi preciso passar por duas preparações. Não podíamos fazer o filme com uma personagem húngara, pois não poderia pertencer à União Européia, o que já lhe daria direito à cidadania belga. Optamos por uma personagem albanesa. Felizmente, ela é talentosa, a alma que precisávamos para Lorna.

Cinema de verdade tem vez este ano

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/05/08

Há documentários belíssimos exibidos na programação deste 61.ª edição

Luiz Carlos Merten, Cannes

É uma sensação bizarra para um espectador - um cinéfilo - brasileiro. Em Todas as Mulheres do Mundo, Domingos de Oliveira colocava um tema de Gabriel Fauré nas cenas em que Leila Diniz - a mulher que sintetizava todas as outras - olhava para a câmera. Raymond Depardon recorre ao mesmo tema de Fauré em A Vida Moderna, seu novo documentário, que integra a seleção de Un Certain Regard. O tema aparece quando o carro da produção percorre uma estrada invernal (toda a paisagem está coberta de neve), a caminho de uma daquelas fazendas no coração da França, cujos proprietários o grande diretor entrevista. É maravilhoso e, ao mesmo tempo inusitado, pois aquela estrada remete a uma atriz mítica - e a um filme também mítico - do cinema brasileiro.

Existem belíssimos documentários em diferentes seções do 61º festival, e o de Depardon é um deles. O diretor foi ouvir os mesmos fazendeiros que já entrevistara num filme anterior. Muita coisa ocorreu na vida deles, e na obra do próprio Depardon, mas, no fundo, o que ele admite que queria fazer era fugir ao clichê de que essas populações interioranas são reacionárias e ponto final. A modernidade já chegou a estes aparentes bastiões do conservadorismo, e é disso que trata La Vie Moderne. As transformações também estão no centro do belíssimo documentário de Jia Zhang Ke 24 City, que integra a mostra competitiva, concorrendo à Palma de Ouro. Zhang Ke é hoje não apenas o maior diretor chinês, mas um dos maiores do mundo. Seu tema são as transformações ocorridas em seu país na passagem do comunismo para o capitalismo. Em Busca da Vida trabalha como ficção o mesmo universo - ao redor da construção da barragem das Três Gargantas - que Dong explora como documentário. Zhang Ke agora une as duas tendências.

Os maiores filmes brasileiros do ano passado - Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho - se construíam exatamente como 24 City, nas bordas do documentário e da ficção. Jia Zhang Ke volta-se para esta fábrica de armamentos que está sendo destruída para implantação de um moderno conjunto. Ele entrevista pessoas que ali viveram e reconstitui outros depoimentos por meio de atores, entre eles (ou elas) Joan Chen, que co-estrelou O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci. O sentimento proporcionado por 24 City produz uma estranha melancolia no espectador, e é isso que faz a (extrema) beleza do filme. Impossível não pensar no poema de Woodsworth que servia de epígrafe para Clamor do Sexo, de Elia Kazan. O esplendor na relva se foi para sempre, mas as pessoas o carregam como um suporte para a necessidade de seguir em frente.

Jia Zhang Ke não é nostálgico da velha China comunista. Ele sabe perfeitamente o que significou aquele Gulag - e sabe, também, exatamente, em que país vive (e no qual seus filmes permanecem inéditos, apesar de sua consagração no exterior). As pessoas, homens e mulheres, perderam muito durante o comunismo, e perderam até muito do que haviam adquirido no comunismo, mas agora elas vivem todas as dificuldades de adaptação a um mundo que se transforma rapidamente demais. Há um sentimento permanente de perda nos sonhos que estas pessoas sonham realizar. A mulher que tinha vergonha dos pais operários (Joan Chen, num verdadeiro jogo de cena) agora quer trabalhar bastante para comprar para eles um apartamento de luxo em 24 City. Há um sentimento de tristeza, mas mesclado à euforia de que a transformação é inexorável. Nada volta atrás, como no poema de Woodsworth e Jia, afinal, pode ser mais crítico - pelo menos para efeito externo - do que a geração anterior do cinema chinês.

Outro filme nas bordas da ficção e do documentário passou ontem na Quinzena dos Realizadores. É o português Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. Se você perguntar a jornalistas de Portugal, eles dirão que o público do país não tem muito orgulho de seu cinema e que as pessoas, em geral, preferem as megaproduções de Hollywood. O motivo mais fácil para isso é o forte experimentalismo do cinema português, seja por parte de um autor centenário, como Manoel de Oliveira, e de um jovem na casa dos 30 anos, como Gomes. O filme dele começou a surgir como ficção, mas aí faltou dinheiro e o filme parou. O diretor reassumiu-o como documentário, filmando em 16 milímetros, com uma equipe reduzida para diminuir ainda mais os custos. Ele filma numa das regiões mais atrasadas de Portugal, mas também uma daquelas que melhor conserva tradições religiosas e cultiva um tipo de música (country?) portuguesa, como a que no Brasil se define como brega, cheia de males de amor. A música é um fundo e, ao mesmo tempo, a real condutora da história, que trata de um filme dentro do filme.

Lá pelas tantas, não são mais os personagens, que se constroem entre a ficção e o documentário, que estão em debate, mas o próprio filme, ameaçado de não existir por causa do que se aparenta a um defeito técnico na captação do som. O resultado é imenso - um filme sobre o cinema, sobre a vida, o mundo. Simples, totalmente distante de uma dramaturgia tradicional e, ao mesmo tempo, terrivelmente complexo. O cinema português, realmente, não cessa de surpreender. Depois de Oliveira, João Monteiro e Pedro Costa, existe agora Miguel Gomes para ser descoberto pelo público brasileiro - no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo e, depois, quem sabe?, no circuito comercial.

A vida dilacerada do poeta pós-punk

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/05/08

Em dois filmes, o mitológico Ian Curtis é retratado como o emblema de um hábitat árido e cruel chamado Manchester

Crítica Luiz Zanin Oricchio

É claro que Control e Joy Division deveriam ser lançados juntos. Afinal, ambos têm por personagem o mitológico Ian Curtis, vocalista e compositor de uma das bandas cult dos anos 70. Control é uma recriação ficcional da vida breve do roqueiro; Joy Division é um documentário, baseado principalmente em depoimentos dos integrantes da banda sobre a formação do conjunto, a música que queriam fazer, a cidade onde viviam e, sobretudo, Ian e sua personalidade atormentada e enigmática. Complementam-se. No entanto, Control estréia hoje e Joy Division - o documentário que leva o nome da banda - fica para 6 de junho. Quem vir o primeiro ficará com vontade de assistir ao outro.

Em Control, o estreante holandês Anton Corbijn, fotógrafo de origem, faz sua estréia no cinema. Escolhe uma magnífica fotografia em preto-e-branco para recriar o clima de Manchester City, onde nasce a banda. Há também uma razão prática. Nos anos 70, quando chegou à Inglaterra, Corbijn fizera várias tomadas em P&B do grupo. Esse fato contribui para a escolha monocromática do projeto. Mas não se trata apenas disso. Quem a acompanhar verá que a vida de Ian Curtis parece mesmo pedir o preto-e-branco, com todas as nuances de cinza entre os dois extremos.

É uma vida de artista maldito, que lembra a de um Rimbaud do rock. Ian (interpretado por Sam Riley) tem cara de anjo, mente complexa e personalidade dividida. Para completar o quadro, sofre de epilepsia. Tentando controlar a doença, o médico lhe recomenda distância de agitação, sexo demais, drogas e álcool. Não é coisa que se peça a um roqueiro, na casa dos 20 anos. Há mais: Ian é casado, mas acaba se envolvendo com uma insinuante jornalista belga, e esta passa a acompanhar o grupo em suas turnês. Surpreendentemente, levando-se em conta o estilo de vida que se atribui a um artista pós-punk, Ian mostra-se incapaz de administrar um até que convencional triângulo amoroso.

Esse é o aspecto pessoal. Como artista, Ian sai bem mais do que valorizado dos dois filmes. Mesmo quem pouco o conhece, ou não aprecia sua música, passa a entender parte do seu processo de criação, que envolvia uma visão um tanto desesperada do mundo e a recriação poética dessa sensação, que não raro dialogava com a grande arte. Por exemplo, em certo momento, ele diz ter assistido a Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, e ficado impressionado com Marlon Brando recitando o seu horror, tirado de T.S. Eliot. Essa, a impressão do poeta pós-punk - a de um mundo em decomposição, uma terra devastada, na qual a palavra horror era a única ainda a fazer sentido.

Por isso também seria interessante ver o documentário em conjunto com Control. Nele, Manchester é vista não como um lugar onde tudo acontece, mas como um personagem a mais - acaso o protagonista do filme. Na maneira como é apresentada a cidade industrial, árida, cruel, seca, cinza, um pouco como São Paulo, onde os sobreviventes têm de se enfurnar em garagens, espaços pequenos e esfumaçados, clubes sórdidos depois tornados românticos pelo tempo - tudo em busca de uma respiração e sobrevivência em hábitat claramente não adequado para seres humanos normais. Ian acaba se tornando a figura emblemática desse ambiente.

Esse clima de estranheza percorre os dois únicos LPs do grupo, Unknown Pleasures (Prazeres Desconhecidos) e Closer (Mais Perto). Seus sons e letras estranhas, uma espécie de lamento por uma civilização moribunda, fizeram com que a banda fosse cercada até hoje por uma relação de culto e mitologia. Ian, meio caoticamente, ou de forma intuitiva, tocava em coisas que ele próprio talvez não compreendesse. E muito do que fez talvez não passasse de um humano pedido de socorro, como hoje seus colegas de banda parecem admitir.

A morte sob controle

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/05/08

Uma biografia ficcional e um documentário levam às telas visões complementares sobre Ian Curtis, líder da banda Joy Division, que cometeu suicídio aos 23 anos

Lauro Lisboa Garcia

Perder o controle do bem viver é uma ocorrência pontual na trajetória de alguns heróis do rock que partiram jovens e no auge: Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrisson. As conseqüências da angústia que causou o desaparecimento precoce de Ian Curtis, o misterioso líder do Joy Division, que só conseguiu controlar a morte a seu favor, parecem tão comuns quanto espantosas, como se pode ver em dois filmes complementares sobre ele e sua lendária banda. Control, que estréia hoje em circuito comercial no Brasil, é uma biografia ficcional de Curtis e marca o début do fotógrafo Anton Corbijn na direção cinematográfica. O segundo, Joy Division, que entra em cartaz no dia 6, é um documentário sobre a banda, dirigido por Grant Gee.

O ideal seria que fossem exibidos em programa duplo para facilitar a montagem do quebra-cabeças. De qualquer maneira, ambos são recomendáveis não apenas para os fãs da banda. Até porque, para estes , não há muita novidade além do que já se explorou em livros, biografias, vídeos e outros documentários. Mas, em princípio, cada um com sua linguagem, os novos produtos são bons como cinema. O personagem central é fascinante, em qualquer imagem que se pinte dele. A música e as performances são impactantes, seja da banda original ou dos atores que a representam convincentemente em Control.

Grande parte da qualidade desta biografia ficcional, aliás, está na escolha dos atores. Alguns até se parecem fisicamente com os personagens verdadeiros, principalmente o novato Sam Riley, que impressiona na reprodução detalhista dos trejeitos de Curtis no palco, se contorcendo em movimentos de marionete. Mas, sem um profundo conhecimento visual da banda, isto é uma das coisas sobre as quais o espectador comum só vai se dar conta ao comparar com o documentário. Excertos do livro de memórias Touching from a Distance, da viúva Deborah Curtis, no qual Control é baseado, são projetados entre os depoimentos do documentário. Outra coincidência da ''ficção'' com a realidade é a casa onde Ian e Deborah moraram e que aparece nos dois filmes.

Foi ali que, atormentado pelos efeitos da epilepsia, Curtis se matou no dia 18 de maio de 1980. Tinha apenas 23 anos e o coração dilacerado pelo amor (como diz na célebre canção Love Will Tear Us Apart) dividido entre duas mulheres. Antes de se enforcar na casa onde vivia com Deborah (interpretada por Samantha Morton) e a filha pequena, ele colocou para rodar na velha vitrola um LP de Iggy Pop, intitulado Idiot. A reação imediata que se tem, ao acompanhar essa seqüência em Control, é que ele realmente bancou o estúpido, mas armou o desfecho com senso de humor negro. Tinha pedido para ficar só, bebeu muito, fumou tudo o que pôde. Quis morrer sozinho.

Se em Control o que ressalta é o jovem infiel, o mentiroso, o egoísta, o irresponsável, no documentário o prodigioso artista se recupera. Quem narra sua história em depoimentos e lembranças detalhadas são os que viveram com ele na outra margem: os demais integrantes da banda - Peter Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris, que, como se sabe, viriam a formar o também influente New Order -, sua amante belga, Annik Honoré, o guitarrista Pete Shelley, dos Buzzcocks, o fotógrafo Anton Corbijn, o diretor da antológica Factory Records, Tony Wilson, o designer Peter Saville, criador das capas dos álbuns da banda.

Contam os amigos que Curtis nunca se drogava, era a música que o deixava em transe. Em Control nem se nota que eles se divertiam muito o tempo todo, como conta Hook no documentário. O único problema eram os ataques de epilepsia de Curtis, cuja descoberta o deixou irrecuperavelmente arrasado. No início da carreira, quando se dividia entre a música, como compositor e cantor do Joy Division, e o trabalho burocrático de atendimento num hospital, Curtis ficara sensibilizado ao ver uma mulher em situação que ele próprio viveria e escreveu a canção She''s Lost Control sobre isso.

Como Control parte da versão da viúva Deborah, que também é co-produtora do filme, as lentes se voltam mais para o ambiente familiar. Deborah é um pouco o protótipo da dona de casa recatada, às vezes bancando a sofredora, sempre à espera do marido que vive em estúdio, no palco e na estrada, no meio de uma gente estranha (como ele) e de futuro incerto. Piora muito a situação quando ela descobre que o marido estava amarrado em Annik, tratada com superficialidade no filme, por motivos evidentes, mas que dá depoimentos esclarecedores no documentário.

Ela sabia com qual intensidade Curtis se tornava outra pessoa no palco, ao mesmo tempo frágil e forte. Mas como seus outros amigos, ela não se deu conta a tempo de que toda a angústia das letras de Curtis era reflexo de profundos dilemas reais. Não era apenas arte com referências cultas de Kafka, Shakespeare ou Dostoievski. Da mesma maneira como não se decidia a abandonar ou continuar com a banda, o cantor tentou em vão terminar a relação paralela para salvar o casamento, para o qual não estava preparado. Aliança de ouro na mão esquerda não combina mesmo com rock nem poesia punk. Sem conseguir sustentar a farsa por muito tempo, deprimido pelo efeito dos vários remédios que tomava para controlar a epilepsia, fechado em sua caverna sombria e impenetrável, ele perdeu o controle da situação.

O documentário vai mais fundo na influência do cenário apocalíptico da Manchester, em meados do século passado, sobre o moral de seus habitantes. Na industrial, feia, fria e suja cidade britânica, que o Joy Division ajudou a colocar no mapa-múndi musical, uma criança pobre poderia demorar até nove anos para ver uma árvore. Isto é o que diz um dos entrevistados e explica por que não dava mesmo pra fazer música muito feliz ali. Os conterrâneos Morrissey e Johnny Marr, que formaram The Smiths dois anos depois da morte de Curtis, que o digam.

Serviço
Control (EUA-Reino Unido/2007, 121 min.) - Drama. Dir. Anton Corbijn. 16 anos.Joy Division (EUA-Reino Unido/ 2007, 93 min.) - Documentário. Dir. Grant Gee. Estréia no dia 6/6. Cotações: Ótimos

Festival recebe Nachtergaele com aplauso comedido

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 22/05/08

61º Festival de Cannes

Na estréia ontem, parte do público aplaudiu monólogo de Paulo José; outros deixaram sessão em cena de incesto

"A Festa da Menina Morta" mostra comemoração dos 20 anos do sumiço de uma garota; família vive em torno de seu fantasma

SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL A CANNES

Ao apresentar seu primeiro filme como diretor, ontem, na mostra Um Certo Olhar, do 61º Festival de Cannes, falando em francês, Matheus Nachtergaele disse que "A Festa da Menina Morta" pertence a "uma grande parte do cinema brasileiro, porém não muito conhecida, que se arrisca a falar desse país enorme, maravilhoso e terrível que é o nosso".

A produtora Vania Catani (Bananeira Filmes), uma das 15 pessoas da equipe que acompanhava Nachtergaele no palco da sala Debussy, fez uma breve e emocionada declaração: "Há cinco anos, entrei pela primeira vez nesta sala. Desde então, sonhei sozinha que esse seria um bom lugar para começar a mostrar nosso filme".

A pedido do diretor, toda a equipe se deu as mãos e ficou em silêncio durante um minuto, repetindo o gesto que antecedeu cada dia das filmagens.

No fim da projeção, que teve a presença do júri da mostra, os aplausos foram comedidos; alguns críticos franceses trocaram impressões favoráveis ao filme.

Comparado a Glauber Rocha por uma jornalista do festival, Nachtergaele disse: "Admiro muito o Glauber. Ele é um mestre para todos os que, de fato, amam o cinema. Mas será que fui tão louco para fazer um filme como os dele?".

Santidade
Em "A Festa da Menina Morta", a família de uma criança desaparecida no interior do Amazonas passa a viver em torno de seu fantasma. O filme acompanha a preparação da festa dos 20 anos do desaparecimento da menina. Nesse tempo, os moradores da região passam a atribuir poder milagroso aos trapos do vestido que a garota usava e a acreditar na santidade de quem os encontrou -um irmão dela, vivido por Daniel Oliveira.

O comportamento religioso da comunidade e a dinâmica interna da família são observados pelo filme. Na casa de Santinho, é tacitamente proibido falar da mãe, que se matou.

O pai dedica-se à bebida e às mulheres, mas é também amante do próprio filho, que julga santo. O irmão descrê do milagre e do caráter religioso da festa -"Qual o milagre aqui? Isso é só um bando de homem bebendo cerveja"-, mas se sente compelido a participar.

A exploração econômica e política da fé religiosa é outro aspecto do filme, insinuado na festa, ápice do filme e da interpretação de Oliveira.

Incesto

Enquanto o público consome churrasco e música regional do lado de fora, dentro da casa de Santinho há um reencontro com sua mãe (Cássia Kiss) e as razões do ato desesperado.

Durante a sessão do filme, alguns espectadores abandonaram a sala, a partir do momento em que se concretiza a primeira cena de incesto, filmada na discrição de uma penumbra. Outros aplaudiram um monólogo do ator Paulo José, que interpreta um padre.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A volta de Indiana Jones

Fonte: Revista Isto é - Acesso em 19/05/08 - http://www.istoe.com.br/

Ausente dos cinemas há duas décadas e agora interpretado por um Harrison Ford sessentão, o popular herói dos filmes de aventura retorna em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal

IVAN CLAUDIO Colaborou Natália Rangel

EM FORMA Indiana Jones (Harrison Ford) briga com um soldado russo na nova aventura filmada, em parte, em florestas do Havaí

As novas gerações não viram Indiana Jones nos cinemas – a sua última aparição nas telas aconteceu em 1989. Pois bem, um dos heróis recentes mais aclamados dos filmes de aventura está de volta depois de quase duas décadas de descanso em sua quarta e eletrizante apresentação, no aguardado filme Indiana Jones e o reino da caveira de cristal – estréia no Brasil e em diversos países no feriado da quinta-feira 22. O seu retorno marca também o reencontro de três das maiores estrelas de Hollywood: Steven Spielberg, diretor de toda a série, George Lucas, criador do personagem e dos enredos, e o ator Harrison Ford, que aos 65 anos encarna mais uma vez o corajoso e bem-humorado Indiana. É para as novas gerações que se endereça a atual versão: Indiana Jones é um professor e arqueólogo americano que enfrenta tribos selvagens, árabes ensandecidos e nazistas armados até aos dentes em explorações arriscadas nos confins do mundo, tudo para ganhar a posse de raridades arqueológicas dotadas de poderes sobrenaturais. Apesar da coragem com que enfrenta perigos de toda ordem, ele tem um ponto fraco: morre de medo de cobras. Uma de suas idiossincrasias, comum em todas as histórias anteriores e que até virou parte de seu charme, continua presente: o personagem veste no calor dos trópicos uma jaqueta de couro, não a tira sob nenhum pretexto, e usa um chapéu de feltro mais apropriado ao inverno dos EUA. Mantém ainda o seu chicote afiado. As três aventuras (a primeira foi em 1981), que estão sendo relançadas em DVD, renderam em bilheteria cerca de US$ 1,18 bilhão.

O arqueólogo conta a com a ajuda de Mutt (Shia LaBeouf) e Marion (Karen Allen)

Desde que foi anunciada a filmagem desse quarto episódio, uma superprodução de US$ 125 milhões, ele passou por diversos títulos. Alguns deles: Indiana Jones e a cidade dos deuses, Indiana Jones e o destruidor dos mundos, Indiana Jones e os quatro cantos da terra, Indiana Jones e a cidade perdida do ouro, Indiana Jones em busca da santa aliança. Como parte de uma calculada estratégia de marketing, toda vez que Spielberg se referia ao novo trabalho dizia apenas que estava se divertindo bastante com “Indiana Jones e ...” – soletrava então, de forma incompreensível, qualquer coisa sem sentido. A expectativa foi crescendo até que o ator Shia LaBeouf, que interpreta o novo parceiro de aventuras de Indiana, soltou o título da produção durante o MTV Music Awards, em setembro do ano passado. A partir daí, o tal “reino da caveira de cristal” passou a cintilar na curiosidade dos fãs, mas ninguém estava autorizado a dizer nada sobre o que se passava dentro dos quatro estúdios em que Spielberg enfurnou-se por três meses (as cenas de florestas tiveram locações naturais no Havaí). Como quem guarda um tesouro, o diretor exigiu que os atores e toda a equipe técnica assinassem um termo de compromisso que os proibia de revelar qualquer detalhe da produção. Foi o ator Tyler Nelson quem cometeu a inconfidência. Mero figurante do filme (interpreta um soldado russo que dança balalaica), ele concedeu entrevista a um jornal de sua cidade natal, a obscura Edmond, em Oklahoma, revelando que a história mostrava Indiana Jones e o exército soviético brigando por uma relíquia de quartzo. Foi processado por Spielberg e na montagem final cortaram a sua dança folclórica.

Passada em 1957, em plena Guerra Fria, que opôs o países capitalistas e comunistas (respectivamente capitaneados pelos EUA e pela extinta União Soviética), a trama mostra Indiana Jones numa expedição particular ao Peru em busca da tal peça sumida. Não se trata de uma relíquia qualquer: o objeto sagrado pertence ao reino de Akator (referência ao reino subterrâneo de Akakor, que teria existido na fronteira entre o Brasil e o Peru) e guarda poderes desconhecidos que podem levar um povo a dominar o planeta. Os russos, por exemplo, e seu batalhão de homens de verde. À frente deles está a bela e fria oficial Irina Spalko, cujo papel ficou a cargo de Cate Blanchett. Spielberg quis que Cate tivesse ares da estrela alemã Marlene Dietrich, famosa por interpretar espiãs nos anos 30. Do outro lado do confronto, está Indiana e ele ganhou um amigo bem mais jovem, o “rebelde sem causa” Mutt Williams, interpretado por Shia LaBeouf. Spielberg pediu que o ator assistisse aos filmes Juventude transviada (com James Dean) e O selvagem (com Marlon Brando) para que entrasse no clima de seu personagem. LaBeouf não economizou na brilhantina do topete empinado. Algo pode parecer errado para os saudosistas que esperam ver na tela um personagem estacionado no tempo no que diz respeito a sua idade – ou seja, esperam pelo Indiana Jones jovem das três aventuras anteriores. É justamente aí que está um dos golpes de mestre de Lucas e Spielberg: eles envelheceram 20 anos o personagem para, dessa forma, poderem manter o galã Harrison Ford nesse papel. Tem-se, assim, um Indiana Jones sessentão.

Esse foi, com certeza, um dos fatores que emperraram o projeto desse quarto episódio: ainda que quisesse, Ford não conseguiria encarnar um Indiana com o mesmo vigor de duas décadas atrás. Ele está em forma, mas o tempo é implacável também para os astros e impõe os seus limites. Segundo o ator, que se submeteu a uma dieta de proteínas e a três horas diárias de academia, basta colocar o chapéu de feltro e a jaqueta de couro para o personagem “baixar” novamente. E ele jura ter dispensado dublês em muitas cenas de ação: “No primeiro filme eu rompi um ligamento do joelho, no segundo tive um problema nas costas que me levou à cirurgia em meio às filmagens. Agora, apesar de mais velho, não saí com nenhum machucado.” Há, no entanto, outro motivo para a demora no retorno do herói às telas. Em entrevista à revista americana Vanity Fair, Lucas contou que tanto Spielberg quanto Ford não gostavam da história que ele havia lhes apresentado, ainda em 1993. Nesse ano, Lucas se encontrara com Ford nas filmagens do seriado de tevê O jovem Indiana Jones e veio então a idéia de retomar a saga, desde que estivesse presente nela a tal caveira de cristal. “Sem a caveira, nada de Indiana”, dizia Lucas. Ao longo de 15 anos a história foi sendo desenvolvida por roteiristas do porte de N. Night Shyamalan (O sexto sentido), Frank Darabont (Um sonho de liberdade) e Chris Columbus (Harry Potter e a câmera secreta). Chegou- se enfim a um acordo (caveira mantida) justamente com a versão que envelhecia o herói. “O personagem batia com a minha idade, vivia um outro momento histórico e o que li era um grande roteiro. Então respondi: legal, vamos fazer mais um”, disse Ford. Com esses ajusajustes, outras novidades foram sendo incorporadas. A primeira delas é que, com a ação no período da Guerra Fria, a referência cinematográfica não deveria mais ser os matinês dos anos 30: a trama tem agora um jeitão de ficção científica série B. Não faltam, é claro, as impagáveis cenas de areia movediça, típicas dessas produções mais baratas.

VILÃ Cate Blanchett interpreta a militar Irina Spalko, em raro papel de ação

Sempre perfeccionista, Spielberg mandou o fotógrafo Janusz Kaminski “estudar” todos os títulos anteriores filmados por Douglas Slocombe para que o visual do presente não destoasse demais. Outra operação se deu em relação à reconstituição de cenários, como a Universidade Marshall, onde Indiana Jones dá aula com o nome de Henry Jones. O diretor evitou também o ritmo frenético dos blockbusters atuais porque acredita que o humor e a graça do personagem e das situações que ele vive vêm da tradição da comédia muda de Charles Chaplin e Buster Keaton. “Para conseguir o lado cômico que procuro nos filmes de Indiana, só mesmo sendo fora de moda”, disse Spielberg ao jornal The New York Times. Resta saber, no entanto, se a nova geração, que não teve a felicidade de ver Indiana Jones nos cinemas, vai gostar desse estilo cool e pleno de referências ao passado. Em 1981, quando Lucas e Spielberg revolucionaram os filmes de aventura, eles eram os grandes e terríveis rebeldes em Hollywood – Spielberg tinha 35 anos e ainda não filmara o seu clássico E.T. – o extraterrestre; Lucas contava 37 anos e se consagrava com O império contra-ataca. Hoje, os enfants terribles do cinema americano são os irmãos Wachovski, adeptos de uma estética bem mais alucinante. Mas bastou o trailer do novo Indiana Jones ser colocado no ar para, em cinco dias, ser visto por mais de dois milhões de internautas (o equivalente a 278 acessos por minuto). A julgar por esse número, o velho Indiana Jones ainda tem fôlego para muitas aventuras.

“SOU IMPREGNADO DE INDIANA JONES”

ISTOÉ – Qual é a sua lembrança do primeiro convite para interpretar Indiana Jones?
Harrison Ford – Tom Selleck fora convidado, mas não pôde aceitar porque estava comprometido com uma série televisiva. Recebi então um telefonema de George Lucas me pedindo para ler o roteiro e depois encontrar Steven Spielberg em sua casa. Eu não o conhecia, mas estava muito entusiasmado com a história. O encontro foi ótimo. Deu no que deu.

ISTOÉ – É verdade que o personagem iria se chamar Indiana Smith?
Ford – Não tenho idéia de onde George o tirou. O que sei é que Indiana era o nome do cachorro que ele tinha.

ISTOÉ – Como deu tanta personalidade ao personagem?
Ford – Quando se lê que ele anda com um chicote, usa um chapéu de feltro e não tira a jaqueta de couro na selva, percebe-se que ele é uma pessoa particular. É só vestir suas roupas para logo compreender quem ele é. E, então, saber o que o ator tem de fazer.

ISTOÉ – Então foi só colocar de novo o chapéu para ele retornar?
Ford – Sim. Tive uma longa experiência como Indiana Jones e não me surpreende que eu esteja impregnado dele.

ISTOÉ – Por que o público se identifica tanto com Indiana Jones?
Ford – Porque ele vive aventuras imprevisíveis. O que mais atrai, no entanto, é a alegria e o prazer proporcionados por uma história bem contada.

ISTOÉ – O que impressiona em Spielberg?
Ford – A sua fluência e talento cinematográficos. Tem apurado senso de como o cinema funciona e ama todo esse processo, o que dá prazer de trabalhar ao seu lado.

ISTOÉ – Acreditava que seria possível retomar a série depois de 19 anos?
Ford – Eu imaginava que isso iria acontecer um dia. Cinco ou seis anos depois do terceiro episódio, começamos a conversar sobre essa possibilidade.

ISTOÉ – Foram escritos muitos roteiros?
Ford – Algumas versões da história não foram na direção certa, mas eu sabia que iríamos achar o tom.

ISTOÉ – Harrison Ford, 19 anos mais velho, agora com 65 anos de idade. Isso é mostrado com humor no filme?
Ford – Indiana está tão bem conservado como eu.

ISTOÉ – Muitos atores evitam as continuações. Não é o seu caso.
Ford – O show business tem sido generoso comigo.

"Indiana é uma pessoa particular. É só vestir as suas roupas para logo se compreender quem ele é" Harrison Ford, ator

domingo, 18 de maio de 2008

Gaúcha ensaia carreira em Bollywood

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 18/05/08

Modelo Bruna Abdalah, 21, começa a chamar atenção na forte indústria cinematográfica indiana; idioma ainda é barreira

Brasileira fez uma ponta em superprodução, apresentou programa de TV e já virou alvo da imprensa de fofocas: "Tiro o telefone do gancho, não dá"

LUCAS NEVESDA

Na cobertura de um arranha-céu futurista, uma bela morena em frugais trajes vermelhos sacoleja enquanto entoa "Rehem Kare", circundada por uma dezena de dançarinas vestidas à la Liza Minnelli em "Cabaret". Depois do refrão, entra um rapper indiano cabeludo pedindo "have mercy, girl, have mercy" (tenha misericórdia, garota...).A cena é de um dos números musicais do filme "Cash" (veja digitando "bruna abdalah" + "cash" no YouTube), e a Britney Spears indiana é a gaúcha Bruna Abdalah, 21, modelo que tenta a sorte em Bollywood, a forte indústria cinematográfica daquele país. A ponta na fita policial ("Todo mundo é bandido no filme, mas não posso falar direito; nem eu assisti") é seu début na tela grande. "A letra da canção é sobre "worshipping a god" [adorar um deus]", explica, num português sem sotaque, mas, como se vê, hesitante.Antes de "Cash", ela estrelou um clipe da estrela local Shekhar Suman. No início deste ano, apresentou, num canal de TV aberta, o concurso "India's Hottest", em que, "de vestidinho curto, coladinho", buscava o casal mais bonito do país -que levou US$ 10 mil (cerca de R$ 16.500).Foi esse programa que a tornou conhecida do grande público indiano -e, por tabela, alvo preferencial da imprensa de fofocas. Já andaram até apontando-a como pivô da separação de um casal de estrelas (Salman Khan e Katrina Kaif). Além de Britney, seria ela uma Angelina Jolie indiana?"Fiquei no jornal e na televisão por duas semanas. Que adianta? Se você dá entrevista, eles não escrevem o que tu fala. Se não dá, eles escrevem do mesmo jeito! Encontrei o Salman [Khan] duas vezes. Ele me aconselhou e me deu o nome de uma agência", diz ela.Aqui no Brasil, onde passa férias, Abdalah também parece algo incomodada com o interesse da mídia por sua carreira. "Não sei o que aconteceu. Out of the blue [de repente], todo mundo começou a ligar e perguntar de "Cash". Tiro o meu telefone do gancho. Não dá."

Modelo fashion?

Antes de começar a deixar o telefone mudo, ela trabalhou, na adolescência, numa agência da Caixa Econômica Federal. "Adoro matemática, números. Sempre quis fazer economia ou comércio exterior. Pensei que trabalhar no banco iria ajudar."Em 2001, aos 15 anos, quiçá entediada com a numeralha, inscreveu-se no concurso Garota Verão de sua cidade, Guaíba. Numa das seletivas, foi "descoberta" por um olheiro da Ford Models, que logo a indicou a um agente japonês. Seguiram-se três anos de viagens por Japão, Tailândia, Malásia, Indonésia, China e Filipinas. Até que colegas a convenceram a fixar residência na Índia."Acho que sou parecida com as meninas de lá. Não sou modelo fashion, assim, sabe? Não sou muito alta, tenho mais corpão, não sou muito seca. Acho que eles não gostam muito de modelo fashion. Aí dei sorte", sugere, para explicar o sucesso.Agora, ela estuda o idioma hindi para poder assumir papéis de peso. "Já tive vários convites, mas não quero fazer dublagem. Quero falar fluente, saber me expressar. Tem um monte de gente que me chama de louca [por recusar ofertas]."Enquanto isso, ela decora fonemas para declamar em anúncios. "Acabei de gravar um da pasta de dente Colgate. Vou ser a garota Colgate 2008. Sou muito orgulhosa de falar isso: simplesmente todas as mulheres da Índia fizeram teste, e eu consegui. Eu dou mesmo para comercial, não adianta."

sábado, 17 de maio de 2008

Dramas familiares entram na competição

Fonte: Folha de São Paulo - 17/05/08

61º Festival de Cannes

Apesar da temática comum, filmes de Desplechin e Ceylan têm formatos opostos Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni atuam em "Un Conte de Noël", de Arnaud Desplechin, esperança francesa pela Palma de Ouro

SILVANA ARANTES

Dois dramas familiares, similares na densidade emocional, mas radicalmente diferentes na forma, estrearam ontem na competição pela Palma de Ouro no 61º Festival de Cannes.

O francês "Un Conte de Noël" (um conto de natal), de Arnaud Desplechin, tem na enfermidade -dois casos de câncer de medula e um de esquizofrenia- a detonadora das desavenças, mas também a ocasião da reunião da família Vuillard, cuja matriarca é interpretada por Catherine Deneuve.Já o turco "Üç Maymun" (três macacos), de Nuri Bilge Ceylan, usa o desvio e a culpa como elementos de ligação e afastamento da família -por dinheiro, o marido assume um delito que não cometeu; a mulher o trai, quando se apaixona por outro; o filho comete um crime, por vingança.Enquanto "Un Conte de Noël" -no qual a crítica francesa deposita as esperanças de que o país quebre o jejum de 21 anos sem vencer a Palma de Ouro- é palavroso e toma códigos do melodrama, "Üç Maymun", cujo diretor tem histórico de prêmios em Cannes, dispõe do silêncio e da inação para revelar os conflitos internos dos personagens.Os principais fatos do filme, como os crimes e a traição, não são mostrados. "Em primeiro lugar, gasta-se muito dinheiro para filmar realisticamente um acidente", diz Ceylan, adepto da produção artesanal, com equipe e recursos mínimos. "Mas eu realmente gosto mais de não mostrar [esses fatos], porque talvez na imaginação você crie melhor [as cenas]", acrescenta.

O diretor turco diz que compreende "a arte como um modo de exprimir as nossas incertezas". Nas vidas dos personagens de seu filme, o conflito em relação aos próprios sentimentos e atitudes são elementos cotidianos.Afetos e ódiosNo longa de Arnaud Desplechin, os afetos e ódios entre familiares não ficam represados por muito tempo. Eclodem em diálogos sinceros, como em um no qual mãe e filho declaram não amar um ao outro. "Gosto dessa cena, porque esse é um tipo de coisa que é proibido de dizer", afirma a atriz Catherine Deneuve."Muito liberador" é como a atriz Chiara Mastroianni classifica o longa. Filha de Deneuve com Marcello Mastroianni, Chiara interpreta no filme a nora de quem a sogra (Deneuve) não gosta. Ela, porém, é objeto do amor não apenas de seu marido como também de um primo dele.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O éden sem classes

Lady Chatterley, uma bela adaptação do romance de D.H. Lawrence, resgata uma heroína libertária

Isabela Boscov

Escrito e reescrito pelo inglês D.H. Lawrence (1885-1930) nos últimos anos de vida, numa espécie de febre contra os males de seu tempo, o romance O Amante de Lady Chatterley foi um dos maiores escândalos da história da literatura, comparável ao criado por Gustave Flaubert no século XIX com Madame Bovary. Apenas em 1960, mais de três décadas após sua publicação, ganhou uma versão sem cortes na Inglaterra – onde continuou a ser tachado de pornográfico, doentio ou imoral. A protagonista, a jovem Constance Chatterley, mora com o marido, Clifford, numa propriedade cuja riqueza é mantida pelas minas de carvão adjacentes. Clifford voltou paraplégico da I Guerra, e o contato físico entre ele e a mulher se resume aos cuidados que ela lhe dispensa (e há indícios de que mesmo antes esse contato não era lá grande coisa). Constance está fenecendo, assim como esse mundo de distinções sociais e riqueza ociosa à volta dela. A certa altura, porém, ela começa um caso com Oliver Parkin, o guarda-caça da propriedade, e desabrocha. Lawrence confronta um punhado de tabus: o veterano de guerra impotente, a insatisfação sexual feminina, o adultério – e entre classes sociais diferentes –, as muitas cenas explícitas de sexo e a linguagem franca. Nada disso, porém, poderia ser considerado subversivo nos dias de hoje, e a inteligência com que a diretora Pascale Ferran encontra outro cerne no romance é o trunfo de Lady Chatterley (França/Inglaterra, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país.

O centro do filme, baseado em John Thomas and Lady Jane, a segunda e menos verbosa versão escrita por Law-rence, é o erotismo. Não apenas o do despertar sexual de Constance e Oliver (Marina Hands e Jean-Louis Coul-loc’h), que criam na floresta onde se encontram um éden sem classes: quanto mais a protagonista estreita sua relação com a natureza e com seu próprio desejo, mais essa sensualidade adquire um efeito contagiante. A diretora fotografa de forma inspirada esse lento florescimento, sublinhando os sons da natureza, a mudança das estações e fazendo com que até a fisionomia de Constance pareça cada vez mais limpa e aberta. Ler Lawrence hoje pode ser mais uma tarefa do que um prazer. Mas Lady Chatterley recupera o achado verdadeiramente inovador e transgressivo do autor – a heroína que, em vez de ser punida pelo adultério, como a pobre Emma Bovary, dá as costas a toda convenção e insiste no júbilo que sua paixão lhe proporciona.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

A metamorfose do mal

No magistral A Vida dos Outros, um espião da Alemanha Oriental descobre a beleza

Isabela Boscov

Sentado à frente da máquina de escrever, com fones de ouvido que filtram a conversa vinda do andar de baixo, Gerd Wiesler, cinqüentão, espião zeloso da Stasi, a horrenda polícia secreta da Alemanha Oriental, é o rosto de um estado que se transformou inteiro numa máquina de vigiar e corromper. Um rosto cinzento que, muito apropriadamente, não tem expressão nem inflexão – de um homem cuja existência ninguém registra, mas que vive de registrar a existência alheia. No início do magnífico A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, Wiesler dá a um grupo de futuros espiões aulas sobre técnicas científicas de interrogatório; na cena seguinte, na platéia de um teatro, reage não com a objetividade que prega, mas por instinto. A questão é que espécie de instinto, se profissional ou pessoal. Wiesler olha a figura de Georg Dreyman (Sebastian Koch), bonito, autoconfiante e o único dramaturgo leal ao Partido que também é lido no Ocidente, e se convence de que ninguém pode ser tão perfeito assim. Ou talvez Wiesler tenha se perturbado com o beijo que flagrou, nos bastidores, entre Georg e sua atriz, a bela Christa-Maria (Martina Gedeck). Sejam quais forem seus motivos, no dia seguinte Georg terá deixado de ser o único artista do país livre da vigilância estatal. Wiesler entra em seu apartamento durante sua ausência, esconde microfones por toda parte e, do andar de cima, se transformará no vírus que vai infectar a intimidade de Georg e Christa. No meio do caminho, porém, algo acontece: o espião ouve, em vez de uma conspiração, uma música que o emociona; e, principalmente, escuta nas pequenas interações do casal algo que não conhece, mas que reconhece de imediato como precioso – amor, alegria, atração, beleza, calor. Para sua surpresa e também para seu imenso risco pessoal, ele se reconfigura então de delator em protetor.

Ganhador do Oscar de produção estrangeira deste ano, A Vida dos Outros se passa em 1984, cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, quando a Stasi tinha algo como 100.000 agentes a seu serviço, além de uns 170.000 informantes. Mais metódica e paranóica ainda que a KGB russa, a organização mantinha registros de cada uma das máquinas de escrever do país – o que tornava impossível escrever um texto anônimo – e preservava até amostras do cheiro de seus suspeitos, caso fosse necessário procurá-los com cães. A australiana Anna Funder, autora do premiado livro Stasiland, objetou com veemência ao filme: segundo ela, não há, em todos os registros da Stasi, um único indício de que alguma vez um espião tenha protegido seus vigiados. Essa licença poética, porém, é a única que o diretor estreante Florian Henckel von Donnersmarck toma com a história. Em um roteiro primoroso, ele combina os fatos da vida na Alemanha comunista à trajetória de seus personagens de forma indivisível. Cada detalhe factual corresponde a um ponto dramático do enredo. No cinema recente, de qualquer nacionalidade, é difícil pensar num outro filme que atinja essa fusão entre o ficcional e o histórico de forma tão completa; e, no cinema alemão em particular, esse é um exemplar único na sua recusa em romantizar ou relativizar a crueldade que prevalecia do lado de lá do Muro, como o fazia Adeus, Lênin!. Aqui, a supressão do íntimo e do pessoal é absoluta – um pesadelo orwelliano dentro do qual gerações tiveram de viver, dia após dia.

Se A Vida dos Outros é verdadeiramente superlativo, porém, a razão está em Ulrich Mühe, que foi um dos grandes nomes do teatro alemão-oriental, esteve ele próprio sob vigilância da Stasi e submeteu o diretor a duas sabatinas antes de se confiar a ele. Mühe constrói o impassível Wiesler sem nenhum dos recursos práticos de um ator – olhares, gestos, tons de voz. Mais do que encarnar o personagem e sua metamorfose, ele os irradia para a platéia. E, com sua frase final – um simples "É para mim" –, ele demole até a última justificativa possível para a existência de algo como a Alemanha Oriental. Mühe morreu em julho passado, aos 54 anos, de câncer do estômago. Deixou uma carreira não mais do que breve no cinema. Mas, nem que fosse feita unicamente deste filme, ela já seria colossal.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

Épico ou cômico?

Com Beowulf, Robert Zemeckis fez uma piada ruim – e interminável

Isabela Boscov

Está batendo na porta errada quem pensa encontrar em A Lenda de Beowulf (Beowulf, Estados Unidos, 2007) qualquer coisa que explique ou justifique por que esse poema épico, uma das peças fundadoras da língua e da literatura inglesas, resistiu aos últimos 1.500 anos. Em comum com a saga do guerreiro que livra um reino escandinavo de monstros como o medonho Grendel e um dragão, o filme que estréia nesta sexta-feira no país tem os nomes dos personagens e, vá lá, uma ou outra situação. Umas poucas coincidências, enfim, complementadas por quantidades imoderadas de tolice, chatice e humor involuntário. Como já fizera em O Expresso Polar, o diretor Robert Zemeckis se vale aqui da performance capture, técnica que costuma ser usada tão-somente como auxiliar na feitura de um filme, e que só ele entende como sua principal razão de ser.

Em linhas gerais, o que a performance capture faz é pegar atores como Anthony Hopkins, Robin Wright-Penn e John Malkovich, vesti-los em macacões cheios de sensores para que as coordenadas de seus movimentos e expressões sejam transmitidas ao computador, e então transformá-los em desenho animado – processo ao fim do qual todos eles ficam mais esquisitos e canastrões, com cara de algo que sobrou de Shrek. O inglês Ray Winstone, que é um grande ator mas tem uma bela barriga de cerveja, ilustra o máximo de sucesso que Zemeckis conseguiu atingir: no papel de Beowulf, ele aparece malhadésimo (o melhor momento é a cara de ai-jesus que a rainha faz quando ele deixa cair a túnica), mas drenado de qualquer talento – uma espécie de Patrick Swayze viking. Já Angelina Jolie, como a bruxa que seduz os guerreiros, demonstra o que acontece quando se tenta retocar o irretocável.

Como agravante, A Lenda de Beowulf foi feito para ser exibido em 3D nas salas que dispõem do sistema. Toda a energia que poderia ter sido empregada na confecção do roteiro – algum roteiro – foi despendida em bolar situações em que objetos e pessoas são arremessados perpendicularmente à tela. Some-se a isso a apelação que Zemeckis confunde com sexo e violência, mais uma variedade extensa de sotaques bizarros, pretensamente arcaicos, e o que se tem não é mais uma epopéia. É uma piada, ruim e interminável.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A nova trincheira da guerra

A presença americana no Iraque é o alvo de uma safrade filmes feitos "a quente", que condenam o conflito

Isabela Boscov

No devastador No Vale das Sombras (In the Valley of Elah, Estados Unidos, 2007), Tommy Lee Jones é um militar aposentado que procura pelo filho: em licença numa base americana depois de um período no Iraque, o rapaz não só deixou de se reapresentar ao pelotão, como parece ter sumido da face da Terra. Em alguns dias, será declarado desertor. O pai, Hank, conversa com os amigos e os superiores do filho, liga para velhos companheiros pedindo ajuda, vai à polícia – e encontra apenas evasivas ou desinteresse. Numa visita ao alojamento do desaparecido, surripia o celular deste, onde encontra fragmentos de imagens feitas durante ações. Tommy Lee Jones é um mestre da introversão e, quanto menos ele fala, mais o espectador se conecta ao seu pressentimento de que algo terrível aconteceu. Quão imensamente terrível, porém, é algo que só saberá ao final da investigação conduzida por Hank e pela detetive de polícia Emily (Charlize Theron, numa grande atuação). O novo filme do diretor Paul Haggis, que começa a ser exibido no país nesta sexta-feira, representa um colossal salto dramático em relação ao ultramanipulativo Crash. Haggis usa a forma do whodunit, em que se tenta identificar o autor de um crime, para chegar a um culpado bem mais incontrolável do que este ou aquele homem: a guerra. Não a guerra como entidade genérica, mas esta guerra, a do Iraque, com suas especificidades. No Vale das Sombras é um dos primeiros filmes a fazer tal indiciamento, mas não será um dos únicos. Num fenômeno sem precedentes no cinema americano, o conflito no Iraque começa a originar produções em número suficiente para constituir desde já um gênero

Entre 1939 e 1945, rodaram-se dezenas de filmes acerca da conflagração que se desenrolava na Europa e no Pacífico – mas eram feitos com o intuito de promover o esforço de guerra. Os enredos de contestação surgiram apenas com o envolvimento americano no Vietnã. Ou, bem entendido, depois que ele se encerrou. Enquanto os soldados ainda lutavam no Sudeste Asiático, apenas uma produção abordou diretamente o tema – a patriotada Os Boinas Verdes, com John Wayne. O que a ocupação iraquiana está criando, portanto, é uma criatura nova: filmes que a dissecam e, até agora, exclusivamente a condenam enquanto ela ainda está em curso. Existe aí uma ironia, ou talvez uma tentativa de compensação. No caso do Vietnã, a batalha pela opinião pública foi travada nos jornais e noticiários, que não se furtavam a mostrar as imagens mais horrendas do conflito e contribuíram assim para torná-lo politicamente insustentável. Desde que os Estados Unidos entraram no Iraque, entretanto, as cenas de massacres ou de caixões cobertos com a bandeira americana têm sido submetidas a uma pesada autocensura, em nome do combate ao terror e por medo das acusações de "antipatriotismo". Os cineastas se adiantaram para ocupar esse vácuo.

A primeira leva foi a dos documentários, de Gunner Palace, sobre o início da hostilidade iraquiana à força de ocupação, ao recente No End in Sight, que analisa os erros cometidos na aventura militar da gestão George W. Bush – e argumenta que eles são irremediáveis. Nos últimos tempos, porém, a opinião pública americana deu uma guinada decisiva. Nas últimas pesquisas, já são maioria os cidadãos que acham que a guerra está sendo mal conduzida, que o objetivo anunciado de "levar a democracia ao Iraque" não será atingido, e que as tropas deveriam ser trazidas de volta. Que pensam, enfim, que seu país se enfiou num atoleiro. Diante desse clima, a esmagadora maioria democrata da indústria do entretenimento passou a se sentir à vontade para falar a platéias mais amplas, com filmes de ficção estrelados por nomes famosos e bancados pelos grandes estúdios.

A safra que vem por aí contém de tudo – exceto filmes que endossem a intervenção. (O que chega mais perto dessa visão é O Reino, com Jamie Foxx, que vai bem até começar a tratar os "nativos" árabes como estúpidos ou como alvos anônimos para tiros.) São dramas em que as famílias pagam o ônus da perda (Grace Is Gone, com John Cusack) ou sofrem sob acusações infundadas (O Suspeito, com Reese Witherspoon e Jake Gyllenhaal); vistas dos bastidores de Washington (Leões e Cordeiros, em que o senador interpretado por Tom Cruise tenta jogar uma cortina de fumaça sobre o fiasco iraquiano); e, nos casos mais ousados, recriações de atrocidades cometidas por soldados americanos (Redacted, de Brian De Palma, e Battle for Haditha, do inglês Nick Broomfield). Estão em produção, ainda, roteiros sobre a dura volta para casa, como Stop Loss, em que Ryan Phillippe tenta desertar durante uma licença no Texas.

Nenhum desses filmes, porém, é tão cirúrgico quanto No Vale das Sombras. Das sugestões tanto de sofrimento quanto de sadismo contidas nas imagens do celular do soldado desaparecido à relutância do comando militar em que se apure o seu paradeiro – além da má vontade da polícia local, cansada dos problemas com combatentes em licença –, o cenário que o diretor e seus dois protagonistas desenham é perturbador: um cenário em que o travo de ilegitimidade que paira sobre essa guerra transforma a própria natureza dos homens que vão lutar nela, fazendo deles seres irreconhecíveis no front e pá-rias em casa. Hank, que lutou no Vietnã, não compreende como algo tão monstruoso possa ter acontecido a seu filho, e com ele. A conclusão a que No Vale das Sombras assoma, então, não é que o Iraque seria um novo Vietnã. É que pode estar sendo ainda pior do que ele.

VISÕES DA GUERRA
Como a nova safra de filmes sobre o Iraque e o terror abarca os diversos aspectos do conflito, da experiência do combate ao trauma das famílias

DE DENTRO DOS GABINETES Os embates travados na esfera dos políticose autoridades que controlam a guerra

O REINO O enredo: um time de agentes federais americanos, que inclui Jamie Foxx e Jennifer Garner, toma as rédeas da investigação de um massacre de ocidentais empregados por uma petrolífera na Arábia Saudita

LEÕES E CORDEIROS O enredo: na mais estimulante de três histórias que se entrelaçam, um senador republicano interpretado por Tom Cruise tenta "vender" a uma jornalista um novo plano de ataque para reconquistar a opinião pública para o Iraque

DE DENTRO DE CASA Os reflexos do conflito no dia-a-dia dos americanos comuns

O SUSPEITO O enredo: um engenheiro de origem árabe, morador de Chicago, é transportado pela CIA para outro território, para que possa ser preso sem acusação formal e torturado. Sua mulher (Reese Witherspoon) tenta em vão descobrir seu paradeiro

GRACE IS GONE O enredo: um pai, interpretado por John Cusack, tenta encontrar uma maneira de contar às suas duas filhas pequenas que a mãe delas acaba de ser morta em combate no Iraque

DA LINHA DE FRENTE As experiências freqüentemente monstruosas dos soldados em combate

REDACTED O enredo: o diretor Brian De Palma usa imagens feitas pelos combatentes e cenas de documentários e noticiários para ficcionalizar um episódio real, de uma garota iraquiana que foi estuprada e depois assassinada, junto com sua família, por soldados americanos

BATTLE FOR HADITHAO enredo: outra recriação de um caso tido como verídico – o massacre de 24 civis iraquianos, entre os quais mulheres e crianças, por um grupo de fuzileiros navais americanos, em retaliação pela morte de um companheiro

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - 12/11/07

Brad Pitt é Jesse James

O ator americano interpreta o fora-da-lei nos últimos anos de vida num filme que ele produziu e que lhe deu o primeiro grande prêmio de atuação de sua carreira

IVAN CLAUDIO

CAIPIRA Brad Pitt cresceu em Springfield, a mesma cidade de Jesse James, e usou o sotaque da região no filme sobre o pistoleiro

De uns anos para cá, o astro Brad Pitt virou uma espécie de fora-da-lei de Hollywood: tem um dos maiores salários (mais de US$ 20 milhões por trabalho), nunca faz o que a indústria de filmes deseja e vive em fuga das lentes dos paparazzi. Em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, EUA, 2007), que estréia no Brasil no dia 23, Pitt dá vida literalmente a um fora-dalei, talvez o maior de toda a história do Velho Oeste americano. Trata-se do pistoleiro Jesse James, que já foi vivido anteriormente por Tyrone Power e Robert Wagner, entre outros, mas nunca com o carisma de um ator cuja condição de celebridade cai como uma luva para a situação do personagem retratado. É que esse Jesse James, dirigido com sobriedade e pretensões artísticas pelo neozelandês Andrew Dominik, coloca em evidência justamente a fama do bandido, àquela altura conhecido em todo o país por seus espetaculares roubos a bancos, trens e carruagens, e tema de inúmeras novelas baratas, as chamadas “dime novels” – algo como os livrinhos de cordel dedicados a Lampião. No lançamento do filme em Londres, terra dos tablóides sensacionalistas, Brad Pitt confirmou essa coincidência: “Quanto mais eu entrava na história de Jesse James, mais eu ficava surpreso em ver como esse tipo de imprensa já estava vivo e em pleno funcionamento naquela época. Já existia sensacionalismo e fabricação dos fatos. Foi muito curioso constatar que isso não mudou muito.”

É justamente um fanático leitor das histórias sobre Jesse James veiculadas nos jornais e nos livrinhos de bolso que divide a cena com o protagonista. Trata- se de Robert Ford (interpretado por Casey Affleck), um rapaz de 19 anos, irmão de um dos integrantes do bando de James (conhecido como James-Younger Gang), que tenta a todo custo ganhar a confiança do chefe e fazer parte do grupo. E é ele quem mata o bandido com um tiro nas costas (nenhuma surpresa, já que esse detalhe está no título do filme), coroando uma relação de admiração e ódio sob a qual muitos vêem uma enrustida paixão homossexual. Numa cena em que Ford, uma espécie de Mark Chapman do século XIX, observa James tomar banho, este pergunta a ele: “Você quer ser como eu ou você quer ser eu?” Na entrevista coletiva do Festival de Veneza, em setembro passado, Pitt (que ganhou o prêmio de melhor ator) comentou o assunto: “Não acho que exista uma conotação homoerótica na relação entre eles, mas, se causa prazer para alguns imaginar assim, não vejo problema. É até possível.”

Como raramente acontece, Pitt tem viajado muito para o lançamento do faroeste, sempre acompanhado de sua mulher, Angelina Jolie, e dos quatro filhos – os adotivos Maddox, seis anos, Pax, três, e Zahaara, dois, e Shiloh, de um ano. Seu interesse no filme é grande. Afinal, ele é o co-produtor da fita, orçada em US$ 30 milhões, por meio de sua empresa, a Plan B Entertainment, que colocou também de pé o mais recente trabalho de Angelina, O preço da coragem, ainda em cartaz. Jesse James estava previsto para estrear no ano passado, mas ficou um ano sendo remontado até chegar às 2h40 finais (a primeira versão durava quatro horas). Como se suspeita pela longa duração, trata-se de mais um daqueles faroestes crepusculares, a exemplo de Jeremiah Johnson e outros realizados nos anos 1970. Dessa vez, o foco foi lançado nos últimos anos de um pistoleiro, justamente naquele período em que, cansado da vida de crimes, ele decide levar uma vida anônima com a mulher e os filhos em alguma fazenda perdida no horizonte.

REBELDE James era visto como um Robin Hood

Foi exatamente isso o que aconteceu com o Jesse James da vida real, que foi morto em 1882, aos 35 anos. Considerado um mito pop como Elvis Presley ou James Dean, James foi homenageado por músicos como Bob Dylan, John Lee Hooker, Bruce Springsteen e Woody Guthrie, que o comparou a Robin Hood. A aura de rebelde veio da natureza de seus roubos: egresso das fileiras confederadas da Guerra da Secessão americana, ele justificava seu saque aos bancos como uma resposta à espoliação das terras sofrida pelos pequenos proprietários de terra sulistas, sua família incluída. Esse aspecto de sua biografia foi colocado em relevo pelo historiador inglês Eric Hobsbawn, no livro em que estuda o surgimento do banditismo social. Pitt aposta nesse mito e se diz até orgulhoso de aumentar-lhe o brilho com seus olhos azuis e cachos dourados – no filme, tingidos de preto. Segundo Pitt, 125 atores já interpretaram James, mas apenas ele tem uma conexão especial com o retratado: os dois cresceram na cidade de Springfield, no Estado de Missouri (Pitt nasceu em Oaklahoma, mas foi para aquela cidade ainda pequeno). “Eu não conhecia muito sua história, mas obviamente conheço bem sua região e sobretudo seu sotaque. Há muito tempo não podia falá-lo e foi um prazer tornar a fazê-lo nesse filme”, disse ele em Veneza. Na condição de astro, pode agora falar errado sem o risco de ser chamado de caipira, como aconteceu em Thelma & Louise, de 1991, o filme de Ridley Scott que o revelou e no qual interpretava um caubói às voltas com as duas mulheres entediadas com a vida.

Fonte: Revista Isto é - www.istoe.com.br - 12/11/07

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Zumbis atacam no Multiplex

Planeta Terror relembra velhos filmes de horror – e a experiência de vê-los num cinema ruim

Isabela Boscov

Mortos nos anos 80, primeiro pelo videocassete e depois pelos multiplex, os grindhouses, aqueles velhos cinemas pulguentos de centro da cidade que exibiam filmes sem parar (ótimos para se esconder da chuva, fazer hora ou ver o sexo e o sangue que os estúdios então não mostravam), deixaram pelo menos dois órfãos – Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Desde o início da carreira, quando se tornaram amigos, os diretores vêm tentando recriar em seus filmes as emoções lúbricas que, em garotos, viviam quando se refugiavam nessas salas decrépitas para ver produções baratíssimas sobre gangues de kung fu, ataques de zumbis, assassinos de garotas ou perseguições de carros. Há pouco mais de um ano, eles decidiram que o que faltava às recriações era o seu dado mais básico: a experiência do pulgueiro. O resultado foi Grindhouse, um conjunto de dois filmes, um a cargo de cada diretor, mais trailers de títulos fictícios (como o de Mulheres Lobisomem da S.S.) e um bocado de manipulação da película – que já vem riscada, mastigada e até com rolos faltando, substituídos por um acanhado "aviso da gerência". Lançado nos Estados Unidos como programa duplo, Grindhouse passou longe do sucesso que se esperava. Desde então, a dobradinha foi desmembrada (termo mais do que apropriado, considerando-se o conteúdo dos filmes). Planeta Terror (Planet Terror, Estados Unidos, 2007), o filme de Rodriguez, estréia nesta sexta-feira no país, precedido de só um dos trailers falsos. Prova de Morte, de Tarantino, deve chegar aqui apenas em março.

Planeta Terror é uma clássica fita de quinta categoria sobre zumbis. Um gás letal escapa de uma instalação militar, cobrindo todos nas imediações com pústulas borbulhantes e dando-lhes um insaciável apetite canibal. Convidados especiais como Bruce Willis, Naveen Andrews (o Sayid de Lost) e Michael Biehn (do primeiro Exterminador do Futuro) comparecem com as atuações mais pétreas de que são capazes. Os verdadeiros heróis são interpretados por Freddy Rodríguez, como um sujeito de pontaria infalível, e pela muito interessante Rose McGowan, como uma go-go dancer que, ao ter a perna arrancada por um zumbi, trata de substituí-la por uma metralhadora. Perneteando para lá e para cá e atirando no inimigo com seu cotoco, ela vai encarnar uma personagem atávica do gênero: a da "última garota", a quem caberá não apenas purgar o horror, como reiniciar a humanidade. Por limitações reais e fictícias de orçamento, o planeta do título é a Terra mesmo. Ou melhor, uma porção insignificante dela, em algum cafundó do Texas. Prova de Morte segue a mesma linha: Kurt Russell faz um dublê que usa um carro com motor V-8 para perseguir garotas indefesas. Ou isso pelo menos é o que ele pensa.

Com filmes como Pulp Fiction e a série Spy Kids, Tarantino e Rodriguez fizeram quase que sozinhos a fortuna dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, quando estes comandavam a produtora Miramax e sua divisão B, a Dimension. Desde que romperam com sua empresa-mãe, a Disney, os irmãos ainda não conseguiram emplacar nenhuma produção que se comparasse em renda ou em prestígio com as suas investidas anteriores. Grindhouse era sua melhor aposta para este ano. Novamente, não é o caso de julgar o filme pela bilheteria. Pela primeira parte do programa, pode-se imaginar quanto se divertiram os sortudos que o viram na íntegra.

O que, afinal, é grindhouse

Esse é o apelido que se dava às salas de baixa categoria (como drive-ins e pulgueiros) que exibiam filmes sem parar

Por extensão, grindhouse designa também as produções baratíssimas exibidas nesses locais

Um grindhouse legítimo pertence ao gênero exploitation. Ou seja, tem de explorar de forma exagerada temas como sexo, horror, escatologia, zumbis, ninjas ou fetiches variados

As pornochanchadas brasileiras dos anos 70 são um ótimo exemplo de grindhouse, pelo tema e também pela técnica tosca

DE DAR SUSTOS TAMBÉM EM QUEM FAZ

Gênero que mais se recicla, por ser barato e ter público certo nos adolescentes, o terror é também o mais volúvel dos segmentos. Às vezes, parece ter morrido de vez; logo desponta de novo como favorito. O desafio é adivinhar qual dos seus subgêneros estará em voga na próxima maré cheia. Até alguns dias atrás, dava-se como esgotado o filão do sangue e vísceras. O Albergue fora um imenso sucesso. Sua continuação, lançada em junho, morreu na praia. Os apostadores do setor já haviam recolhido suas fichas quando, na segunda-feira, amanheceram com uma notícia inesperada. Jogos Mortais 4, da série que é a grande rival em mau gosto de O Albergue, fez quase 32 milhões de dólares na estréia. Em três anos, a franquia já acumulou 464 milhões, contra um total de 30 milhões gastos na sua confecção. Ou seja, ainda não é hora de aposentar os instrumentos cortantes.

Três coisas podem complicar a carreira de um filme de terror. Planeta Terror ilustra uma delas. Em vez de abraçar sua natureza, o filme trilha uma linha sutil entre a paródia e a homenagem – e a platéia moderna abomina a sutileza. As outras duas falhas estão exemplificadas por 1408, em cartaz no país. Estrelado por John Cusack, o filme junta terror psicológico, fantasmas e mutilações, para ninguém se sentir deixado de fora. Ou seja, não informa ao aficionado de cada corrente se aquela história é para ele ou não. Com 100 milhões de dólares de renda, seria possível imaginar que 1408 não é um fiasco. Isso até que se olhe seu orçamento, de 25 milhões. É aí que ele trai o primeiro mandamento do gênero: na relação custo-benefício, que é um pavor.

Fonte: Revista Veja - http://www.veja.com.br/

Ligeiramente virgens

Fonte: Revista Veja - 22/10/07

Judd Apatow e Seth Rogen, de Ligeiramente Grávidos, invertem os sinais da comédia adolescente em Superbad

Isabela Boscov

Três adolescentes, a duas semanas de terminar o 2º grau, compreensivelmente começam a se desesperar com a perspectiva de chegar invictos ao fim de seu último ano letivo. Dois deles têm em vista candidatas com as quais gostariam de inaugurar sua vida sexual; o terceiro acaba de fazer uma carteira de identidade falsa. Se ela passar pelo crivo dos balconistas de lojas de conveniência, eles terão acesso a vodca e cerveja. Tem-se então uma equação perfeita: se na festa daquela noite (a primeira, em toda a sua carreira escolar, para a qual foram convidados) eles conseguirem embebedar as meninas, é possível que, com a visão turvada pelo álcool, elas acabem na cama com eles. "Mulheres embriagadas erram. Nós podemos ser esse erro!", sonha o rechonchudo Seth (Jonah Hill), tentando persuadir seu melhor amigo, o certinho Evan (Michael Cera), a sonhar junto com ele. Seth, Evan e Fogell – que na carteira falsa aparece com o patético nome de McLovin – embarcam, então, naquela saga de tantas outras comédias estudantis americanas. Como nelas todas, o périplo dos personagens de Superbad – É Hoje (Superbad, Estados Unidos, 2007), desde sexta-feira em cartaz no país, começa em função do desespero, e de miragens de bebida e sexo. Mas termina no extremo oposto do habitual no gênero.

Todas as razões pelas quais Superbad é tão igual e tão diferente convergem nos seus realizadores – Judd Apatow e Seth Rogen, diretor e ator de Ligeiramente Grávidos, que aqui ocupam as funções de produtor e co-roteirista. (Rogen, além disso, interpreta um policial que só conseguiria esse posto em caso de extinção, por doença ou hecatombe, de todos os homens em idade de recrutamento.) De novo mesclando obscenidade e meiguice de maneiras improváveis, eles expõem em detalhes excruciantes o assanhamento de seus personagens. Seth, em especial, é incapaz de dizer uma única frase ou fazer um único gesto que não contenha uma baixaria – quase sempre são muitas ao mesmo tempo. Mas Apatow e Rogen são também homens o bastante para assumir sem nenhuma reserva que, se os hormônios ditam, os sentimentos é que inspiram. Nenhum dos três protagonistas recusaria um avanço de um espécime feminino qualquer. Mas trabalham, no limite de seus recursos, para que esse avanço venha das meninas em que fixaram sua atenção – as quais, além dos atrativos óbvios, têm outros mais intangíveis e decisivos. Por exemplo, vivacidade, generosidade e perspicácia para compreender que, embora Seth e Evan às vezes ajam como maníacos, não pode haver nada de tão errado assim com dois sujeitos que são amigos tão leais um para com o outro.

Esse, enfim, é o ponto a que Apatow e Rogen querem chegar. Na primeira cena do filme, Seth e Evan reviram os olhos e falam grosso para disfarçar seu constrangimento intenso quando alguém sugere que eles sentirão falta um do outro, por estarem indo para faculdades diferentes. Na cena final, eles se dão conta de que, sejam quais forem os ganhos da noite anterior, eles cobrarão uma perda: a de uma amizade indivisível e incondicional, como só na adolescência se experimenta. Qualquer pessoa do ramo sabe que não há negócio mais traiçoeiro do que o humor; de um dia para outro pode-se passar de rei da comédia a piada de mau gosto – e os irmãos Farrelly, que dominaram o território por anos depois de Quem Vai Ficar com Mary?, acabam de atestar essa máxima com o fiasco de Antes Só do que Mal Casado. Não é impossível que, daqui a dois ou três filmes, Apatow e sua trupe se vejam em situação semelhante de desfavor. Mas, neste momento, eles estão em completa sintonia com seu público. Porque são engraçados, sem dúvida. Mas mais ainda pela clareza e pelo desarme de sua visão.

Joe Wright reinventa o desejo de reparação de Ian McEwan

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/10/07

Filme com a musa do diretor, Keyra Knightley, acrescenta à discussão sobre literatura uma outra, sobre o próprio cinema

Joe Wright acaba de dirigir um comercial milionário da marca Chanel. Keira Knightley é a estrela. Está linda, num longo de seda que mapeia seu corpo. Keira está em Desejo e Reparação, que Wright adaptou do romance de Ian McEwan - editado no Brasil somente como Reparação -, e também em Orgulho e Preconceito, que ele havia adaptado de Jane Austen. Prepare-se para um dos choques desta Mostra, como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominik, e Sombras de Goya, de Milos Forman. Os três tratam da ambivalência humana e discutem arte e vida. A literatura e o cinema em Desejo; o teatro, no Assassinato: e a pintura em Goya.

Pode-se gostar do filme de Joe Wright exatamente pelo que muitos críticos contestam nele - o excesso. Na sessão para a imprensa, sábado de manhã, havia gente reclamando, gente que em geral leu o livro e acha que o diretor carrega nos excessos melodramáticos na segunda parte. A chave para se entender Desejo e Reparação está naquela praia, durante a guerra. O diretor constrói um plano-seqüência que parece puro virtuosismo técnico, mas propõe algo mais. Sua idéia é que a guerra é este limite, não apenas para os indivíduos, mas para as sociedades.

A sociedade britânica de Desejo e Reparação parece aquela filmada por Joseph Losey - baseia-se no embate entre as classes sociais. Muito da tragédia que ocorre no filme - uma menina de 13 anos interpreta mal o que viu e, baseada nos seus preconceitos (e eles também são ditados pelo desejo ), condena um homem num caso de estupro. Este homem ocorre ser de uma classe inferior e também de ser o amado de sua irmã. Ele sofre o Diabo. Na cena da praia, devorado pela febre, o herói busca água e vai parar num cinema, reduzido a um nada diante da tela gigante que mostra Michèle Morgan e Jean Gabin em Cais das Sombras, de Marcel Carné, de 1938.

Será a arte, o cinema, maior que a vida? É esta a idéia que está em discussão em Desejo e Reparação. No livro, é a literatura, e Joe Wright mantém a discussão, com a entrada em cena de Vanessa Redgrave, para uma participação memorável, que só uma atriz como ela pode proporcionar. Mas à discussão sobre literatura, que é a do livro, ele soma essa outra sobre o cinema. Van Gogh disse, num carta ao irmão Theo, que pintava para consolar. Esse consolo tem aqui outro nome, reparação. Desejo e reparação. Desejo DE reparação. Keira, não é preciso nem dizer, é maravilhosa.

(SERVIÇO)
Serviço Cinemark ShoppingEldorado, sala 7: Hoje, 22 horas. IG Cine: quarta, dia 24, 19 horas. Reserva Cultural, dia 1.º, 16h10.Cotação: Ótimo

sábado, 20 de outubro de 2007

E a pequena Miss Sunshine ficou mais velha

Filme completa um ano em cartaz neste fim de semana

Luiz Carlos Merten

Embora o fato não seja novo, ocorre cada vez com menos freqüência. A rotatividade dos lançamentos e a sobrevida que muitos títulos ganham no mercado de DVD praticamente eliminam as chances de que um filme permaneça muito tempo em cartaz. O último caso recente havia sido 2046, de Wong Kar-wai, que ficou um tempão no HSBC Belas Artes. No mesmo espaço, outro filme completa um ano em cartaz neste fim de semana. É A Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Parabéns!

Mais do que assinalar o fato como algo pouco freqüente no mercado brasileiro (e até internacional), pode-se procurar entender os motivos que fizeram com que Miss Sunshine virasse o que os norte-americanos chamam de ‘sleeper’, um filme cujo sucesso colhe todo mundo de surpresa. Os críticos gostaram de Miss Sunshine - os adjetivos variaram de ‘simpático’ à classificação ‘excelente’ -, mas foi o público, com o boca a boca, que selou a consagração. Claro que ajudou a indicação do filme para o Oscar da Academia de Hollywood. É verdade que os acadêmicos preferiram premiar o Martin Scorsese de Os Infiltrados - mais cinemão, é impossível -, mas a exposição que esse filme pequeno, independente, ganhou na mídia bastou para que todo mundo soubesse da existência de Miss Sunshine.

Dayton e Valerie são estreantes. Vieram da TV, onde faziam comerciais. Nada mais na contramão do consumismo do que esta história sobre uma família disfuncional que cai na estrada. De perto, ninguém é normal, mas a família reunida na van de Miss Sunshine parece sob medida para compor um pequeno retrato do bestiário da classe média dos EUA. O pai, a mãe, os filhos, o avô, o tio enrustido - cada um tem seu problema especifico, mas todos estão a bordo, coexistindo como grupo e unidos em torno do mesmo objetivo. A Miss Sunshine do título é essa menina de 7 anos, sem gracinha - mas a atriz Abigail Breslin é graciosíssima -, que sonha vencer um concurso de beleza para crianças. A família atravessa os EUA, da Califórnia à Flórida. Quando chegam ao local do concurso, a menina não se enquadra no modelito das demais concorrentes. Impulsionada pelo avô, ela põe para quebrar.

Um pouco antes de Miss Sunshine, o diretor argentino Pablo Trapero havia feito outro filme legal, sobre outra família disfuncional na estrada, mas o público nem de longe fez de Família Rodante um grande sucesso. O segredo de Jonathan Dayton e Valerie Faris está na empatia que eles conseguiram estabelecer com as platéias - no plural, já que o filme fez aquilo que se chama de ‘cross-over’, agradando a diversas faixas de espectadores. A viagem é transformadora para todos os personagens, o elenco (Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carrell, Alan Arkin)é perfeito, o desfecho é, como se diz, ‘ultrajante’, além de muito divertido. Miss Sunshine ganhou dois Oscars - melhor roteiro original, do estreante Michael Arndt, e melhor coadjuvante (Arkin). Um jovem e um veterano. Diferentes gerações, celebrando um filme também diferente.

(SERVIÇO)Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA/ 2006, 101 min.) - Dir. Jonathan Dayton e Valerie Faris. 14 anos. HSBC Belas Artes 6 - 14h30. Cotação: Ótimo