sábado, 20 de outubro de 2007

Quatro vezes o talento de Gael

Data: 20/10/07

Ator, diretor e produtor fala sobre filmes, diretores, mulheres e amor

Luiz Carlos Merten

Quem leu, anteontem, a entrevista de Hector Babenco na abertura da 31ª Mostra Internacional de Cinema talvez se surpreenda ao saber que Gael García Bernal desmente seu diretor em O Passado. Babenco disse que após a filmagem, ao levar Gael para o aeroporto, perguntou-lhe por que quis fazer o papel. Gael teria respondido que era filho de pais separados, não falava (nem via) o pai há anos quando ele ressurgiu em sua vida e o levou ao cinema. O filme era Pixote. “Hector não me levou ao aeroporto. E eu vi Pixote em Londres, quando lá estudava, aos 16 anos”, ele conta. A pergunta vem, inevitável - se não foi como Babenco conta, por que ele quis fazer O Passado? “Em primeiro lugar porque tinha muita vontade (ganas) de trabalhar com Hector. E gostei do roteiro, que despertou em mim a vontade de fazer um filme de amor, coisa que não fazia há tempos.” A versão do diretor é tão bonita - apesar da sinceridade de Gael - que dá vontade de lembrar John Ford. Print the Legend, dizia o mestre no desfecho de O Homem Que Matou o Facínora, um dos grandes westerns crepusculares do cinema. Quando a versão é melhor, imprima-se a versão.

Gael chegou a São Paulo na quinta-feira, para uma curtíssima estada. Veio prestigiar a exibição de O Passado e falar um pouco sobre outros três filmes aos quais está ligado, no evento deste ano. Gael García Bernal pode virar o ‘muso’ da 31ª Mostra. Além de O Passado, é ator e diretor (sua estréia) em Déficit, atua em Sonhando Acordado, de Michel Gondry, e produz - por meio da empresa Canana, que fundou em parceria com outro astro mexicano, Diego Luna - Cochochi, de Laura Amélia Guzmán e Israel Cárdenas. Ele se admira - achava que eram só três. O filme de Gondry é do ano passado. Gael adora o diretor. “É muito inventivo.”

Houve outro motivo para que Gael quisesse fazer O Passado. “Queria voltar à Argentina”, ele conta, e o filme é muito argentino, com esse personagem de jovem-velho (como o define o diretor) que é tipicamente portenho. “Rimini é diferente dos outros personagens que tenho criado. Ele é dependente. É um personagem cujas mulheres e as palavras o guiam do princípio ao fim. Rimini tem uma relação distinta com cada uma delas. São as mulheres que o conduzem até onde deve chegar.” É curioso que Gael cite as palavras, porque uma das características marcantes do filme é que, nos 10 ou 15 minutos finais, Rimini quase não fala. Deve dizer duas ou três palavras, uma frase. Gael atua muito mais com o físico, o olhar, os gestos do que propriamente com a palavra. É difícil?
“Havia muita coisa difícil neste filme, mas por isso ele era estimulante. O amor é uma vertigem física vivida pelos personagens. Eles, principalmente as mulheres, se jogam na paixão”, ele diz. Embora a citação a Adèle H, de François Truffaut, não se refira exatamente a isso - o filme entra para dar a (des)medida das mulheres que amam demais -, Babenco compartilha, com o autor francês, dessa certeza de que ele (e seus personagens) vivem o amor como embate entre o gesto impulsivo e a palavra consciente. Além do roteiro, sobre o qual trabalhou, Gael leu, naturalmente, o livro de Alan Pauls em que Babenco se baseou. O filme elimina partes inteiras do livro. Há uma parte sobre um pintor, que culmina com o roubo de um quadro, que deve ocupar umas 50 páginas. Babenco tirou tudo.

“Não senti falta. Creio que a história do pintor era outra história, paralela à de Rimini e suas mulheres.” Ele não contesta as escolhas do diretor. “Não - porque ele é quem tem o filme na cabeça. O prazer de participar de um filme como este é se entregar à batuta de um maestro como Hector.” Ele desmente insinuações, que saíram na imprensa internacional, de que teria brigado com o diretor, como brigou com Pedro Almodóvar, durante a realização de Má Educação. “É o tipo do boato maldoso que certas pessoas gostam de difundir.” Babenco contou que Gael ajudou no processo de seleção das atrizes - Analía Couceyro, Moro Anghileri e Ana Celentano. “Foi muito rico trabalhar com elas, mas tem de ser assim. Se não houver interação, não há prazer.”

Quando iniciou a filmagem de O Passado, Gael estava em pleno processo de montagem do filme que assinala sua estréia como diretor - Déficit. É a história do filho de um político corrupto (e influente). Durante um fim de semana numa casa da família, fora da Cidade do México, Cristóbal - é o nome do personagem - estabelece um jogo de poder com as mulheres e os amigos, mas o tema do filme é a sua crise, a vontade de ser ele mesmo. “O que me atraiu foi essa idéia de trabalhar sobre um personagem da classe alta, coisa que nunca havia feito antes. Ele carrega o peso dos atos do pai e a idéia é justamente discutir a responsabilidade individual. Não precisamos seguir com os erros que nos são impostos.”

Ele não pensou em outro ator para fazer o papel? “Pensei, sim. Até por ser minha estréia, queria ficar mais livre, para me dedicar só à direção. Ocorre que chegamos em cima da rodagem sem um ator definido e, a esta altura, já estava tão envolvido com o personagem que decidi fazê-lo eu mesmo.” Foi um filme experimental feito em digital, com baixíssimo orçamento. “A idéia era justamente viabilizar uma produção de baixo custo, sem nenhuma ajuda. Não podemos ficar nos queixando de que falta apoio, que falta isso ou aquilo. É preciso fazer. Formávamos uma equipe jovem - todo mundo na faixa de 30 anos, ou menos. Como trabalhávamos com vídeo, podíamos repetir bastante. Foi assim que, embora tivéssemos um roteiro-guia, pudemos improvisar bastante. Duas ou três cenas, inclusive, foram acrescentadas ao roteiro em função do que descobríamos na filmagem.”

Haver-se transformado, ele próprio, em diretor mudou alguma coisa na maneira de Gael atuar, ou entender o cinema? “Com certeza, sim”, ele diz. “Entendo agora melhor o ponto de vista do diretor.” Por falar em diretores, Gael trabalhou com Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos e Babel) e Alfonso Cuarón (E Tua Mamãe Também), que constroem hoje uma carreira internacional, consagrados em Hollywood. Isso o surpreende? “Não, pois são muito inteligentes e dominam sua linguagem. E os dois são generosos. Não se preocupam só com eles. Gostam de apoiar. Ambos têm um lado paternal muito forte. Considero-os meus mentores.” Em matéria de diretores, ele dedica um carinho todo especial a Walter Salles, com quem fez Diários de Motocicleta. Embora tenha convivido com filhos de exilados políticos, quando garoto, no México, ele diz que foi Walter quem lhe permitiu descobrir o Brasil. E Carlos Reygadas, que ganhou o prêmio da crítica no Festival do Rio, com Luz Silenciosa? “Carlos é um amigo muito exigente. Gostaria de trabalhar com ele, mas não dá. Carlos só utiliza atores não profissionais.” Sobre a empresa que criou - Canana -, esclarece. “Não queremos, nem Diego nem eu, viabilizar só nossos projetos. Cochochi nos chegou, nos apaixonamos pela idéia. Resultou num filme maravilhoso.”

(SERVIÇO)
Cochochi, de Israel Cárdenas, Laura Guzmán. Cinesesc: Hoje, 20h10. Unibanco Arteplex 1: Dia 25, 18h50. HSBC Belas Artes 2: Dia 28, 16h30. Cotação: Ótimo
Déficit, de Gael García Bernal. Faap: Hoje, 19h30. Cinesesc: Dia 22, 15h10. Cinemateca. Dia 26, 15h10. Cotação: Regular
O Passado, de Hector Babenco. Cinesesc: Dia 24, 22h10. Cine Bombril 1: Dia, 26, 18h10. Cinemark Eldorado: Dia 28, 19 h. Cotação: Bom
Sonhando Acordado, de Michel Gondry. Cinemateca: Hoje, 19 h. Cinesesc: Dom., 13h30. Cotação: Regular

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Photoshop para leigos: menos caro e mais fácil

Confira teste exclusivo do novo Photoshop Elements 6, cujos recursos (e preço) são destinados ao usuário amador

Bruno Sayeg Garattoni

Ao contrário do que muita gente pensa, o Photoshop não é exclusividade dos fotógrafos profissionais. Ele tem uma versão amadora, que se chama Photoshop Elements e foi especialmente projetada para usuários leigos - além do preço bem menor, traz recursos exclusivos e ferramentas de edição simplificadas, mais fáceis de usar.

O Link testou, com exclusividade, a nova versão do programa: o Photoshop Elements 6, que chega ao mercado brasileiro em novembro. Na verdade, o Elements é um pacote composto por três programas: um organizador, um editor e um “exportador” de fotos (para gravar tudo em CD ou jogar na internet).O uso do programa começa pelo organizador. Que, como seu nome diz, organiza em grupos e categorias as fotos armazenadas no PC (ou descarregadas de uma câmera). Exatamente como faz o programa gratuito Picasa - leia mais na página 4. Ocorre que, ao contrário do Picasa, o organizador do Photoshop não é lá muito organizado.Se você deixar, ele pega as fotos da sua câmera e joga num grande “bolo”, junto com as imagens que já estão no PC. O Picasa é mais esperto: cria automaticamente um álbum, cujo nome o usuário é convidado a digitar.Para piorar as coisas, não tem um campo de busca para procurar fotos! Ou melhor, tem - mas está escondido. É preciso clicar em Find e aí selecionar busca por legenda (caption) ou nome do arquivo (filename).Acontece que, como o programa não solicitou que você nomeasse o lote de fotos durante a importação, elas ficaram sem nenhum tipo de identificação (como “churrasco”, “Natal”, etc.). Têm apenas os nomes estranhos, e sem sentido, do tipo DSC100094.jpg , com que vieram da câmera digital. Ou seja: na prática, não dá para fazer busca nenhuma.É possível evitar esse problema. Basta selecionar, antes de importar as fotos, a opção Custom. Mas o Photoshop deveria ser mais esperto. Mesmo.A interface gráfica do organizador também não ajuda. É poluida e ligeiramente confusa, muito inferior à do Picasa.O Photoshop compensa com um recurso inovador: o Find by visual similarity (encontrar por semelhança visual). Essa função analisa o conteúdo de determinada foto e encontra outras parecidas com ela (um pôr-do-sol, por exemplo). Legal.Mas não é o bastante. O organizador do Photoshop Elements é bem ruinzinho.

SHOW DE EDIÇÃO

Já o editor de fotos, é simplesmente excelente. Ele traz ferramentas exclusivas que realmente ajudam a trabalhar com as fotos. Confira, no quadro da página 5, como no Photoshop os retoques são sempre mais fáceis de fazer.E não só isso: o resultado final também fica melhor. Veja o caso da Varinha mágica (Magic wand). É uma das principais ferramentas, talvez a mais importante, em qualquer software de fotografia, pois ajuda a selecionar as regiões da foto que serão tratadas (como a pele de uma pessoa) sem que você precise demarcá-las, milímetro a milímetro, com o mouse. Nessa tarefa, o Photoshop foi muito mais preciso do que o similar gratuito Gimp. Sua coleção de filtros e ferramentas, com dezenas de opções, também é sem igual. Outra exclusividade do Elements é a edição guiada (Guided Edit). Ela realmente ensina, passo-a-passo, como melhorar as fotos: pois mostra, numa sequência lógica, tudo o que você precisa fazer (cortar a foto, retocar as cores e a iluminação, aumentar a nitidez, etc.).Basta ir seguindo as instruções, apertando os botões que aparecem na tela. Mas é preciso saber inglês (o software não tem versão em português).O Photoshop permite ver as fotos no modo Before & After, que mostra lado a lado o “antes” e o “depois” da foto que está sendo editada. Ou seja: fica muito mais fácil avaliar o efeito de uma ajuste, ou de um filtro, antes mesmo de aplicá-lo. As modificações não são destrutivas, ou seja, não afetam a foto original.

TIPO EXPORTAÇÃO

Na hora de exportar as fotos, seja para a internet ou para um CD, o Photoshop Elements também se destaca. As galerias de fotos online, que ficam hospedadas no site Photoshop Showcase.com, são muito bonitas - podem conter elementos sonoros e gráficos 3D.O gerador de slideshows é um caso à parte. Ele é um verdadeiro editor multimídia, que permite misturar vídeos e MP3 às fotos - e depois gravar tudo num CD que roda em toca-DVDs comuns (ideal para presentear a família).Como um todo, o Photoshop Elements 6 é excelente - só o organizador, infelizmente, deixa a desejar. O preço, em torno de R$ 300, é um pouco alto. É mais negócio comprar o pacote promocional, de R$ 460, que inclui também o sensacional editor de vídeo Premiere Elements (semiprofissional).É um bom dinheiro, claro. Mas, para o amador que gosta muito de editar fotos (e vídeos), não há nada melhor.

Mostra de cinema no tempo do YouTube

O maior evento da área no País começa sexta alinhado à era digital

Marcel R. Goto

A menos de uma semana do início de sua 31ª edição, o quartel-general da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vive o típico frenesi da véspera dos grandes eventos.A complicada logística por trás das mais de mil sessões de quatrocentos curtas e longa-metragens não abandona seus organizadores, o casal Leon Cakoff e Renata de Almeida, nem durante uma breve entrevista sobre como as tecnologias de informação transformaram a produção do evento ao longo do tempo. Não se deixe enganar pelo aspecto pacífico da foto: enquanto posava, Cakoff tinha o celular ligado em viva-voz sobre a mesa e discutia calorosamente uma das inúmeras questões burocráticas da Mostra.À primeira menção da internet, no início da entrevista, ele responde com satisfação: “Somos pioneiros, nosso site, www.mostra.org, precede até a regularização da internet no Brasil”. Mais do que um informativo do evento, o sítio, como Cakoff faz questão de chamar, transformou-se numa referência sobre cinema na web brasileira. Todos os filmes já exibidos nos 30 anos da Mostra estão catalogados lá, e esses arquivos, mais o jornal do site, que tem 50 mil assinantes, fizeram com que ele fosse eleito pela revista Info como o melhor endereço online sobre cinema do país. Este ano, o site exibirá vídeos dos debates e trailers dos filmes exibidos.Renata conta uma interessante anedota sobre o envolvimento da internet com a Mostra. Enquanto escolhia obras de Claude Lelouch para uma seleção especial, amigos franceses lhe indicaram o curta C'était un Rendez-Vous, de 1976, que foi recentemente remasterizado e estava disponível no YouTube com a bênção do diretor.No filme, o próprio Lelouche dirige veloz e um tanto irresponsavelmente pelas ruas de Paris, passando por diversos marcos e sinais vermelhos, com uma câmera especial acoplada à frente do carro. Foi a primeira avaliação online de um filme para a Mostra, e Rendez-Vous será exibido em cópia de 35mm.Ela indica ainda outros filmes com forte relação com a tecnologia digital, como Tracey Fragments, que usa técnicas de composição praticamente impossíveis de serem reproduzidas em filmes tradicionais, e Braid Upon the Brain, de Guy Maddin, que usa filtros digitais para reconstituir a aparência dos filmes dos anos 20. Quando questionada sobre a possibilidade de uma versão online da Mostra, Renata explica que o evento permanece fiel a certas tradições: “Pra nós o cinema é uma experiência social. Tudo faz parte: sair de casa, o caminho, a fila, sentar ao lado de pessoas que você não conhece e compartilhar a sala escura”.E quanto à possibilidade de exibir filmes que evitam o circuito das salas de cinema e existem apenas na web? “Um dos critérios de seleção é que a obra seja inédita em São Paulo. Se está na internet, consideramos que não é inédito”. Mas os critérios podem ser revistos no futuro, diz.Um jornal emoldurado no escritório da Mostra, como uma instalação de arte, talvez seja o melhor símbolo da relação do evento e seus organizadores com a tecnologia. Trata-se da manchete da derrota do enxadrista russo Kasparov pelo computador Deep Blue, estampada na capa do Libération, jornal francês progressista fundado por Sartre. A internet e a revolução digital, longe de ditarem regras, são vistas sempre pelo olhar da arte e outras tradições das humanidades. E Leon Cakoff, como comenta Renata, ainda não se convenceu a usar seu iPod...

(SERVIÇO)A Mostra Internacional de Cinema de SP vai de 19 de outubro a 1º de novembro.

Uma ópera contra o País da corrupção e da impunidade

Luiz Carlos Merten

Cláudio Torres baseou-se no caso do investidor Sérgio Naya, cujo empreendimento - o condomínio Palace II - ruiu na Barra, no Rio, para realizar Redentor, que estréia hoje no Canal Brasil, às 22 horas. Na ficção do filho de Fernanda Montenegro - ela é atriz no filme -, o prédio não vem abaixo, mas tem sua construção interrompida pelo colapso financeiro do investidor, o empresário interpretado por José Wilker. Ele se mata e seu filho (Miguel Falabella) herda os negócios do pai - e o problema.Embora este seja um eixo importante do filme, a história é contada pelo ângulo de um jornalista - Pedro Cardoso -, cujo corpo, no começo, está num lixão. O jornalista moveu, por vingança, uma guerra pessoal contra o empresário corrupto. E o prédio inacabado é invadido pelos sem-teto de uma favela próxima. O Brasil, da corrupção e da impunidade, irrompe nas imagens de Redentor.Cláudio Torres fez desse filme um projeto rigorosamente operístico e autoral, convencido de que só o absurdo da ficção pode recriar na tela o absurdo do Brasil real. A ópera termina num verdadeiro apocalipse now. Redentor desconcerta. Não é para todos os gostos, mas proporciona um choque do real que vale experimentar.

A eterna busca do tempo presente

Fonte: Jornal O estado de São Paulo

15/10/07

Em Hotel Atlântico, Suzana Amaral valoriza ao máximo o trabalho dos atores para contar uma história nada convencional

Flávia Guerra

“Não quero dar entrevista. Não agora”, dizia o ator Júlio Andrade ao Estado, no rancho que a equipe de Hotel Atlântico usava de base para as filmagens em Paulínia, cidade que tem o arrojado projeto de se tornar um dos maiores pólos de cinema do País e que tem oferecido locações e logística invejável para vários filmes nacionais. “Sobre o que você vai perguntar? Do filme ainda não consigo falar”, avisa Júlio, que fez ótima estréia no cinema em Cão sem Dono, de Beto Brant. A pedido da reportagem, no fim de uma jornada de trabalho, Júlio, os atores Jidu Pinheiro, André Frateschi e a diretora se sentam à beira do lago que banha o rancho que serve de base para a equipe e páram para pensar no filme. A conversa explica o porquê da aversão a entrevistas. “Vou adorar falar quando o filme estiver pronto. Mas estamos literalmente no meio do processo e não tenho opinião formada nem mesmo sobre meu personagem”, continua o ator de olhar cortante e atento. Foi este olhar que cativou definitivamente a diretora. “Estava em dúvida sobre alguns nomes. Quando vi Cão sem Dono, decidi. Tinha de ser o Júlio. Ele tem nos olhos a surpresa de que meu protagonista precisa.” Sorte dele. Suzana é responsável por trazer para as telas o talento de atrizes como Marcélia Cartaxo (descoberta num grupo de teatro e vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim de 1986 por A Hora da Estrela) e Sabrina Greve (também escolhida no palco para Uma Vida em Segredo. que integrou a Semana da Crítica do Festival de Cannes, e eleita a melhor atriz pela APCA em 2001). Na tarde em que o Estado percorreu um trecho da estrada de Hotel Atlântico, dividiam a cena com Júlio os atores Jidu Pinheiro e André Frateschi. “Fiz um curta que ainda não estreou”, conta Jidu. Frateschi fez uma participação em O Cheiro do Ralo, mas a cena foi cortada. “Do meu filme você não sai”, brincou Suzana, que também incluiu em seu elenco nomes como João Miguel, Lázaro Ramos, Mariana Ximenes, Helena Ignês e Paula Braun.O trio se dizia privilegiado por ser dirigido por Suzana. Raro exemplo no cinema nacional, a diretora, que cursou cinema na Escola de Comunicações e Artes da USP e na New York University, aposta no método de Sanford Meizneck, um dos principais professores de interpretação dos EUA. Traduzindo em linhas gerais, o que de fato importa para ela é que “atuar é a realidade de viver o tempo presente”. E esse lema ela não aplica só ao trabalho com os atores. A metamorfose ambulante em que se torna sua equipe não está desconfortável com a falta de respostas. Pelo contrário. É a dúvida que alimenta cada dia de trabalho. “Não falo nada. Meus atores chegam e tomam conta do set antes que o resto da equipe chegue”, acrescenta a diretora, depois de passar o dia dirigindo o trio que viajava de carro por uma estrada. Suzana está disposta a subverter a relação diretor-ator. “É uma das poucas que coloca o ator na frente do processo”, diz Jidu. “Só ´pastoreio o que os atores criam.” Raridade, não? “É. Mas ela realmente nos deixa mais livres”, completa Frateschi. “É mais divertido. Cada um traz suas propostas. Desburocratiza o trabalho”, diz Júlio. Suzana rebate: “Não sou diretora de trânsito. Sou centralizadora, mas na minha equipe todos pensam juntos. Tento manter a coerência.”Quando questionada sobre por que adaptar um terceiro livro, responde: “A razão principal é que não dou roteiro para atores. Dou o livro. Deixo que pensem nos personagens. Com o roteiro, eles decoram as falas e o filme deixa de ser espontâneo.”De roteiro, ela entende. “Já li centenas em tantas comissões de seleção que integrei. É tanta literatura chinfrim. Roteiro tem de ser concreto. Nao pode ter palavra bonita. É ação. O resto é conversa. É a inteligência do ator. É o subtexto que importa.”E por que desta vez contar uma história masculina? “Não é um filme sobre homens nem para homens. Não sei por que cismaram que faço filmes para mulher. Eu falo sobre o ser humano. Todo mundo ama. Todo mundo sofre. Não sou feminista. E não sofro nenhum preconceito no set por ser mulher.” Mas Suzana não nega que esteja adorando fazer filmes com homens. “Passei um mês no meu sítio em Atibaia preparando o filme com eles”, brinca. E para eles? É diferente ser dirigido por uma mulher? “É. Mas com a Suzana a gente não pensa nisso. Falamos de absolutamente tudo ”, conta Júlio. “Passamos o tempo em Atibaia comendo comida da horta. Um diretor jamais ia se preocupar com o que a gente come”, brinca Frateschi. Pode parecer brincadeira, mas a preparação busca a essência da história na convivência com os atores. Nesta busca, não há espaço para artificialismos e truques de roteiro. Na trama, os atores vão e vêm ao sabor do caos que Suzana retrata. “Preciso que eles estejam espontâneos e preparados. Tirando o Alberto (Júlio), os personagens não são sempre os mesmos. Não é trama tradicional.”É a tensão da mudança que dá energia à história. “É um filme episódico. Nada que acontece tem ligação. Nem com o passado. Nem com o futuro. É uma sucessão de acontecimentos não vinculados em uma narrativa do aqui e agora. Foi isso que me atraiu.” Esse caos não traz angústia e dúvida? “Exatamente. Traduz o momento que vivemos. Mas sou adepta da filosofia budista. Vivo o tempo presente”, diz ela, em busca de um ‘cinema do despojamento’. “Quero falar do ser de hoje, da descartabilidade dos acontecimentos atuais. Quem for esperando um filme comercial não vai entender. Todos os meus filmes começam, na cabeça das pessoas, quando a luz acende”, reflete. E brinca: “Até agora, ninguém entendeu o roteiro. Todo mundo achou uma porcaria. Mas vocês vão ver quando ficar pronto e dizer: ‘Nossa, que p... filme!”

domingo, 14 de outubro de 2007

Chávez cria

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

14/10/07

Chávez cria Hollywood bolivariana para promover revolução

Primeiro filme rodado no pólo cinematográfico criado pelo presidente venezuelano narra saga de herói da independência"Miranda Regressa" teve orçamento de US$ 2,3 mi e première de gala; outros 19 projetos estão em produção ou acabam de ser concluídos

Howard Yanes-11.out.2007/Associated Press

A première de "Miranda Regressa", que teve Chávez e o equatoriano Rafael Correa na platéia

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O slogan da Fundação Villa del Cine anuncia sem pudores: "Luzes, câmera, revolução". Criado pelo presidente Hugo Chávez para combater "a ditadura de Hollywood", o estúdio de cinema estatal venezuelano enfrenta neste fim de semana a sua primeira grande batalha, com a estréia da superprodução "Miranda Regressa".O ambicioso longa sobre a vida do herói da independência Francisco de Miranda (1750-1816) é a primeira das 19 produções recém-concluídas ou em andamento da Villa del Cine a estrear em circuito comercial. Com 140 minutos de duração e orçamento de US$ 2,32 milhões, o filme foi rodado na Venezuela, em Cuba e na República Tcheca e conta com uma pequena participação do astro norte-americano Danny Glover, um fã declarado de Chávez.A maior parte parte das filmagens foi realizada na própria sede da fundação, que mantém um complexo com dois estúdios na cidade de Guarenas, na Grande Caracas. Trabalham ali cerca de 1.500 pessoas, quase todas de cooperativas vizinhas, responsáveis por áreas como figurino e carpintaria."A Villa preenche um espaço que ninguém ocupava", disse à Folha o diretor de "Miranda Regressa", Luis Alberto Lamata, considerado um dos mais importantes do país. "O cinema venezuelano tem sido feito por nós, cineastas, em alguns casos com o apoio de outras instituições do Estado ou com o dinheiro que se conseguir. A Villa possibilita que se faça um trabalho por encargo."Mesmo antes de sua estréia nas telas, a Villa, inaugurada no ano passado, tem atraído várias personalidades interessadas na experiência chavista. Já visitaram os estúdios os atores hollywoodianos Kevin Spacey e Sean Penn, além de Glover, que planeja desenvolver ali um controvertido projeto de US$ 18 milhões -prometidos a ele por Chávez- para filmar a história da independência haitiana.Para a première, o local escolhido foi o Teatro da Academia Militar. Diante de uma platéia que misturava atrizes com decotes ousados, dezenas de cadetes uniformizados, jornalistas, entre os quais a reportagem da Folha, e o colega equatoriano, Rafael Correa, Chávez defendeu o cinema estatal."Não há revolução sem cultura se não retomamos nossos valores, se não dizemos basta aos antivalores, ao veneno imperial. Começamos a resgatar esses valores, usando a mina interminável de nossa história", discursou antes da projeção, na quinta-feira à noite.Levando em conta a pouca tradição cinematográfica venezuelana, a qualidade técnica do filme surpreende. Mas a trama é desconexa e se resume a mostrar, de forma laudatória, vários episódios da rica trajetória de Miranda -ele também lutou na Revolução Francesa e na independência americana."É uma cátedra de história com pouquíssima paixão, um olhar de longe e de baixo. Miranda está no pedestal", diz Robert Gómez, editor de cultura do jornal "El Universal". Ele aposta que o filme não cativará o público venezuelano.Além de "Miranda Regressa", a Villa deve terminar nos próximos meses pelo menos outros seis longas, entre os quais "Bambi C-4", sobre o terrorista cubano Luis Posada Carriles, que vive em liberdade nos EUA apesar do pedido venezuelano de extradição.Para que a empreitada nas telas tenha êxito, o governo Chávez criou ainda a empresa distribuidora Amazonia Films e está construindo uma rede de cinemas estatais em regiões do país onde não existem salas.

sábado, 13 de outubro de 2007

Justiça Militar decide se cineasta irá depor

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

13/10/07

PM quer apurar a participação de policiais em "Tropa de Elite"; segundo corregedor, Padilha não pode ignorar convocação

O diretor do filme foi orientado por Sérgio Cabral a ignorar a convocação; segundo a PM, ele deporá como testemunha

MALU TOLEDODA SUCURSAL DO RIO

A Justiça Militar do Rio decidirá se o cineasta José Padilha, diretor do filme "Tropa de Elite", terá de depor à Corregedoria da Polícia Militar, afirmou ontem o corregedor da PM do Rio, Paulo Roberto Paúl. A corporação quer apurar a participação de policiais no filme.Segundo ele, Padilha foi chamado como testemunha porque tem dado entrevistas sobre a PM. "Ele tem o direito de fazer o filme do jeito que quer e não vai depor? É a Justiça Militar que está atuando. Isso não é brincadeira, não é ficção."José Padilha, diretor do filme, e Rodrigo Pimentel, co-roteirista e ex-comandante do Bope, também convocado, já disseram que não vão depor. Paúl não quis comentar a declaração do governador Sérgio Cabral (PMDB), que disse para Padilha "ignorar a intimação" por considerá-la "uma inibição despropositada". Ele disse que há exagero, já que civis depõem na PM todo dia.A intimação para depor na PM, recebida pelos diretores do filme "Tropa de Elite" anteontem, é questionada por advogados. Eles acreditam que Cabral tenha dito para Padilha "ignorar a intimação" porque não é atribuição da PM chamar um civil para prestar depoimento. Apesar de ser o chefe maior da instituição, o governador não tem poder de interferência em inquéritos militares.Padilha procurou a assessoria de Cabral após receber a intimação. Foi orientado a ignorá-la. O Inquérito Policial Militar foi aberto para apurar se policiais atuaram no filme e se os atores usaram armas e equipamento do Estado nas filmagens. Paúl disse que o inquérito foi aberto a partir de averiguações do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM) e a pedido do comandante do unidade, coronel Pinheiro Neto."A PM guarda alguns resquícios da ditadura. É uma ilegalidade usar isso para pressão", disse João Tancredo, advogado de Rodrigo Pimentel e de Luiz Eduardo Soares, co-autor do livro "Elite da Tropa".Quanto à ameaça de prisão caso não compareçam ao depoimento, Tancredo diz que eles não correm esse risco.