segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Ligeiramente virgens

Fonte: Revista Veja - 22/10/07

Judd Apatow e Seth Rogen, de Ligeiramente Grávidos, invertem os sinais da comédia adolescente em Superbad

Isabela Boscov

Três adolescentes, a duas semanas de terminar o 2º grau, compreensivelmente começam a se desesperar com a perspectiva de chegar invictos ao fim de seu último ano letivo. Dois deles têm em vista candidatas com as quais gostariam de inaugurar sua vida sexual; o terceiro acaba de fazer uma carteira de identidade falsa. Se ela passar pelo crivo dos balconistas de lojas de conveniência, eles terão acesso a vodca e cerveja. Tem-se então uma equação perfeita: se na festa daquela noite (a primeira, em toda a sua carreira escolar, para a qual foram convidados) eles conseguirem embebedar as meninas, é possível que, com a visão turvada pelo álcool, elas acabem na cama com eles. "Mulheres embriagadas erram. Nós podemos ser esse erro!", sonha o rechonchudo Seth (Jonah Hill), tentando persuadir seu melhor amigo, o certinho Evan (Michael Cera), a sonhar junto com ele. Seth, Evan e Fogell – que na carteira falsa aparece com o patético nome de McLovin – embarcam, então, naquela saga de tantas outras comédias estudantis americanas. Como nelas todas, o périplo dos personagens de Superbad – É Hoje (Superbad, Estados Unidos, 2007), desde sexta-feira em cartaz no país, começa em função do desespero, e de miragens de bebida e sexo. Mas termina no extremo oposto do habitual no gênero.

Todas as razões pelas quais Superbad é tão igual e tão diferente convergem nos seus realizadores – Judd Apatow e Seth Rogen, diretor e ator de Ligeiramente Grávidos, que aqui ocupam as funções de produtor e co-roteirista. (Rogen, além disso, interpreta um policial que só conseguiria esse posto em caso de extinção, por doença ou hecatombe, de todos os homens em idade de recrutamento.) De novo mesclando obscenidade e meiguice de maneiras improváveis, eles expõem em detalhes excruciantes o assanhamento de seus personagens. Seth, em especial, é incapaz de dizer uma única frase ou fazer um único gesto que não contenha uma baixaria – quase sempre são muitas ao mesmo tempo. Mas Apatow e Rogen são também homens o bastante para assumir sem nenhuma reserva que, se os hormônios ditam, os sentimentos é que inspiram. Nenhum dos três protagonistas recusaria um avanço de um espécime feminino qualquer. Mas trabalham, no limite de seus recursos, para que esse avanço venha das meninas em que fixaram sua atenção – as quais, além dos atrativos óbvios, têm outros mais intangíveis e decisivos. Por exemplo, vivacidade, generosidade e perspicácia para compreender que, embora Seth e Evan às vezes ajam como maníacos, não pode haver nada de tão errado assim com dois sujeitos que são amigos tão leais um para com o outro.

Esse, enfim, é o ponto a que Apatow e Rogen querem chegar. Na primeira cena do filme, Seth e Evan reviram os olhos e falam grosso para disfarçar seu constrangimento intenso quando alguém sugere que eles sentirão falta um do outro, por estarem indo para faculdades diferentes. Na cena final, eles se dão conta de que, sejam quais forem os ganhos da noite anterior, eles cobrarão uma perda: a de uma amizade indivisível e incondicional, como só na adolescência se experimenta. Qualquer pessoa do ramo sabe que não há negócio mais traiçoeiro do que o humor; de um dia para outro pode-se passar de rei da comédia a piada de mau gosto – e os irmãos Farrelly, que dominaram o território por anos depois de Quem Vai Ficar com Mary?, acabam de atestar essa máxima com o fiasco de Antes Só do que Mal Casado. Não é impossível que, daqui a dois ou três filmes, Apatow e sua trupe se vejam em situação semelhante de desfavor. Mas, neste momento, eles estão em completa sintonia com seu público. Porque são engraçados, sem dúvida. Mas mais ainda pela clareza e pelo desarme de sua visão.

As mulheres de Babenco

Fonte: Revista Isto é - 22/10/07

O cineasta Hector Babenco abandona a miséria e a violência urbana e aborda o universo feminino em O passado, uma de suas obras mais pessoais

IVAN CLAUDIO

MATRIARCADO Para Babenco, o argentino quer ter a mãe no poder político e gosta de santificá-la

O cineasta Hector Babenco não suporta mais a violência no País. Dia desses, a caminho da estréia da peça Salmo 91, baseada no mesmo livro de Drauzio Varella que deu origem ao filme Carandiru, ele teve um ataque de pânico e largou o carro no túnel do Anhangabaú, no centro de São Paulo. O diretor de Lúcio Flávio, o passageiro da agonia e Pixote, a lei do mais fraco não quer mais abordar assuntos desse gênero: “Estou há 20 anos mergulhado nesse universo, não consigo mais visitá-lo. É como alguém que teve intoxicação comendo um peixe podre e não consegue mais ver peixe na sua frente.” Seu mais recente filme, O passado, que estréia no Brasil no dia 26, volta as costas para a violência urbana. Fala, no entanto, de outra violência: a das relações amorosas.

Baseado no romance homônimo do argentino Alan Pauls, O passado acompanha a trajetória de Rimini (Gael García Bernal), um jovem tradutor que entra em crise depois de romances devastadores com três mulheres. Também pudera: as mulheres dos filmes de Babenco estão sempre alguns graus fora da normalidade. A primeira delas é Sofia (Analía Couceyro), com quem Rimini fica casado por 12 anos. Quando se separam, ela aceita civilizadamente a perda, mas continua presa ao ex-marido de forma obsessiva. A segunda é Vera (Moro Anghileri), uma modelo belíssima, mas ciumenta em igual medida. Numa das cenas, ao ver Rimini falar com uma menina, o agride imaginando o seu envolvimento em sedução e pedofilia.

A mais estável delas é Carmen (Ana Celentano), tradutora como Rimini, com quem ele tem um filho. A felicidade de Rimini dura pouco porque, à distância, Sofia não suporta ser esquecida. Vera acaba sendo atropelada e morre. Recuperado da perda, Rimini está agora com Carmen, mas Sofia, num surto psicótico, seqüestra o filho do casal, causando a separação. É um golpe fatal na frágil estrutura emocional do personagem. “Sofia não é louca, ela simplesmente enlouquece. É uma Medéia, o arquétipo máximo da mulher que é fiel ao seu amor até o fim”, diz Babenco, referindo-se à personagem da tragédia grega.

A tese de O passado é que as pessoas não se separam, se abandonam. E que o amor não acaba, ele continua reverberando na vida dos ex-amantes: “Fui casado três vezes, cada relação durou 15 anos. Esquecer uma mulher que te deu um filho é impossível. Só se você for um patife.” A princípio, o cineasta pensou em filmar essa história em São Paulo, mas chegou à conclusão de que não daria certo – não pelo clima de violência, mas porque os personagens não se aclimatavam bem ao País. Quanto mais mergulhava na história, mais se via na Argentina de sua adolescência. Decidiu então rodar o filme em Buenos Aires, facilitado pela entrada de capital portenho na produção.

Babenco garante que o filme não tem nada de autobiográfico. “Minha única relação de amor na Argentina foi com aquela maluquinha mostrada em Coração iluminado, que me deixou marcado por toda a vida”, afirma ele. “Isso sem falar do amor que temos pela mãe, que é muito controverso.” Ele descobriu o livro de Alan Pauls justamente numa viagem a Buenos Aires para visitar a mãe doente, mas ainda não se deu conta se a presença dela pairou sobre a história dessas mulheres hiperpossessivas. Sobre o matriarcado argentino que une Evita, Isabelita e agora Cristina Kirchner, ele arrisca uma psicanálise: “Só mesmo a falta da figura materna explica essa desejo do argentino de querer ter a mãe no poder. É uma vocação esquisita, de adorar a mulher como se fosse uma santa.” A Argentina também é um amor que não acaba na sua carreira de dez filmes: Babenco recorreu a três escritores daquele país para criar suas histórias.

Lelouch e a arte que simplifica o complicado

Diretor francês, homenageado da Mostra, fala de vida, cinema, atores e de seu novo filme, o ótimo Crimes de Autor

Luiz Carlos Merten

Em 47 anos de carreira, Claude Lelouch realizou 41 filmes, praticamente um por ano. O primeiro, Le Propre de l'Homme, é de 1966, mas foi com o sexto, em 1966, que ele recebeu dois dos mais cobiçados prêmios do mundo (os mais?) - a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro da Academia de Hollywood, outorgados a Um Homem, Uma Mulher. Desde então, Lelouch virou um grande nome do cinema mundial, mas não uma unanimidade. A crítica francesa colou-lhe um rótulo - o de 'industrial do amadorismo'. Cahiers du Cinéma despreza seu cinema. Ele retribui - diz que a revista e a nouvelle vague (com as exceções de François Truffaut e Jacques Demy) fizeram muito mal ao cinema francês.

Mostra Lelouch é um sujeito muito simpático, que está completando 70 anos em 2007. Na sexta, ele concedeu a entrevista que você vai ler, no bar do Hotel Crowne Plaza. No sábado pela manhã, foi passear na Av. Paulista. À tarde, após a sessão de seu novo filme, Roman de Gare - que recebeu o título de Crimes de Autor -, participou de um bate-papo na Faap. Havia muita gente para ver (e ouvir) Lelouch, mas havia ainda mais gente à espera do filme de Gael García Bernal, que também discutiu sua estréia na direção, com Déficit, exibido horas mais tarde.

Crimes de Autor é um 'polar', como dizem os franceses - um policial. Mas talvez não se deva defini-lo somente assim, porque tem momentos de romance, de comédia, de musical. Lelouch adora a mélange (mistura) de gêneros. Deve ser um de seus problemas com os críticos, ele acha - 'Eles não gostam.' Crimes de Autor começa como um flash-back. Fanny Ardant é esta famosa autora de best-sellers policiais que está sendo acusada de haver matado seu 'ghost writer', o cara que realmente escrevia seus livros. A trama dá muitas reviravoltas, é cheia de pistas falsas. 'Foi um dos roteiros mais trabalhosos que escrevi', admite o diretor. Crimes de Autor começou a ser gestado há 15 anos, quando Lelouch teve a primeira idéia. Ele a maturou durante muito tempo. A feitura do filme, propriamente dita, foi rápida - um ano para tudo, roteiro (o período mais longo), realização e montagem.

Quase 50 anos de carreira, 41 filmes, muitos prêmios. O que Lelouch aprendeu sobre a vida neste período? 'Aprendi que a vida é feita de alegrias e tristezas, de bons e maus momentos, e que se deve simplificar as coisas complicadas.' Ele está falando da vida, mas está dando uma definição de cinema - o seu cinema. 'Cada um desses 41 filmes me dá a impressão de haver sido o primeiro. Fazer um filme é como ir à escola. Aprendo sempre. Sou o contrário de um intelectual, que ama complicar as coisas simples.' Desde que fez Um Homem, Uma Mulher, ele acredita em milagres. 'O próprio filme foi um milagre. Fiz sem dinheiro, em condições precárias, apoiado no entusiasmo da equipe. Além dos prêmios que recebeu, Um Homem, Uma Mulher estourou em todo o mundo.' Quando terminaram a filmagem do original, os atores Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e ele combinaram - se estivessem vivos dali a 20 anos, voltariam aos personagens, para saber o que havia ocorrido com eles.' Em 1986, fizeram Um Homem, Uma Mulher - 20 Anos Depois, mas a repercussão, desta vez, foi mínima.

O amor é o tema dominante da obra de Claude Chabrol, mas ele fez filmes como Retratos da Vida, que cobrem décadas da vida de seus personagens, atravessando a guerra. 'Foi um filme que fiz inspirado nas histórias que meus pais me contavam sobre a Resistência. Em todos os meus filmes, falo sempre de pessoas que conheci, ou com quem cruzei', confessa. Por que o 'polar'? 'Porque é um gênero muito rico e popular. Porque a idéia do crime perfeito é atraente. Quem nunca pensou em matar alguém?' Sobre crime perfeito, ele acrescenta - 'O maior serial killer de todos é Deus, que vive cometendo o crime perfeito.'

A partir do chabadá romântico de Um Homem, Uma Mulher, a música é sempre importante no cinema de Lelouch. 'Trato-a como se fosse uma personagem', ele explica. Quase sempre a música é composta antes e ele já trabalha as cenas com os atores tendo a música de fundo. Por que Gilbert Bécaud em Crimes de Autor? 'Porque é um dos grandes da música francesa e, infelizmente, está um pouco esquecido.' Crimes de Autor repete, no fim, até certo, a mais bela cena do cinema de Lelouch. No desfecho de Viver por Viver, de 1967, Annie Girardot espera a chegada de um avião. Ela não sabe se Yves Montand virá nele. O que se passa no rosto da atriz é algo notável. Annie, a Nádia de Rocco e Seus Irmãos, é uma grande atriz, mas Lelouch fez sua parte - ele nunca lhe disse se Montand desceria ou não daquele avião. Brincar de Deus, jogando com as emoções humanas (e dos atores), também é uma das atribuições do diretor. Ah, sim. Por que ele escolheu Fanny Ardant para Crimes de Autor? 'Porque precisava de uma atriz carismática para fazer uma mulher que não é simpática.'

O sonho acordado de David Lynch

Cineasta propõe viagem sensorial e deixa que o arranjo de sentidos seja construído pelo próprio espectador

Luiz Zanin Oricchio

Hoje é a última chance para ver Império dos Sonhos, de David Lynch. A recomendação tem de vir acompanhada de um aviso: não se trata de filme para todos os gostos. À parte a obviedade dessa observação, deve-se lembrar que Lynch é um experimentador. Joga com a narrativa, com as relações lógicas entre acontecimentos e personagens, e também com a textura do filme. Muitos fãs de Lynch estranham que Império dos Sonhos tenha sido feito em digital, o que limita a possibilidade da paleta de cores possível com uma película de 35 milímetros. Mas, vamos nos recordar que esse tipo de pesquisa com vídeo começou lá atrás, em 1980, com o Antonioni de O Mistério de Oberwald. Não chega a ser novidade. Nem chega a ser nova a constatação de que o trabalho com o digital fecha algumas possibilidades e abre outras. São opções. Tanto assim que o próprio Lynch já declarou que não pretende mais filmar com película, tamanha a liberdade que experimentou com o digital.

Dito isso, e o filme? Bem, o que se pode antecipar é que Lynch propõe uma viagem sensorial, na qual importa o sentido (quer dizer, a direção) mas nem tanto o significado. Isso quer dizer que será virtualmente impossível se comportar diante desse 'objeto' como fazemos quando alguém nos pede para dizer de que determinado filme 'fala' e então nos pomos a contar uma historinha: aconteceu tal e tal coisa, este personagem se apaixona por outro e entra em antagonismo com um terceiro, etc. Nada disso. O filme é como uma instalação; ele nos propõe coisas, e ao contrário das artes visuais, é diacrônico, caminha em determinada direção, mas deixa que o arranjo dos sentidos possíveis seja construído pelo próprio espectador. Essa é a proposta. Tanto assim que, nas entrevistas concedidas no Festival de Veneza, no ano passado, Lynch se mostrou muito lacônico. Se alguém lhe propunha uma interpretação, qualquer uma, ele dizia que estava certa. Se outra pessoa levantava hipótese contrária, ele respondia que também era possível. Nesse momento, o autor desaparece como intérprete da própria obra.

Cabe a nós, portanto, decifrá-la. E, sobretudo, deixarmo-nos levar, nessa viagem fascinante de três horas, por labirintos que são os do sonho ou do próprio inconsciente. Visto sem as amarras da razão, isto é, de nossas expectativas prévias, ele pode ser estimulante, engraçado, irônico, inteligente e, sobretudo, surpreendente - como um objeto surrealista. Sabemos que há uma atriz (Laura Dern), que deve fazer um filme (Império dos Sonhos é também metacinema), mas que esse é um projeto maldito. O que se sugere de Hollywood, esse império interior, é bastante corrosivo. E o que significam esses personagens com máscaras de coelhos que surgem num palco a cada instante? O que você quiser, caro espectador.

Se, apesar de tudo o que se disse de Lynch, a sua praia for outra, dá para recomendar o muito mais linear A Arte das Lágrimas, do dinamarquês Peter Schonau (Memorial da América Latina, 20h40). É um filme que começa como comédia e vai sutilmente mudando de rumo no meio do caminho até se transformar em drama familiar dos mais cabeludos. Como só os nórdicos parecem ter coragem de fazer.

Serviço Unibanco Arteplex 1: Hoje, 20h10. Cotação: Ótimo

Joe Wright reinventa o desejo de reparação de Ian McEwan

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/10/07

Filme com a musa do diretor, Keyra Knightley, acrescenta à discussão sobre literatura uma outra, sobre o próprio cinema

Joe Wright acaba de dirigir um comercial milionário da marca Chanel. Keira Knightley é a estrela. Está linda, num longo de seda que mapeia seu corpo. Keira está em Desejo e Reparação, que Wright adaptou do romance de Ian McEwan - editado no Brasil somente como Reparação -, e também em Orgulho e Preconceito, que ele havia adaptado de Jane Austen. Prepare-se para um dos choques desta Mostra, como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominik, e Sombras de Goya, de Milos Forman. Os três tratam da ambivalência humana e discutem arte e vida. A literatura e o cinema em Desejo; o teatro, no Assassinato: e a pintura em Goya.

Pode-se gostar do filme de Joe Wright exatamente pelo que muitos críticos contestam nele - o excesso. Na sessão para a imprensa, sábado de manhã, havia gente reclamando, gente que em geral leu o livro e acha que o diretor carrega nos excessos melodramáticos na segunda parte. A chave para se entender Desejo e Reparação está naquela praia, durante a guerra. O diretor constrói um plano-seqüência que parece puro virtuosismo técnico, mas propõe algo mais. Sua idéia é que a guerra é este limite, não apenas para os indivíduos, mas para as sociedades.

A sociedade britânica de Desejo e Reparação parece aquela filmada por Joseph Losey - baseia-se no embate entre as classes sociais. Muito da tragédia que ocorre no filme - uma menina de 13 anos interpreta mal o que viu e, baseada nos seus preconceitos (e eles também são ditados pelo desejo ), condena um homem num caso de estupro. Este homem ocorre ser de uma classe inferior e também de ser o amado de sua irmã. Ele sofre o Diabo. Na cena da praia, devorado pela febre, o herói busca água e vai parar num cinema, reduzido a um nada diante da tela gigante que mostra Michèle Morgan e Jean Gabin em Cais das Sombras, de Marcel Carné, de 1938.

Será a arte, o cinema, maior que a vida? É esta a idéia que está em discussão em Desejo e Reparação. No livro, é a literatura, e Joe Wright mantém a discussão, com a entrada em cena de Vanessa Redgrave, para uma participação memorável, que só uma atriz como ela pode proporcionar. Mas à discussão sobre literatura, que é a do livro, ele soma essa outra sobre o cinema. Van Gogh disse, num carta ao irmão Theo, que pintava para consolar. Esse consolo tem aqui outro nome, reparação. Desejo e reparação. Desejo DE reparação. Keira, não é preciso nem dizer, é maravilhosa.

(SERVIÇO)
Serviço Cinemark ShoppingEldorado, sala 7: Hoje, 22 horas. IG Cine: quarta, dia 24, 19 horas. Reserva Cultural, dia 1.º, 16h10.Cotação: Ótimo

sábado, 20 de outubro de 2007

E a pequena Miss Sunshine ficou mais velha

Filme completa um ano em cartaz neste fim de semana

Luiz Carlos Merten

Embora o fato não seja novo, ocorre cada vez com menos freqüência. A rotatividade dos lançamentos e a sobrevida que muitos títulos ganham no mercado de DVD praticamente eliminam as chances de que um filme permaneça muito tempo em cartaz. O último caso recente havia sido 2046, de Wong Kar-wai, que ficou um tempão no HSBC Belas Artes. No mesmo espaço, outro filme completa um ano em cartaz neste fim de semana. É A Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Parabéns!

Mais do que assinalar o fato como algo pouco freqüente no mercado brasileiro (e até internacional), pode-se procurar entender os motivos que fizeram com que Miss Sunshine virasse o que os norte-americanos chamam de ‘sleeper’, um filme cujo sucesso colhe todo mundo de surpresa. Os críticos gostaram de Miss Sunshine - os adjetivos variaram de ‘simpático’ à classificação ‘excelente’ -, mas foi o público, com o boca a boca, que selou a consagração. Claro que ajudou a indicação do filme para o Oscar da Academia de Hollywood. É verdade que os acadêmicos preferiram premiar o Martin Scorsese de Os Infiltrados - mais cinemão, é impossível -, mas a exposição que esse filme pequeno, independente, ganhou na mídia bastou para que todo mundo soubesse da existência de Miss Sunshine.

Dayton e Valerie são estreantes. Vieram da TV, onde faziam comerciais. Nada mais na contramão do consumismo do que esta história sobre uma família disfuncional que cai na estrada. De perto, ninguém é normal, mas a família reunida na van de Miss Sunshine parece sob medida para compor um pequeno retrato do bestiário da classe média dos EUA. O pai, a mãe, os filhos, o avô, o tio enrustido - cada um tem seu problema especifico, mas todos estão a bordo, coexistindo como grupo e unidos em torno do mesmo objetivo. A Miss Sunshine do título é essa menina de 7 anos, sem gracinha - mas a atriz Abigail Breslin é graciosíssima -, que sonha vencer um concurso de beleza para crianças. A família atravessa os EUA, da Califórnia à Flórida. Quando chegam ao local do concurso, a menina não se enquadra no modelito das demais concorrentes. Impulsionada pelo avô, ela põe para quebrar.

Um pouco antes de Miss Sunshine, o diretor argentino Pablo Trapero havia feito outro filme legal, sobre outra família disfuncional na estrada, mas o público nem de longe fez de Família Rodante um grande sucesso. O segredo de Jonathan Dayton e Valerie Faris está na empatia que eles conseguiram estabelecer com as platéias - no plural, já que o filme fez aquilo que se chama de ‘cross-over’, agradando a diversas faixas de espectadores. A viagem é transformadora para todos os personagens, o elenco (Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carrell, Alan Arkin)é perfeito, o desfecho é, como se diz, ‘ultrajante’, além de muito divertido. Miss Sunshine ganhou dois Oscars - melhor roteiro original, do estreante Michael Arndt, e melhor coadjuvante (Arkin). Um jovem e um veterano. Diferentes gerações, celebrando um filme também diferente.

(SERVIÇO)Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA/ 2006, 101 min.) - Dir. Jonathan Dayton e Valerie Faris. 14 anos. HSBC Belas Artes 6 - 14h30. Cotação: Ótimo

'Capitão Fábio' abre boteco em Perdizes

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 20/10/07

Ator de ‘Tropa de Elite’, Milhem Cortaz aproveita popularidade

Sérgio Duran

Ninguém sabe direito qual é o destino final do capitão Fábio no filme Tropa de Elite, de José Padilha, depois do “pede pra sair”. Pois bem, ele virou dono de boteco e inaugura hoje uma modesta casa em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Brincadeiras à parte, o ator Milhem Cortaz, de 34 anos, diz nunca ter gozado de tamanha popularidade quanto agora, com o filme em cartaz. “O Tropa foi, para mim, uma espécie de novela das oito da Globo.”

Cortaz discorda das críticas de que o filme seja fascista, de que defenda o Estado policial ou ainda que seja uma narrativa do ponto de vista dos policiais. “É um dos filmes mais sinceros e cidadãos que eu já fiz”, afirma. “Faz a gente ver o nosso ridículo. Quem não encontra um preto na rua à noite e muda de calçada? Bem lá no fundo, todo mundo é reacionário. É bom que as coisas estão ficando mais claras nessa discussão.”

Para o ator, a formação de documentarista de Padilha colaborou para a construção de “um filme vital” para o Brasil neste momento. “De repente tudo conspirou a favor, até o assalto ao Luciano Huck”, considera. “O que escreveram depois, me desculpe, foi nada a ver. Só porque o cidadão ganhou dinheiro na vida passou a merecer ser assaltado?”, questiona.

Cortaz é um ator produtivo no cinema. Antes do capitão Fábio, interpretou o matador Peixeira em Carandiru, de Hector Babenco, papel que rendeu, em suas palavras, o respeito da classe artística. “Mas foi o capitão Fábio que me deu popularidade”, conta. Em sua opinião, o militar que interpretou é um homem “do bem”, apesar de cobrar propina para proteger comércios e de explorar a prostituição em Copacabana (zona sul do Rio), entre outras atividades paralelas. “Esses esquemas são completamente naturais para ele”, explica. “Porém quando os outros dois companheiros pegam o dinheiro do jogo do bicho e deixam o comandante furioso, ele não entrega os amigos. Ele assume a culpa”, analisa.

Tropa é o 31º filme da carreira de Cortaz. Há pelo menos outras três produções para estrear, entre as quais Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, no qual figura até José Celso Martinez Corrêa.

O Cortás Pastéis - Espetos (Avenida Professor Alfonso Bovero, 584), conta, é um projeto familiar. Ele montou o negócio, na verdade, para o pai, Milhem Cortás Neto, de 65 anos, comerciante aposentado que durante décadas foi proprietário de uma lanchonete, ao lado da Estação Vergueiro do Metrô. Chamava-se Tinho e tinha como quitute mais famoso do cardápio o pão de queijo. No boteco que inauguram hoje, eles investirão em espetinho, pastel de feira e cachaça. “Será um boteco tradicional mesmo. Eu sempre adorei boteco, desses bem toscos, simples mesmo. Também sempre adorei cachaça. Não bebo cerveja”, conta Cortaz, que tem ascendência árabe e italiana, estudou no Teatro Piccolo de Milão na década de 80 e é um velho conhecido dos palcos paulistanos.
A todos os amigos ele pediu que levem um prato de casa para a inauguração do bar. No futuro, quando o cliente se tornar assíduo, terá direito a deixar um prato no boteco e a pedi-lo toda vez em que visitá-lo. Será uma forma de fazer com que todos se sintam em casa quando estiverem no boteco. “Aqui será um espaço da minha família, de amigos e parceiros”, diz. “Essa foi a maior vantagem de abrir esse bar. Nos últimos seis meses, conversei mais com o meu pai do que nos últimos seis anos. Montei isso aqui para ficar mais perto dele.”