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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Ciclo leva a debate as leis de renúncia fiscal para o teatro

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 26/05/08
Programação que segue até o dia 2 envolve investidores e beneficiados tentando ampliar o conhecimento sobre o tema

Beth Néspoli

Nestes tempos em que artistas teatrais reivindicam legislação específica para o setor e discute-se o uso do dinheiro público por meios de leis baseadas em renúncia fiscal não é má idéia ampliar conhecimentos sobre o tema. Esse é o objetivo do ciclo de debates realizado pela direção do Teatro Commune, que teve início da segunda-feira passada e segue até o dia 2.O debate de abertura, acompanhado pelo Estado, reuniu representantes de três empresas patrocinadoras: Petrobrás, Votorantim e Caixa Econômica Federal. Diferentes na amplitude de investimentos, têm em comum o uso de editais públicos para selecionar beneficiados. "O diálogo é sempre esclarecedor", diz Augusto Marin, diretor do Commune.A atriz Michelle Gabriel, que intermediou o debate, ressaltou que convidara outros patrocinadores, "mas foi impossível conciliar agendas". Taís Reis, gerente de patrocínio cultural da Petrobrás, apresentou números de investimentos culturais em todo o País nas áreas de preservação e memória; produção e difusão; formação e reflexão. Ressaltou que a Petrobrás tanto atua de forma direta, por exemplo, na manutenção de grupos como o mineiro Galpão e o Grupo Corpo, quanto por meio de editais. "Com a seleção pública aumentou a distribuição regional nas áreas de artes cênicas e música", afirmou.Ressaltou ainda que a Petrobrás tem como objetivo fomentar a produção cultural existente e, por isso, não possui, e não planeja construir, centros culturais próprios. "Percebemos que o patrocínio continuado propicia aos grupos a manutenção de espaços que acabam se tornando, também, pontos de formação e intercâmbio artístico."O debate mostrou que um dos diferenciais da Caixa Econômica Federal é o investimento direto da quase totalidade de R$ 40 milhões anuais na área cultural. Ou seja, com exceção da manutenção de museus (R$ 6 milhões), os demais projetos beneficiados por edital ganham financiamento direto, sem a utilização do mecanismo da Lei Rouanet. "Eliminamos o que seria mais uma etapa", disse Élcio Mendes de Paiva, gerente de patrocínio da CEF.???Lárcio Benedetti, gerente de desenvolvimento sociocultural da Votorantim, explicou que a partir de 2006 a empresa unificou-se as ações de patrocínio a partir da premissa do "interesse público" e passou a abrir editais numa política voltada para o "acesso aos bens culturais." Mostrou números de uma pesquisa na qual, entre outros dados, revelou que "91% dos municípios brasileiros não têm sequer uma sala de cinema".Por conta disso, a Votorantim optou por apoiar "itinerância, sensibilização e formação de público". A cada ano, abre um novo edital para patrocinar projetos com essas características, mas mantém os já patrocinados. "Em 2006 investimos R$ 13 milhões, no ano seguinte, R$ 18 milhões e, este ano, a previsão é de R$ 25 milhões, sempre através de Lei Rouanet, sendo 80% isenção fiscal e 20% investimento próprio." Entre os beneficiados, para citar dois exemplos, o projeto A Arte do Brincante, de Antonio Nóbrega, e o projeto Arte em Construção, do grupo Pombas Urbanas, sediado em Cidade Tiradentes. "A Votorantim não faz questão de ser patrocinador exclusivo. Por exemplo, na Bienal de São Paulo, investimos na ida de escolas ao evento." Hoje à noite, será a vez de ouvir beneficiados com o Grupo Galpão.

Brasileiro adora dizer que o Brasil não presta

ENTREVISTA DA 2ª
CAETANO VELOSO
Músico critica a esquerda paulista, defende Mangabeira Unger e reclama da "inércia" no país, "salvo-conduto para cada um se mostrar irresponsável"
NA SAÍDA DO SHOW de Caetano Veloso no Rio, uma celebridade diz que amou "Ordem e Progresso", o novo espetáculo do cantor baiano. Ordem e progresso? A bandeira pública de Caetano é outra: "Obra em Progresso" -espetáculo em cartaz às quartas, no Vivo Rio, no aterro do Flamengo, Rio, até 18 de junho, no qual o repertório mistura músicas inéditas e releituras. Mas a variação paródica do lema positivista estampado no símbolo nacional não é ruim para servir também como análise sobre a realidade brasileira. O país é como o show: obra em progresso.
PLÍNIO FRAGADA
SUCURSAL DO RIO
Caetano, 65, reclama da existência de uma "inércia de o Brasil ter sido desimportante" que puxa para trás os que tentam fazer coisas importantes por aqui. "As pessoas ficam com medo de assumir responsabilidade. Isso é inconsciente, mas é verdade. Brasileiro adora dizer que o Brasil não presta." Caetano se apresenta na Europa em julho e agosto e depois volta ao Rio para a continuidade dos shows, do qual resultará o novo disco. Daí "Obra em Progresso". Na sexta, falou à Folha sobre show, disco e também sobre ordem e progresso.

FOLHA - O título do novo disco será "Transamba"?
CAETANO VELOSO - Não sei se será o título do disco. É o apelido que dou para o negócio que a gente está fazendo. Pode ser o título do disco, pode ser que não. Essa palavra veio na minha cabeça porque tem muito a ver com o que a gente está buscando. E a palavra "transa" [título de LP de 1972] está ali inteirinha. Como trabalho musical é um aprofundamento do diálogo entre eu e os três músicos. A criação deste som que ficou bacana no "Cê". Estamos aprofundando por um lado que nem estava sugerido no "Cê".

FOLHA - Por que fazer uma canção chamada "Baía de Guantánamo", uma das inéditas do show? CAETANO - Eu lia sobre aquilo na imprensa, mas nunca imaginei fazer uma canção. Quando eu vi o filme "Caminhos de Guantánamo" [produção inglesa de 2006], parte ficção, parte documentário, comentando com uma pessoa amiga, num e-mail, eu coloquei aquela frase ["O fato de os americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar"]. Fiquei com ela na cabeça. É um negócio seco, ficou só aquilo. É uma frase que dá conta do mal-estar que senti diante daquela situação irregular quanto aos direitos humanos, produzida pelos americanos na ilha de Cuba, onde eles têm a base de Guantánamo desde o século 19. Se você falar em questão de como são observados os direitos humanos e as questões de liberdade e respeito aos homens, sou 100% mais EUA do que Cuba. E eles, os americanos, os defensores das sociedades abertas, apresentam muitas vezes o caso de Cuba, como um lugar onde não se respeitam as liberdades. Que aconteça isso na base de Guantánamo, sendo que são os americanos que estão desrespeitando os direitos humanos, me abala, me provoca mal-estar. Justamente porque eu sou neste ponto do lado dos americanos. Se eu fosse o tipo de cara de esquerda, pró-Cuba, anti-EUA, não seria nenhum abalo para mim.

FOLHA - Que reflexos terá nos EUA a disputa Obama ou Hillary contra McCain na sua opinião?
CAETANO - Uma coisa boa é que vai acabar a administração Bush. Todo mundo sabe que a Hillary Clinton apresentava uma maturidade maior, um traquejo maior em política, o modo como falava, se apresentava. Mas Obama é um sujeito mais simpático. Ele é mais bonito, parece mais sincero. Tem um atrativo pessoal, não é um atrativo técnico. Obama parece meu pai, é um mulato, parece um cara de Santo Amaro [cidade baiana onde Caetano nasceu]. Me sinto mais próximo dele do que daquela mulher que parece uma perua de tailleur. Adorei o discurso dele sobre raça. É uma abordagem mais brasileira, multipolar, reconhecendo a mestiçagem. Sem se resumir àquela coisa bipolar americana. Ouvi dizer que ele mesmo disse: pareço mais um brasileiro. De fato.

FOLHA - Obama foi aluno de seu amigo Mangabeira Unger, que, depois de dizer que o governo Lula era o mais corrupto da história, assumiu um cargo de ministro de Assuntos Estratégicos.
CAETANO - É normal. Mangabeira sempre militou com suas idéias à esquerda. Esteve ligado ao PDT e ao Brizola por muito tempo, depois por um período bem mais curto a Ciro Gomes, no que, aliás, coincidia totalmente comigo. Foi José Almino Alencar [sociólogo e escritor] quem me chamou a atenção para que lesse os artigos dele na Folha. Eu li e gostei muito. Li o livro dele "Paixão". Li muito de "Política". Li esse livro de filosofia que se chama "The Self Awakened". Tenho muito interesse nele porque parece pôr a discussão política brasileira num nível diferente do habitual. Pensa de uma maneira que pode ser produtiva. Ele vem tentando se aproximar do poder real para fazer com que algumas idéias dele sejam testadas, experimentadas, postas em prática. Pouco antes de Lula ganhar em 2002, ele escreveu na Folha, naquela coluna estreitinha da segunda página, que não era hora de discutir. Lula iria ganhar, então tinha de colaborar com ele. Foi o que ele fez.

FOLHA - Mas depois afirmou que era o governo mais corrupto da história.
CAETANO - A história do mensalão foi realmente um escândalo, uma porcaria, uma coisa nojenta gritante. Alguns outros episódios assim vêm acontecendo, como esse -menor, porém não menos nojento- do novo dossiê, com Dilma e todo esse negócio. O Mangabeira, quando do episódio do mensalão, criticou durissimamente. Quando Lula chamou, ele aceitou, porque é coerente com o projeto que tem: aproximar-se do poder, dando forças à esquerda, para experimentar idéias produtivas de esquerda. Por que justamente esse escrúpulo, que ninguém exige nem do próprio Lula? Foi a única coisa que a imprensa exigiu do Mangabeira quando ele foi chamado. Tem duas coisas aí: uma que o Mangabeira não é muito simpático, apesar de, para mim, ele ser um sujeito espetacular. Mas ele também não faz muita questão de ser afável como os outros brasileiros. Ele mostra aquele aspecto prussiano para marcar diferença. Deseja marcar um certo distanciamento, contribui para que ficasse antipático para os jornalistas. Mas também a rejeição é por causa da novidade, da criatividade do pensamento dele. É uma mistura de ciúme e medo de experimentar verdadeiras mudanças até de pensar. Vejo assim. Você entendeu o que eu disse?

FOLHA - Por que acha que ele é folclorizado?
CAETANO - Porque todas as pessoas que tentam coisas importantes para o Brasil sofrem com essa inércia de o Brasil ter sido desimportante, uma espécie de salvo-conduto para cada um se mostrar irresponsável na sua área. As pessoas ficam com medo de assumir responsabilidade. Isso é inconsciente, mas é verdade. Brasileiro adora dizer que o Brasil não presta, que a língua portuguesa é uma porcaria, que todo mundo escreve errado e ninguém reclama. Tudo aqui é desrespeitado. Tudo que aponte para um negócio que crie responsabilidade... O Brasil vem fazendo isso, está crescendo, se afirmando, apesar disso... Essa força que puxa para trás, que segura, que dificulta é enorme. Essa reação a Mangabeira é uma manifestação disso.

FOLHA - Você não está com o governo, mas o governo está com você ao menos em relação a amigos como Mangabeira e Gilberto Gil.
CAETANO - Cara, fui crítico do Lula, sou crítico do Lula e do governo, mas sou um crítico modesto. Porque não sou cientista político nem faço política nem quero me meter. Mas Lula não é qualquer pessoa. Não é um episódio de somenos importância. Desde que fiz 18 anos, gosto de votar. Meu pai me botou na cabeça que isso tem um valor cívico e me emociono, me lembro de meu pai. Gosto desse ritual democrático. Mas nunca chorei dentro da cabine. Só quando votei em Lula. Fiquei emocionado, meus olhos encheram d'água. É porque era Lula. Não é assim. Não é fácil. Quando vejo o povo brasileiro continuar, atrasadissimamente, na festa da posse de Lula -a única coisa que aconteceu até hoje- entendo. Me identifico com esse sentimento. Eu também sou moreno como vocês (risos). O fato é que não se pode perder a objetividade e a exigência crítica. A tradição latino-americana é de pais da pátria, caudilhos, líderes populistas. Recaídas nisso são freqüentes e um risco permanente. Não quero ser condescendente com esse negócio.

FOLHA - Como vê a possibilidade de a sucessão de Lula caminhar para a disputa entre a ministra Dilma Rousseff e o governador José Serra?
CAETANO - Dilma pelo menos não é de São Paulo, não é da USP. Serra não é propriamente USP, mas essa esquerda paulista já encheu, já deu o que tinha que dar. E é o que Lula é também.

FOLHA - Por que você assinou o manifesto contra as cotas raciais?
CAETANO - Acho muito complexo, discutível, mas neste momento assinei contra para dar força... A maioria das pessoas que, como eu, vem da posição de esquerda, gente legal, todo mundo tem que ser a favor... A maioria dos grupos de movimento negro -não todos, porque há um grupo de movimento negro que assinou contra, o Movimento Negro Socialista. Assinei para dar um peso a esta outra posição. Tem valor abordar o assunto, mas não acho que seja um negócio simples assim aplicar cotas, como os americanos já fizeram. A sentimentalização das relações desiguais que se dá na sociedade influiu no modo como se encara a questão racial brasileira também para o bem e para o mal. Já deveríamos ter negros em posições mais visíveis. Pessoas visivelmente negras. Acho que é coerente que nos EUA aconteça isso e no Brasil não. O governo mais conservador que os EUA teve nas últimas décadas foi o governo Bush. E a figura forte de seu governo é uma mulher negra. Isso é resultado de uma luta aberta nos EUA. E aqui, como nunca houve uma luta aberta...

FOLHA - Nosso racismo cordial...
CAETANO - É. Acho que é bacana, um jeito do Brasil que o Brasil tem de resolver com as suas complexidades... Não venham para cá importar racialismo americano...


Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 26/05/08

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O que dizem os sonhos

Fonte: Revista Isto é - Acesso em 19/05/08 - www.istoe.com.br
Como a psicologia, a neurociência e as religiões analisam as mensagens que vêm à tona durante o sono e por que interpretá-las corretamente é fundamental para melhorar a sua vida
CLAUDIA JORDÃO E JONAS FURTADO

RELAXAMENTO Um despertar tranqüilo ajuda a fixar na memória o que foi sonhado à noite

A jovem sonha que está sendo atacada por uma cobra em um sítio. Ao tentar se desvencilhar do animal, percebe que está cercada por outras serpentes. A maior delas não demora para se enrolar em sua cintura, deixando-a totalmente imobilizada e impotente. Assustada, a garota acorda e se pergunta, intrigada: que mensagem estaria por trás daquela experiência onírica? Sonhos podem ser interpretados de muitas maneiras, dentro das mais variadas crenças, culturas, filosofias, religiões e linhas científicas. Mas ninguém estudou tão profundamente o assunto quanto o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Para desvendar os mistérios do sono, ele recorria aos símbolos universais do que chamou de inconsciente coletivo. Uma cobra, por exemplo, pode significar morte, cura ou transformação. Médicos neurologistas defendem que as imagens que povoam a mente das pessoas durante o sono são, muitas vezes, resultado de percepções e de memórias antigas que vêm à tona e se encaixam. Isso explicaria os sonhos que parecem trazer soluções para a vida real, como a história do físico alemão Albert Einstein, que concluiu a Teoria da Relatividade depois de um cochilo.

O sonho relatado na página 56 tornou- se exercício de interpretação da primeira turma do curso Os Sonhos e a Jornada do Herói, aberto no mês passado pela Coordenadoria-Geral de Especialização (Cogeae) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Organizada pelo psicólogo e professor de mitologia Guilherme Kwasinski, a disciplina propõe a análise dos sonhos a partir da classificação de arquétipos idealizada por Jung e referendada pelo mitólogo Joseph Campbell no clássico O herói das mil faces (leia quadro à pág. 61). “Há muitos paralelos entre os dois estudos. Campbell dizia que o mito é o sonho coletivo, enquanto o sonho é o mito pessoal de cada indivíduo”, cita Kwasinski. Com inscrições disponíveis para o público em geral, todas as 25 vagas foram esgotadas – havia ainda fila de espera. Devido ao sucesso, as aulas serão oferecidas novamente no segundo semestre e são grandes as chances de ganharem cadeira cativa no portfólio de cursos de extensão da universidade.

VIAGEM Os espíritas acreditam que, em alguns sonhos, a alma da pessoa desencarne e “viva” situações fora de seu corpo

“Nós nos iludimos no dia-a-dia, trabalhamos com o que e com quem não gostamos, temos que nos enquadrar nos padrões da sociedade. Os sonhos ajudam a mostrar quem somos na essência, são um caminho para o autoconhecimento, para a nossa verdade mais profunda”, afirma Kwasinski. Segundo os métodos do curso, o herói, personagem principal do sonho, é sempre a pessoa que está sonhando e a experiência onírica é dividida em três partes. Para começar, apresenta-se um ambiente e uma situação, como nas primeiras imagens de um filme. A seguir, desenvolve-se um enredo, o vilão (chamado de sombra) se manifesta, os personagens definem seu papel na história (como os arquétipos de Jung e Campbell) e o herói inicia um caminho de conflitos, provações – e cheio de pistas. Na última seção, acontece o grand finale: respostas são oferecidas e a trama é concluída. A psicóloga suíça Marie-Louise von Fraz, uma das maiores colaboradoras e defensoras das idéias de Jung, dizia que a última frase de um sonho merece uma atenção especial, pois é na interpretação dela que reside a chave para a solução do enigma. “O sonho é uma simulação do futuro possível com base no passado conhecido”, resume Sidarta Ribeiro, neurocientista e diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, em Natal, Rio Grande do Norte.
Detectar e classificar os personagens que aparecem no sonho é o primeiro passo da interpretação. Reconhecer o sábio, os aliados, a cara-metade do sexo oposto, o mensageiro, o rival e seus comparsas torna possível a compreensão das atitudes de cada um deles. Pode ser mais difícil do que parece, pois não necessariamente todo sonho será povoado por todos esses arquétipos – que também podem estar representados por símbolos abstratos, em vez de pessoas. Mapeado quem é quem na história, devem-se analisar o enredo em si e suas particularidades (tempo, espaço, situações), para desvendar a aventura proposta e os meios de realizá- la. A jornada do herói é bem-sucedida quando ele conquista seu objetivo e, mais do que isso, acumula conhecimentos valorosos para melhorar a própria vida e a dos que estão à sua volta.

“Interpretar corretamente o próprio sonho ajuda a perceber com o que estamos insatisfeitos para fazer pequenos ajustes ou iniciar grandes transformações pessoais”, diz Kwasinski, que tem mais de três mil sonhos pessoais anotados desde 1983, classificados por épocas e temas, aos quais ele recorre em busca de explicações para o próprio comportamento cotidiano – o pai da psicanálise, Sigmund Freud, definiu o sonho como o caminho real para o inconsciente em uma de suas mais célebres afirmações. “De tempos em tempos, temos sonhos maravilhosos, como as obras-primas de grandes artistas, que nos trazem revelações surpreendentes. Decifrá-los é o caminho para compreendermos melhor nossos desejos e a nós mesmos”, completa o professor.
Manter um diário é fundamental para uma análise profunda de seus significados. O hábito permite traçar um panorama dos sonhos mais recorrentes ao longo da vida para tentar entender a mensagem contida neles, assim como identificar os verdadeiros temores por trás dos grandes pesadelos. Para tanto, o sonho deve ser anotado assim que se acorda. Um despertar tranqüilo ajuda a lembrar de detalhes e pessoas envolvidas. “Todo mundo sonha. Mas aquelas pessoas que acordam com o barulho de um despertador e saem correndo da cama para tomar um banho ou preparar o café da manhã inibem a liberação de noradrenalina, que são neurotransmissores auxiliares da manutenção da memória. Como a noradrenalina não é liberada durante o sono, é importante dar um tempo para que isso ocorra nos primeiros momentos desperto”, diz Ribeiro. O neurocientista recomenda também que uma auto-sugestão seja feita antes de dormir – ou seja, cada um deve reafirmar para si mesmo o desejo de sonhar durante o sono.

Desde que o homem existe, os sonhos são cercados de mistérios. Para os povos antigos, eles carregavam algo de sobrenatural. Eram vistos como um meio de a pessoa receber orientações e mensagens do além, tanto das divindades quanto dos mortos. Os egípcios e gregos, por exemplo, pensavam ser possível estabelecer contato com os deuses. E, assim como os espíritas de hoje em dia – que acreditam na possibilidade de interação com almas desencarnadas enquanto dormimos –, os chineses estavam certos da possibilidade de encontrar os mortos. Cada povo, cultura e tradição lida com o sonho de um modo particular. Há os que não dão a mínima para o assunto. E há também aqueles que se dedicam a interpretálos, numa tentativa de se tornar indivíduos melhores e de viver com mais segurança. É o caso da tribo senoi, na Malásia. Lá, sempre que acordavam, as crianças costumavam relatar seus sonhos aos pais. Recebiam conselhos e suas mensagens eram vistas como dicas importantes para a rotina diária da aldeia. Era a partir das experiências dos pequenos e do que aquilo simbolizava para a tribo que decisões, como época de plantar e colher, eram tomadas.

SAGRADO Na Bíblia, há mais de 700 referências a sonhos e visões. Uma das mais famosas é com José carpinteiro

O candomblé também incentiva seus seguidores a interpretar os sonhos, numa tentativa de se blindar de problemas. “Sonhar com um banho de mar pode indicar que a pessoa está ‘carregada’ espiritualmente”, atesta o líder espiritual e presidente do Centro Cultural Africano, em São Paulo, Atunba Adekunle Aderonmu. “Ao acordar ela deve se purificar, participando de um ritual de limpeza ou tomando banho de sal grosso”, diz ele. O candomblé conta que entidades como Ogum, Oxum e Iansã costumavam ter sonhos premonitórios. É por isso que a aceitação dessas mensagens pelos afro-brasileiros têm tanta força.

“O sonho é muito importante para todas as culturas ancestrais. No mundo ocidental, ainda se dá pouca atenção a ele. É importante conciliar a vigília (quando estamos acordados) com a vida onírica”, defende Ribeiro. O neurocientista diz prestar ainda mais atenção em seus sonhos quando se vê pressionado por alguma situação extrema, no trabalho ou na vida pessoal. Uma atitude parecida com a desempenhada por seguidores do budismo tibetano, que usam os sonhos para entender os momentos de vida em que se encontram. “É comum os lamas pedirem às pessoas com quem convivem para que elas lhe relatem seus sonhos. Eles possuem seus próprios símbolos e buscam mensagens”, resume Arnaldo Bassoli, psicoterapeuta e presidente do Comitê Brasileiro de Apoio ao Tibete no Brasil. Através da ioga dos sonhos, prática voltada para budistas avançados, a pessoa desenvolve a habilidade de se manter consciente nesses momentos. “Isso não significa que haja uma preocupação em interpretar os sonhos. A ioga prega a consciência plena mesmo ao dormir, para que a pessoa esteja sempre desperta, com a mente limpa, livre de distorções”, diz Bassoli.
Passagens de sonhos são recorrentes nas escrituras sagradas. Na Bíblia, os profetas José e Daniel receberam de Deus o dom de desvendá-los. O primeiro interpretava as visões do rei do Egito e o segundo traduzia os relatos de Nabucodonosor. O texto sagrado reúne mais de 700 citações de sonhos e visões. Numa das mais famosas, São José é avisado pelo anjo Gabriel que Maria carrega no ventre uma criança divina. “Na Bíblia, o sonho não deixa de ser uma ferramenta literária, uma maneira que se encontrou para transmitir uma mensagem”, afirma o biblista cônego Celso Pedro da Silva. O professor de teologia da PUC Rafael Rodrigues prefere dar outra explicação. “Esses relatos bíblicos têm como marca fundamental revelar a palavra de Deus por meio da profecia”, diz. Grande parte do conteúdo do Corão, livro sagrado do Islã, foi revelada ao profeta Maomé em sonho. E nos Vedas dos hindus há relatos oníricos favoráveis e desfavoráveis.

Independentemente da crença, é durante a fase de alta atividade neural do sono (chamada de REM, rapid eye movement) que as revoluções oníricas acontecem. De importância comprovada para o fortalecimento da memória, os sonhos começam a ter seu papel reconhecido também na reestruturação dela, de forma a gerar novos comportamentos. Ou seja: sonhar estimula a criatividade. “Durante o sono de ondas lentas, não há sonhos, apenas pensamentos no escuro. Quando aumenta a atividade neural e as memórias começam a interagir, é como se acendesse a luz do projetor e começasse a sessão de cinema”, compara Ribeiro. O melhor de tudo é que os filmes em cartaz são sempre para lá de especiais: eles foram produzidos e estrelados por você.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Contratados desde a faculdade

Crescimento econômico amplia procura de mão-de-obra e garante emprego antes da formatura

Por RODRIGO CARDOSO

TALENTOS Rafael Kirsten, do mercado financeiro, Débora Noronha, engenheira, e Yuri Clements, do agronegócio: emprego antes de ter o canudo na mão

Há uma revolução em curso no País: a mão-de-obra especializada, recém- formada e capacitada por uma universidade competente nunca foi tão requisitada pelo mercado de trabalho. Esse exemplo de movimentação histórica é perceptível no maior pólo formador de engenheiros, a Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP). Lá, o vice-diretor da instituição, José Roberto Cardoso, conta que quase a totalidade dos alunos que se formaram no ano passado tinha propostas de trabalho ou já estava empregada - e os poucos que ainda não estão no mercado levarão um ou dois meses para ingressar nele.

É um salto tremendo, uma vez que até três anos atrás esse número era de 70% (e a colocação do restante demorava seis meses). "Eu mal recebi o diploma e nem peguei o CREA (certificado de registro do engenheiro) e já fui contratado", conta o engenheiro civil paulista Ruy de Sordi, graduado no ano passado em outro centro de excelência na formação de engenheiros, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Como reflexo de uma economia que não pára de produzir bons resultados - como o crescimento acima da média histórica, a inflação controlada e reservas internacionais suficientes, pela primeira vez, para quitar a dívida externa -, alguns setores pegaram carona nesse eldorado de oportunidades e crescem a galope. Em algumas áreas, como engenharia civil, agronegócio, tecnologia da informação e mercado financeiro, não há gente capacitada para atender à demanda. Por isso, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 90 mil vagas formais não foram preenchidas no ano passado, apesar de nove milhões de brasileiros estarem em busca de emprego.

Outro estudo, patrocinado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e que ouviu 1.714 empresas em 22 Estados, apontou que mais da metade delas (cerca de 53%) tem problemas com a falta de mão-de-obra qualificada. "No primeiro trimestre de 2005, 7,9% das empresas disseram que a falta de trabalhador preparado era um dos principais problemas enfrentados por elas. No último trimestre do ano passado, 20% deram essa resposta", afirma Renato da Fonseca, gerente-executivo da unidade de pesquisa, avaliação e desenvolvimento da CNI.

OBRA Ruy de Sordi: recém-formado com salário de R$ 3 mil

O caso da engenharia civil é emblemático. Desde 1980, quando o Banco Nacional da Habitação (BNH) estava a plena carga, a construção não atingia índices de crescimento tão fulgurantes como os atuais (estima-se em 10% o crescimento para este ano). Como conseqüência desse desempenho turbinado pela facilidade de crédito imobiliário, engenheiro civil é um profissional raro no mercado. O headhunter Luiz Werver, diretor-sócio da Ray & Berndtson, uma das cinco maiores empresas de consultoria e capital humano do mundo, conta que todo dia recebe pelo menos uma ligação de empresa procurando engenheiro civil.

"Como é difícil achar engenheiro de 30 e poucos anos, experiente, para colocar no mercado, as empresas estão se reinventando. Elas contratam gente nova, talentosa e treina", diz ele. A CNI avaliou essa movimentação em sua pesquisa: 84% das empresas industriais afirmaram investir em programas de capacitação. Com 22 anos, o engenheiro Ruy de Sordy, que trabalha na construção de pistas de provas e pavimentos especiais, frisa: "Engenheiro civil encontra oportunidade na área que quiser e em qualquer lugar do Brasil."

Sordy tinha duas propostas de trabalho antes de se formar. Recusou, inclusive, um convite para um processo seletivo da gigante Odebrecht, para seguir na Construtora Estrutural, onde fez estágio por três meses no final do ano passado, e hoje, efetivado, tem salário de R$ 3 mil - três vezes maior do que na época do estágio. "Não conheço nenhum amigo que queira trabalhar e não esteja trabalhando", diz Sordy.

Engenheiro de produto júnior da GM, Rafael Camin, 24 anos, confirma o cenário cada vez mais visível no País: diploma é sinônimo de proposta de emprego. "Das 25 pessoas que se formaram comigo, todas foram parar no mercado assim que concluíram a faculdade", conta ele, que terminou o curso em 2006 e, somente no último ano da faculdade, recebeu 15 convites para participar de processos seletivos e cinco propostas efetivas de trabalho. Camin, hoje, faz pós-graduação em mecatrônica na Poli - recebe R$ 400 da GM para fazer esta especialização - e vive tranqüilo com um salário de R$ 3 mil. "A demanda fez o salário médio do engenheiro saltar de R$ 1,2 mil, dois anos atrás, para os atuais R$ 4,5 mil", reforça Cardoso, o vice-diretor da Poli.

RH Andrea, da Plascar: 58 estagiários

Diferentemente da engenharia civil, que nos anos 80 e 90 viveu sua "fase perdida", com engenheiros desempregados, o setor de tecnologia da informação (TI) emprega toda a mão-deobra recém-formada há 20 anos. Enquanto o engenheiro civil daquela época emendava um curso atrás do outro após a graduação, já que não encontrava emprego, ou, em atitude extrema, não concluía a faculdade propositalmente para continuar no mercado como estagiário (o único cargo disponível no setor), os profissionais da computação já nadavam de braçada na bonança da profissão.

Tanto que, para tentar atender o mercado, que hoje cresce aproximadamente 15% ao ano, o número de cursos de computação passou de 300 em 1996 para 1,5 mil, no ano passado. "O curso de tecnologia da informação é pouco sexy, passa a imagem de ser um negócio de nerd. Mas está perdendo oportunidade quem não opta por ele. Não existe desemprego no nosso setor. É cursar a faculdade e sair para trabalhar", diz Benjamin Quadros, presidente da BRQ, empresa campeã do ranking de Tecnologia-Software e Serviços de As Melhores da Dinheiro.

Hoje, um milhão de pessoas estão empregadas em TI no Brasil. A relação candidato por vaga no setor é de um para um, de acordo com Mário Fagundes, coordenador de pesquisas do grupo Catho, o maior portal de recursos humanos da América Latina. "Até 2010, haverá a necessidade de 100 mil novos profissionais para dar conta do setor", diz Fagundes. Ele completa o quadro: "Com a falta de capital humano, a alternativa das empresas é baixar a qualificação."

Jovens talentos recém-graduados em uma faculdade renomada de TI são disputados e conseguem emprego até mesmo em grandes pólos da profissão, como o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), ou a China, que patrocina feiras ao redor do mundo para atrair profissionais. O paulista Samuel Goto, 25 anos, formou-se em engenharia da computação na Unicamp, em 2006. Naquele ano, ganhou US$ 5 mil em um concurso de projetos de software livre na multinacional Google. Com a premiação, conseguiu um estágio de três meses nos Estados Unidos e, ao final, recebeu uma proposta, no início do ano passado, de efetivação na matriz da Google, em Mountainville.
Goto optou por retornar ao Brasil para casar e fazer mestrado na Unicamp - que ainda cursa. Negociou, porém, sua contratação para o início deste ano. A Google topou e hoje o paulista é engenheiro de software do Orkut, site de relacionamento mundialmente famoso. É ele o autor de inúmeras inovações no site, como, por exemplo, a possibilidade de responder ao scrap na própria página de recados. "Profissionalmente, não tem lugar melhor para eu trabalhar, já que o desafio é grande. Eu trabalho com tecnologia de ponta, ao lado de pessoas que escreveram livros excepcionais que eu lia na faculdade", comemora Goto, que, por contrato, não pode revelar o salário.

COMPUTAÇÃO
Júlia Perdigueiro saiu empregada da faculdade e Samuel Goto foi trabalhar no Google, na Califórnia

Diferentemente do cenário atual, o País, durante décadas, teve um ritmo de desenvolvimento lento e os governantes subestimaram a necessidade de investimento na formação especializada. Hoje, atrair cada vez mais gente para aprender e adquirir competência e certificação em tecnologia, a começar pelo incentivo no ensino médio, é o horizonte que se desenha ante essa carência de mão-de-obra qualificada. É a forma de, no futuro, aumentar a chance de o País exportar mais tecnologia e menos gente de tecnologia.

ENGENHARIA CIVIL
É uma das áreas mais promissoras do momento. Na turma que concluiu o curso no ano passado na Unicamp, por exemplo, 90% dos recém-formados estão no mercado de trabalho. E este número tende a crescer. Segundo cálculo do vice-diretor da Poli (USP), José Roberto Cardoso, cada US$ 1 milhão investido pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) implica a criação de uma vaga de engenheiro. Se o governo federal repassar os R$ 500 bilhões (cerca de US$ 294 bilhões) por meio do programa até 2010 como foi prometido, em quatro anos serão necessários mais 294 mil novos profissionais. O Brasil forma, hoje, 26 mil engenheiros por ano. Aproximadamente 30% são civis. É pouco se pensarmos que a Coréia do Sul e o Japão formam 80 mil cada um e a Índia, 150 mil todo ano. "Precisávamos formar pelo menos três vezes mais" diz Cardoso. A jovem engenheira civil Débora Noronha, formada na Unicamp, começou como estagiária na Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) antes de se formar. Hoje, trabalha na Átria Engenharia, que constrói prédios comerciais e obras residenciais, com salário de R$ 1,5 mil. Segundo Cardoso, da Poli, o crescimento da construção civil no País deve muito a países asiáticos, como a China, que se tornaram fortes importadores de ferro, cimento e vergalhão. No mercado interno, o professor e coordenador do curso de engenharia civil da USP, Mario Senatore, aposta nas grandes obras do PAC. Para tanto, porém, é preciso de mais mão-de-obra capacitada. O Brasil tem 2,48 engenheiros por mil habitantes, número muito inferior ao dos países desenvolvidos.

MERCADO FINANCEIRO
A estabilidade da economia n ão restringiu o mercado de trabalho do setor financeiro. Pelo contrário. Hoje, há uma forte demanda por profissionais nas áreas de banco de investimentos, corretoras de capitais, seguradoras e previdência privada. "O mercado está crescendo de uma forma que não se via há anos", diz Ricardo José de Almeida, professor de finanças da Faculdade de Economia e Administração (FEA), da USP. "Na sala de aula vejo todo mundo com estágio e já nas melhores empresas." Com este céu de brigadeiro, no ano passado, o jovem economista Rafael Passos Kirsten se deu ao luxo de preterir quatro processos de seleção em empresas como Santander e Unibanco pelo estágio que fazia na Victoire, uma empresa de administração de recursos de terceiros. Na época, aluno do curso de economia com foco em mercado financeiro do Ibmec São Paulo, o paulista de 22 anos recebia R$ 600 mensais. Agora, já formado, foi efetivado com um salário de R$ 3 mil. Centro de referência nas áreas de negócios e economia, o Ibmec São Paulo registrou, no ano passado, um aumento de 60% no número de empresas do setor financeiro que tentam garimpar na instituição um jovem talento. Pesquisa do Ibmec verificou que 83% dos formandos em 2006 declararam não ter encontrado dificuldade para entrar no mercado de trabalho - um aumento de 21% em relação aos graduados em 2004. Esse mesmo levantamento revelou que, em 62% dos casos, os ex-alunos que estão empregados recebem em média um salário entre R$ 2 mil e R$ 4 mil.

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Desemprego é uma palavra que não existe na área de tecnologia da informação. A relação candidato por vaga no País é de um para um, ou seja, emprego garantido. A agressividade das empresas de TI é tanta na hora de buscar um jovem talento que, desde o ano passado, a gigante IBM firma parcerias com escolas do ensino médio para incluir em seus currículos disciplinas que cubram as necessidades de mão-de-obra especializada. A IBM ajuda a treinar os alunos de Estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, e dá a eles oportunidade de contratação. É uma das saídas para reverter um quadro crítico: um déficit de 17 mil profissionais nessa área no Brasil - em 2010, esse número deverá chegar aos 100 mil -, segundo um levantamento da consultoria IDC (International Data Corporation). "O Brasil terá déficit de mão-de-obra durante os próximos dez, 15 anos", prevê Deli Matsuo, diretor de recursos humanos da Google para a América Latina. A paulista Júlia Martins Perdigueiro, 24 anos, pesquisou as oportunidades do mercado antes de optar pelo curso de engenharia da computação na Unicamp. Formada no ano passado, ela trabalha como engenheira de softwares júnior do Instituto de Pesquisas Eldorado, referência em soluções tecnológicas inovadoras na área de TI. Júlia começou como estagiária no quarto ano da faculdade recebendo R$ 400. Em pouco mais de um ano, passou a ganhar R$ 3 mil por mês. "Não me vejo desempregada nos próximos anos. O mercado está bom, com muita oferta de emprego", diz Júlia.
AGRONEGÓCIO
O campo de expansão no setor de agronegócio é enorme. Há 90 milhões de hectares de terras no País que podem ser utilizados para a produção agrícola - hoje, 220 milhões já são explorados. "Não tem país no mundo que se compare ao Brasil em agronegócio e possibilidade de expansão", diz o coordenador do curso de gestão do agronegócio da Universidade Federal de Viçosa, Aziz Galvão da Silva Jr. O caminho do sucesso não é apenas produzir cada vez mais. Saber comprar e vender é fundamental e aí entra o profissional de agronegócio para fazer a diferença nessa cadeia. Na área de hortifrutigranjeiros, por exemplo, especialistas estimam que 30% do que se produz se perde entre a produção e o supermercado. É aí que entra o trabalho de planejamento logístico de profissionais como Yuri Clements, funcionário da PricewaterhouseCoopers, a maior empresa de consultoria de agronegócio do mundo. Ex-aluno da Universidade de Viçosa, Clements tinha sete propostas de trabalho antes de se formar. Aos 23 anos, hoje ele ocupa o cargo de consultor assistente de agribusiness da Price - e já recusou quatro outras possibilidades de emprego. Por um salário de R$ 1,4 mil, uma de suas funções é garimpar oportunidades de projetos no setor de carne, cana-de-açúcar e soja. Hoje, existem aproximadamente 100 cursos de gestor de agronegócio no País. Mesmo assim, há uma demanda grande de profissionais por conta do etanol e biodiesel. "Necessita-se de gente capacitada para coordenar a cadeia: quem vai fornecer o produto, fazer os contratos de compra e venda, cuidar dos preços", explica Aziz Galvão.

À espera dos Mecenas

Números da Lei Rouanet mostram que, à exceção da Petrobras, grandes empresas não aproveitam plenamente os incentivos para investir em cultura

Não faltam ao Brasil incentivos fiscais ao financiamento de projetos culturais e esportivos. A experiência de mecenato que mais deu certo até hoje é a da Lei Rouanet, que premia o investimento na área cultural, com ênfase em artes cênicas, cinema e música. Mais recente é a Lei de Incentivo ao Esporte, de dezembro de 2006, que permite o desconto no Imposto de Renda de patrocínios e doações para eventos esportivos. No ano passado, os projetos da Lei Rouanet somaram R$ 891 milhões. No setor esportivo, foram captados R$ 53 milhões para 21 projetos – só a Petrobras entrou com R$ 26 milhões destinados ao Comitê Olímpico. Trata-se de valores expressivos, mas muito aquém do potencial do mercado. Na área cultural, as empresas podem usar a isenção fiscal até o equivalente a 4% do lucro líquido. No caso de projetos esportivos, o teto é de 1% do IR devido. Mas a grande maioria fica longe do abatimento a que tem direito. A rara exceção é exatamente a Petrobras, que, em 2007, investiu R$ 205 milhões, dos quais R$ 180 milhões através da Lei Rouanet. Depois, bem abaixo, aparece a Vale, com patrocínios de R$ 32 milhões. A aplicação de grupos privados, como Ambev, Gol, IBM e Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), não chega sequer à casa dos dois dígitos. Essa realidade sobrecarrega a Petrobras, cada vez mais visada pelos produtores culturais e esportivos. “A Petrobras se orgulha de ser a maior parceira da cultura brasileira, mas não pode ter a expectativa tão concentrada nela”, afirma Eliane Costa, gerente de patrocínio da estatal.

Em certa medida, a Petrobras paga um preço alto por sua tradição no mecenato. As demais empresas ou são novas no ramo ou reagem negativamente diante da necessidade de criar áreas específicas para atender os candidatos a patrocínios e doações. O próprio governo federal levou algum tempo para convencer o Banco do Brasil a financiar a seleção feminina de vôlei. Algumas empresas são tão refratárias ao patrocínio cultural que financiam eventos e produções, mas preferem manter o anonimato. Temem que surjam filas de artistas e esportistas em sua porta. E não se mostram dispostas a montar estrutura para atendê-los. Na verdade, não está disseminada no País a cultura do mecenato. O que exige um trabalho de catequese por parte do setor público. O ministro do Esporte, Orlando Silva, por exemplo, tem realizado encontros com empresários para esclarecer sobre as vantagens fiscais embutidas na Lei de Incentivo ao Esporte. No final do ano, ele falou para diretores de 50 empresas, reunidos em evento no Jockey Club de São Paulo. Nesta segunda-feira, fará palestra para outro grupo de empresários, no Rio de Janeiro. Diante do desperdício da isenção fiscal, já existem empresas que reconhecem o erro e admitem rever a política de patrocínio. Uma delas é a Vale, que recentemente tomou a decisão de criar um núcleo de seleção de projetos semelhante ao da Petrobras. Enquanto o novo modelo está sendo elaborado, a Vale prefere não se pronunciar sobre o assunto. A mudança, porém, é líquida e certa, com o objetivo de ampliar o uso dos incentivos fiscais. Afinal, além da isenção, há o retorno positivo em termos de imagem institucional.

Para o ator Carlos Vereza, é um erro responsabilizar apenas as empresas pelo baixo volume de patrocínios. “Os empresários ficam receosos em relação à qualidade de muitos projetos e temem também pelo resultado do investimento”, diz ele. De fato, há muito projeto inviável e mal formulado. Mas o retorno é garantido pela renúncia fiscal da União. Tanto é bom negócio que a Petrobras criou uma estrutura azeitada para receber produtores culturais. Em 2003, a empresa lançou o Programa Petrobras Cultural, que, a cada ano, recebe cerca de nove mil propostas. A triagem inicial é feita por uma comissão de seleção externa. Os finalistas são submetidos ao Conselho Petrobras Cultural, composto de cinco membros: os gerentes de patrocínio e de comunicação da Petrobras, o gerente de comunicação da BR Distribuidora, um representante do Ministério da Cultura e outro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. No julgamento, eles foram auxiliados até o ano passado por um conselho consultivo de especialistas: José Miguel Wisnick (música), José Carlos Avelar (cinema), Jurema Machado (patrimônio), Ana Mae Barbosa (artes) e Arthur Nestrovski (literatura). Ao fim do processo de seleção, cerca de 300 projetos recebem o aval da estatal do petróleo. Vão de patrocínio de cinema, no valor de R$ 1,5 milhão, até gravações de CDs, de R$ 150 mil.

Preocupada em aprimorar a qualidade das propostas, a Petrobras passou a percorrer as principais capitais do País com uma oficina de formatação de projetos culturais. O resultado da iniciativa tem sido excelente, segundo a gerente Eliane Costa. Mas a Petrobras, que utiliza os 4% do lucro líquido, adverte que atingiu o limite de sua capacidade. Seus financiamentos já superam os limites dos incentivos fiscais. A empresa torce para que surjam novos mecenas e também que os mecenas existentes aumentem seus investimentos. Uma andorinha só ajuda, mas não faz verão.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Quantas árvores você está DEVENDO?

Piloto troca combustível por árvore. Músico compra carbono. Funerária planta muda a cada enterro. Tudo para salvar a Terra.

Por Francisco Alves Filho
Colaborou Luciana Sgarbi

É preciso rever a antiga receita de realização pessoal que sugere a todo homem escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore – os dois primeiros itens continuam valendo, mas, para saldar nossa dívida ambiental com o planeta, semear apenas uma muda é atualmente quase nada. Essa constatação tem levado pessoas e empresas a uma eficaz iniciativa para amenizar o problema: é a chamada “neutralização”, que consiste em compensar a ação poluente do ser humano com o plantio de árvores, o mais equivalente possível à quantidade de dióxido de carbono (CO2) lançado na atmosfera – a vegetação absorve o carbono e a poluição é neutralizada. “Contribuímos para o aquecimento global quando usamos, por exemplo, materiais não degradáveis ou veículos movidos a combustível fóssil”, diz David Zee, professor de meio ambiente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para se ter uma idéia, uma família que consome 400 watts de energia elétrica por mês, locomove-se de carro diariamente por 20 quilômetros e produz 800 gramas de lixo por dia, precisa plantar anualmente 12 árvores para equilibrar sua ação poluidora. Um brasileiro vive em média 72 anos e, para compensar o CO2 emitido na atmosfera ao longo desse tempo, teria de reflorestar uma área equivalente a 2,5 campos de futebol (cerca de 19,5 mil m2). E você, já sabe quantas árvores está devendo?

“No ano passado coordenamos 20 projetos de neutralização de carbono. Em 2007 já chegamos a 100”, diz Eduardo Petit, sócio da empresa Max Ambiental. No início, apenas ativistas recorriam a esse expediente. O que se vê nos últimos tempos, emporém, é a determinação de grandes empresas, o entusiasmo de pequenos grupos e a adesão das chamadas pessoas comuns. Foi o que fizeram os cariocas Renato Barandier e Izabela Lentino, ambos arquitetos, que se casaram no dia 20 de outubro e decidiram neutralizar as sete toneladas de carbono emitidas na cerimônia. A mesma preocupação moveu o piloto de stock car Allam Khodair, da equipe Boettger, responsável pelo plantio de 59 árvores para absorver o CO2 das três últimas provas da temporada. O conjunto de samba Jeito Moleque tornou-se o primeiro do País a fazer shows “neutros em carbono” e, através da ONG Inciativa Verde, plantou mais de 500 mudas em 2007. Os organizadores do Carnaval baiano já anunciaram que vão neutralizar o carbono emitido pelos trios elétricos em 2008, o Paraná Clube planeja fazer o mesmo com as partidas de seu time e os empresários do último TIM Festival plantaram mudas compensando o gasto de energia no evento.

Cresce também a participação das empresas. Gigantes como a Bradesco Capitalização, Volkswagen e Petrobras, entre outros, começaram a cuidar para valer da natureza no ano passado. Mais: a Ipiranga investe R$ 6 milhões para compensar a poluição dos veículos e a HSBC Seguros lançou o Seguro Carbono Neutro com parte dos investimentos revertida para a preservação das florestas. “Estamos abertos à possibilidade de patrocinar o plantio”, diz Marcelo Teixeira, diretor executivo da seguradora. Mesmo as empresas médias estão agindo. A Tour House, agência de viagens corporativas, vai neutralizar o CO2 emitido nos deslocamentos aéreos. “O combate às emissões é exigência da sociedade”, diz o diretor comercial Mateus Passos. Vale a pergunta: esse plantio influi na diminuição do aquecimento ou apenas alivia as consciências? “A crescente participação das empresas e dos cidadãos pode pelo menos atenuar o problema”, diz Zee. Segundo Adauto Basílio, da Fundação SOS Mata Atlântica, os empresários não podem plantar pensando somente nos ganhos de imagem imediatos. “É preciso continuidade”, diz ele.

Continuidade, perseverança e empenho são palavras-chave nesse caso. Dá trabalho, mas vale a pena. É preciso acompanhar o crescimento da planta, principalmente durante os primeiros dois anos, cortar o capim a sua volta e evitar pragas. A desvantagem de cultivar uma árvore solitária é que, ao morrer, ela também libera carbono – quando está ao lado de espécimes iguais esse efeito é neutralizado. “Seria ótimo se o cidadão conseguisse envolver a família ou os vizinhos para plantar em quantidade”, diz o biólogo Roberto Strumpf, da Iniciativa Verde. Ou seja: a melhor solução é participar de ações coletivas através de entidades especializadas em reflorestamento, porque aí a pessoa paga pelo plantio das árvores em locais adequados, pode acompanhar o momento em que a muda é colocada na terra e recebe um certificado. Antes mesmo de qualquer redução no aquecimento global, essa mobilização tem o benefício de criar um contingente comprometido com a preservação. Gente que para ser feliz pode fazer uma releitura da velha máxima: vale escrever um livro (de preferência em papel reciclado), vale ter um filho (e educá-lo para cuidar da natureza) e vale, sobretudo, plantar não uma mas várias árvores vida afora.

PILOTO VERDE Preocupado com a emissão de carbono, o piloto paulista de stock car Allam Khodair pensou em usar combustível e pneus ecológicos. “Era impossível, todos os carros devem obedecer ao mesmo padrão”, diz ele. Chegou à conclusão de que o melhor seria reflorestar: “Levo em conta o combustível queimado, o transporte do carro para os Estados e outros detalhes.” A neutralização teve início na corrida do circuito gaúcho de Tarumã. Pelas três últimas provas do campeonato, Khodair autorizou a ONG Iniciativa Verde a plantar 59 árvores, sob sua responsabilidade, para compensar 11 toneladas de CO2 lançadas na atmosfera.

SAMBA ECOLÓGICO Os sambistas do grupo Jeito Moleque criaram uma espécie de banco de árvores onde depositam a quantia necessária para o plantio de mudas equivalente ao carbono emitido em suas apresentações. “Os especialistas escolhem locais adequados e depois fazem o acompanhamento da planta, para que ela cresça saudável”, diz Bruno Diegues, vocalista da banda. Isso começou em setembro e, desde então, mais de 500 árvores foram plantadas em diferentes pontos do Brasil. O próximo DVD será gravado na Amazônia no mês que vem. “Nossa idéia é conscientizar o público sem sermos chatos”, diz Diegues. Até o fim do ano, o Jeito Moleque terá patrocinado o plantio de mil árvores.

ÁRVORE DA FUNERÁRIA Desde o início de outubro, a Funerária Vaticano, uma das maiores de Curitiba, planta uma muda de árvore para cada pessoa morta cujos funerais ficam sob seus cuidados. “Podemos dar a muda aos parentes, mas preferimos fazer o plantio num bosque da cidade, onde a absorção de carbono é melhor”, diz Mylena Cooper, uma das diretoras da empresa. No primeiro mês foram semeadas 100 árvores com a participação de alunos da rede pública. “Esperamos que no futuro uma lei obrigue todas as funerárias a fazer o mesmo em todo o País.”

CASAMENTO SUSTENTÁVEL O casal carioca Izabela Lentino e Renato Barandier neutralizou toda emissão de carbono da cerimônia do seu casamento. No cálculo entraram o deslocamento dos 500 convidados, alguns vindos do Exterior, o caminhão que trouxe o vinho do Rio Grande do Sul e a energia elétrica. “Até nossa lua-de-mel foi contabilizada”, diz Izabela. Os técnicos concluíram que seria necessário plantar 36 árvores para compensar as sete toneladas de CO2 produzidas no evento – e assim foi feito. As mudas foram distribuídas numa floresta do Paraná. “Nossa contribuição não é tão grande, mas serve para conscientizar. E não é preciso casar para tomar essa providência”, brinca Renato.

Fonte: Revista Isto é - www.istoe.com.br - 12/11/07

África de Sebastião Salgado

O fotógrafo Brasileiro mais conhecido nomundo resume em duas centenas de imagens o seu trabalho dedicado à África

SOFRIMENTO Meninas somalis circuncidadas (2001)

Numa visita à aldeia de Sabbatum, na Somália, o fotógrafo Sebastião Salgado presenciou "uma das coisas mais cruéis já vistas na vida". A cena que o chocou, há seis anos, foi a de duas meninas que acabavam de ter seus clitóris arrancados e cujas pernas eram mantidas unidas por ataduras para não rasgar a cirurgia precária. "Elas não podiam se mexer, haviam acabado de perder a possibilidade de prazer no futuro", lembra Salgado. "A expressão dos seus rostos era de tristeza fatal. Naquele dia eu não consegui mais fotografar." Os retratos de Sitey Muse Mukhtar, na época com sete anos, e de Xalime Ali Sheik, de dez anos, fazem parte do extraordinário livro África (Taschen, 336 págs., R$ 199), no qual Salgado faz um apanhado de seu trabalho de 34 anos no continente africano. São 221 fotos selecionadas de 40 reportagens. Mas Salgado só identificou essas duas meninas somalis. E, claro, o líder etíope Hailé Sélassié, que lutou contra a dominação italiana, numa foto de 1974, publicada pela primeira vez.

TRABALHO Grupo dinka, do Sudão, conduz o gado ao final do dia no campo de Pagarau, no sul do país (2006)

Como aquela cena das circuncidadas, existem outras, inúmeras, que indignaram Salgado nessas três décadas de trabalho. E por isso foram documentadas e publicadas em revistas e jornais do mundo inteiro: como ele sempre lembra, seu trabalho de grande artista (palavra de que não gosta) é basicamente jornalístico. "Fotografo a realidade que está acontecendo. Não provoco aqueles fatos, eles fazem parte da nossa história", diz. São massacres, êxodo de populações desesperadas e famélicas, retratos de pessoas vítimas de cólera, malária ou hanseníase em flagrantes difíceis de se ver. Salgado poderia falar em detalhes de cada uma das imagens, porque não deixa de anotar o contexto de nenhuma delas e tem a memória viva de tudo o que aconteceu. Numa cena de grande impacto, uma mulher foge com a filha sob o fogo cerrado de um bombardeio aéreo, em 1985. Ela leva na cabeça a panela, como se fosse um capacete. "Isso aconteceu na província de Tigray, no norte da Etiópia, durante a guerra contra o governo. Eram refugiados abandonando o país em direção ao Sudão", diz ele.

CASTIGO Nômades atravessam o leito seco do lago Faguibine, no Mali (1985)

Essa foto pertence à parte mais dramática do livro, aquela dedicada à região do Sahel (África Subsaariana) - as outras duas cobrem a África Austral e os Grandes Lagos. "Em Sahel foi a própria natureza que castigou o homem", diz Salgado. Ao documentar o Lago Faguibine, no Mali, ele cruzou com um grupo de migrantes em pele e osso, cujas roupas negras contrastam com a luz escaldante refletida na areia. É como se entrassem num ponto cego da visão.

BELEZA Lago no vulcão Bisoke, em Ruanda (2004)

"Eles estão caminhando dentro do leito do lago que já foi o maior da África Ocidental." Num paralelo a tanta dor e miséria, Salgado selecionou também imagens mais aprazíveis, como a reportagem sobre o cultivo de chá em Ruanda, primeira região africana que conheceu, quando ainda era economista da Organização Internacional do Café, em 1971. Vinte anos depois ele voltou ao local e fez as fotos que estão no livro. Em 2004, realizou a série de paisagens com os vulcões e lagos da região, que também estarão nos volumes do projeto Genesis, previsto para 2011, sobre a parte "intocada" do planeta. Essas são as primeiras paisagens feitas por Salgado. Mas ele diz que a natureza sempre esteve presente em seu trabalho como contexto no qual se inseria o ser humano. "Não me tornei um fotógrafo de landscape", diz.

Fonte: Revista Isto é - www.istoe.com.br - 12/11/07

sábado, 20 de outubro de 2007

'Capitão Fábio' abre boteco em Perdizes

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 20/10/07

Ator de ‘Tropa de Elite’, Milhem Cortaz aproveita popularidade

Sérgio Duran

Ninguém sabe direito qual é o destino final do capitão Fábio no filme Tropa de Elite, de José Padilha, depois do “pede pra sair”. Pois bem, ele virou dono de boteco e inaugura hoje uma modesta casa em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Brincadeiras à parte, o ator Milhem Cortaz, de 34 anos, diz nunca ter gozado de tamanha popularidade quanto agora, com o filme em cartaz. “O Tropa foi, para mim, uma espécie de novela das oito da Globo.”

Cortaz discorda das críticas de que o filme seja fascista, de que defenda o Estado policial ou ainda que seja uma narrativa do ponto de vista dos policiais. “É um dos filmes mais sinceros e cidadãos que eu já fiz”, afirma. “Faz a gente ver o nosso ridículo. Quem não encontra um preto na rua à noite e muda de calçada? Bem lá no fundo, todo mundo é reacionário. É bom que as coisas estão ficando mais claras nessa discussão.”

Para o ator, a formação de documentarista de Padilha colaborou para a construção de “um filme vital” para o Brasil neste momento. “De repente tudo conspirou a favor, até o assalto ao Luciano Huck”, considera. “O que escreveram depois, me desculpe, foi nada a ver. Só porque o cidadão ganhou dinheiro na vida passou a merecer ser assaltado?”, questiona.

Cortaz é um ator produtivo no cinema. Antes do capitão Fábio, interpretou o matador Peixeira em Carandiru, de Hector Babenco, papel que rendeu, em suas palavras, o respeito da classe artística. “Mas foi o capitão Fábio que me deu popularidade”, conta. Em sua opinião, o militar que interpretou é um homem “do bem”, apesar de cobrar propina para proteger comércios e de explorar a prostituição em Copacabana (zona sul do Rio), entre outras atividades paralelas. “Esses esquemas são completamente naturais para ele”, explica. “Porém quando os outros dois companheiros pegam o dinheiro do jogo do bicho e deixam o comandante furioso, ele não entrega os amigos. Ele assume a culpa”, analisa.

Tropa é o 31º filme da carreira de Cortaz. Há pelo menos outras três produções para estrear, entre as quais Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, no qual figura até José Celso Martinez Corrêa.

O Cortás Pastéis - Espetos (Avenida Professor Alfonso Bovero, 584), conta, é um projeto familiar. Ele montou o negócio, na verdade, para o pai, Milhem Cortás Neto, de 65 anos, comerciante aposentado que durante décadas foi proprietário de uma lanchonete, ao lado da Estação Vergueiro do Metrô. Chamava-se Tinho e tinha como quitute mais famoso do cardápio o pão de queijo. No boteco que inauguram hoje, eles investirão em espetinho, pastel de feira e cachaça. “Será um boteco tradicional mesmo. Eu sempre adorei boteco, desses bem toscos, simples mesmo. Também sempre adorei cachaça. Não bebo cerveja”, conta Cortaz, que tem ascendência árabe e italiana, estudou no Teatro Piccolo de Milão na década de 80 e é um velho conhecido dos palcos paulistanos.
A todos os amigos ele pediu que levem um prato de casa para a inauguração do bar. No futuro, quando o cliente se tornar assíduo, terá direito a deixar um prato no boteco e a pedi-lo toda vez em que visitá-lo. Será uma forma de fazer com que todos se sintam em casa quando estiverem no boteco. “Aqui será um espaço da minha família, de amigos e parceiros”, diz. “Essa foi a maior vantagem de abrir esse bar. Nos últimos seis meses, conversei mais com o meu pai do que nos últimos seis anos. Montei isso aqui para ficar mais perto dele.”