domingo, 18 de maio de 2008

Gaúcha ensaia carreira em Bollywood

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 18/05/08

Modelo Bruna Abdalah, 21, começa a chamar atenção na forte indústria cinematográfica indiana; idioma ainda é barreira

Brasileira fez uma ponta em superprodução, apresentou programa de TV e já virou alvo da imprensa de fofocas: "Tiro o telefone do gancho, não dá"

LUCAS NEVESDA

Na cobertura de um arranha-céu futurista, uma bela morena em frugais trajes vermelhos sacoleja enquanto entoa "Rehem Kare", circundada por uma dezena de dançarinas vestidas à la Liza Minnelli em "Cabaret". Depois do refrão, entra um rapper indiano cabeludo pedindo "have mercy, girl, have mercy" (tenha misericórdia, garota...).A cena é de um dos números musicais do filme "Cash" (veja digitando "bruna abdalah" + "cash" no YouTube), e a Britney Spears indiana é a gaúcha Bruna Abdalah, 21, modelo que tenta a sorte em Bollywood, a forte indústria cinematográfica daquele país. A ponta na fita policial ("Todo mundo é bandido no filme, mas não posso falar direito; nem eu assisti") é seu début na tela grande. "A letra da canção é sobre "worshipping a god" [adorar um deus]", explica, num português sem sotaque, mas, como se vê, hesitante.Antes de "Cash", ela estrelou um clipe da estrela local Shekhar Suman. No início deste ano, apresentou, num canal de TV aberta, o concurso "India's Hottest", em que, "de vestidinho curto, coladinho", buscava o casal mais bonito do país -que levou US$ 10 mil (cerca de R$ 16.500).Foi esse programa que a tornou conhecida do grande público indiano -e, por tabela, alvo preferencial da imprensa de fofocas. Já andaram até apontando-a como pivô da separação de um casal de estrelas (Salman Khan e Katrina Kaif). Além de Britney, seria ela uma Angelina Jolie indiana?"Fiquei no jornal e na televisão por duas semanas. Que adianta? Se você dá entrevista, eles não escrevem o que tu fala. Se não dá, eles escrevem do mesmo jeito! Encontrei o Salman [Khan] duas vezes. Ele me aconselhou e me deu o nome de uma agência", diz ela.Aqui no Brasil, onde passa férias, Abdalah também parece algo incomodada com o interesse da mídia por sua carreira. "Não sei o que aconteceu. Out of the blue [de repente], todo mundo começou a ligar e perguntar de "Cash". Tiro o meu telefone do gancho. Não dá."

Modelo fashion?

Antes de começar a deixar o telefone mudo, ela trabalhou, na adolescência, numa agência da Caixa Econômica Federal. "Adoro matemática, números. Sempre quis fazer economia ou comércio exterior. Pensei que trabalhar no banco iria ajudar."Em 2001, aos 15 anos, quiçá entediada com a numeralha, inscreveu-se no concurso Garota Verão de sua cidade, Guaíba. Numa das seletivas, foi "descoberta" por um olheiro da Ford Models, que logo a indicou a um agente japonês. Seguiram-se três anos de viagens por Japão, Tailândia, Malásia, Indonésia, China e Filipinas. Até que colegas a convenceram a fixar residência na Índia."Acho que sou parecida com as meninas de lá. Não sou modelo fashion, assim, sabe? Não sou muito alta, tenho mais corpão, não sou muito seca. Acho que eles não gostam muito de modelo fashion. Aí dei sorte", sugere, para explicar o sucesso.Agora, ela estuda o idioma hindi para poder assumir papéis de peso. "Já tive vários convites, mas não quero fazer dublagem. Quero falar fluente, saber me expressar. Tem um monte de gente que me chama de louca [por recusar ofertas]."Enquanto isso, ela decora fonemas para declamar em anúncios. "Acabei de gravar um da pasta de dente Colgate. Vou ser a garota Colgate 2008. Sou muito orgulhosa de falar isso: simplesmente todas as mulheres da Índia fizeram teste, e eu consegui. Eu dou mesmo para comercial, não adianta."

sábado, 17 de maio de 2008

Dramas familiares entram na competição

Fonte: Folha de São Paulo - 17/05/08

61º Festival de Cannes

Apesar da temática comum, filmes de Desplechin e Ceylan têm formatos opostos Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni atuam em "Un Conte de Noël", de Arnaud Desplechin, esperança francesa pela Palma de Ouro

SILVANA ARANTES

Dois dramas familiares, similares na densidade emocional, mas radicalmente diferentes na forma, estrearam ontem na competição pela Palma de Ouro no 61º Festival de Cannes.

O francês "Un Conte de Noël" (um conto de natal), de Arnaud Desplechin, tem na enfermidade -dois casos de câncer de medula e um de esquizofrenia- a detonadora das desavenças, mas também a ocasião da reunião da família Vuillard, cuja matriarca é interpretada por Catherine Deneuve.Já o turco "Üç Maymun" (três macacos), de Nuri Bilge Ceylan, usa o desvio e a culpa como elementos de ligação e afastamento da família -por dinheiro, o marido assume um delito que não cometeu; a mulher o trai, quando se apaixona por outro; o filho comete um crime, por vingança.Enquanto "Un Conte de Noël" -no qual a crítica francesa deposita as esperanças de que o país quebre o jejum de 21 anos sem vencer a Palma de Ouro- é palavroso e toma códigos do melodrama, "Üç Maymun", cujo diretor tem histórico de prêmios em Cannes, dispõe do silêncio e da inação para revelar os conflitos internos dos personagens.Os principais fatos do filme, como os crimes e a traição, não são mostrados. "Em primeiro lugar, gasta-se muito dinheiro para filmar realisticamente um acidente", diz Ceylan, adepto da produção artesanal, com equipe e recursos mínimos. "Mas eu realmente gosto mais de não mostrar [esses fatos], porque talvez na imaginação você crie melhor [as cenas]", acrescenta.

O diretor turco diz que compreende "a arte como um modo de exprimir as nossas incertezas". Nas vidas dos personagens de seu filme, o conflito em relação aos próprios sentimentos e atitudes são elementos cotidianos.Afetos e ódiosNo longa de Arnaud Desplechin, os afetos e ódios entre familiares não ficam represados por muito tempo. Eclodem em diálogos sinceros, como em um no qual mãe e filho declaram não amar um ao outro. "Gosto dessa cena, porque esse é um tipo de coisa que é proibido de dizer", afirma a atriz Catherine Deneuve."Muito liberador" é como a atriz Chiara Mastroianni classifica o longa. Filha de Deneuve com Marcello Mastroianni, Chiara interpreta no filme a nora de quem a sogra (Deneuve) não gosta. Ela, porém, é objeto do amor não apenas de seu marido como também de um primo dele.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Cinema em dose dupla

Fonte: Revista Isto é - Acesso em: 12/05/08

Fernando Meirelles e Walter Salles vão a Cannes, concorrem entre si e ampliam as chances de o País ganhar a Palma de Ouro

IVAN CLÁUDIO

Meirelles leva o seu globalizado Ensaio sobre a cegueira
Salles concorre com Linha de passe, tema bem brasileiro

Na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, Central do Brasil, de Walter Salles, teve como pedra no caminho A vida é bela, do italiano Roberto Benigni. Mais recentemente, a torcida pela consagração de uma produção nacional na maior premiação do cinema aumentou com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que concorreu a quatro estatuetas, entre elas a de melhor diretor. Ele perdeu para o neozelandês Peter Jackson. Na próxima edição do Festival de Cannes, que começa na quarta-feira 14, Salles e Meirelles, os dois mais bem-sucedidos cineastas brasileiros, desta vez estarão concorrendo entre si pela Palma de Ouro - o primeiro com o drama social Linha de passe, que custou pouco e reúne atores jovens e desconhecidos, o segundo com o caro e globalizado Ensaio sobre a cegueira (escolhido para abrir o evento), inteiramente falado em inglês e estrelado por grandes nomes de Hollywood, como Julianne Moore e Mark Ruffalo. Na verdade, poderia estar ocorrendo o contrário, já que Salles assina freqüentemente produções internacionais e Meirelles costuma se dedicar a projetos voltados a temas brasileiros. Como acontece poucas vezes em festivais, o Brasil joga agora em duas frentes, oferecendo um filme com cara de independente e outro com perfil de cinema de arte. Para qualquer lado que pender o gosto do júri, presidido por Sean Penn, as chances serão, no entanto, exatamente as mesmas, sobretudo no que diz respeito a sua influência: ele já declarou que aprecia tanto o trabalho de Walter Salles quanto o de Fernando Meirelles.

BEM NA ESTRÉIA
O ator Matheus Nachtergaele já trabalhou com Salles e Meirelles e segue agora o passo dos dois mestres. Seu primeiro trabalho, A festa da menina morta (à esq.), está na mostra paralela de Cannes

Dentre a obra de Meirelles, o presidente do júri gosta especialmente de Cidade de Deus. Além dessa empatia, ele conhece bem a trama de Ensaio sobre a cegueira, baseado na obra homônima de um dos maiores nomes da literatura portuguesa, o escritor português José Saramago. Trata- se de uma metáfora sobre a resistência humana em enxergar a realidade e teve muitas cenas rodadas em São Paulo. Há, aqui, uma curiosidade que o Brasil leva a Cannes no campo das locações: os dois filmes fogem da tendência atual de só se exibir o Rio de Janeiro e a sua violência urbana e se valem de regiões e ruas paulistanas como cenários. Linha de passe, co-dirigido por Daniela Thomas, é centrado, por exemplo, numa família pobre da zona leste da cidade. Um de seus personagens, Dario, é interpretado por Vinícius de Oliveira, justamente o então menino de Central do Brasil. Como já foi dito, nem com esse filme nem com Cidade de Deus o Brasil carregou o Oscar. Agora, concorrendo em dose dupla, tem muitas chances de levar a Palma.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Revel@dos pela web

Fonte: Revista Isto é - www.istoe.com.br
Acesso em: 05/05/08

A rede se tornou um poderoso instrumento para artistas se lançarem e olheiros encontrarem novos talentos

CARINA RABELO

PRECOCE Mallu Magalhães, 15 anos, estourou com apenas quatro canções no MySpace, em dezembro do ano passado. Em três meses, já recebia propostas de gravadoras e convites para shows. Foi um dos sucessos da Virada Cultural, em São Paulo, em abril

Ela só precisou de um violão para ficar famosa. Depois de colocar sua primeira música no site MySpace, composta por ela e gravada na sua própria casa em dezembro do ano passado, Mallu Magalhães se tornou uma referência no cenário nacional de rock alternativo. Em apenas três meses, a garota de 15 anos e quatro canções já estava na agenda de festivais de música independente de São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Desde então, não pára de receber ligações de gravadoras que batalham contratos de exclusividade. Na última semana de abril, a jovem consolidou seu sucesso repentino. Mallu foi uma das atrações da Virada Cultural, festival gratuito anual na capital paulista, que reuniu 3,5 milhões de pessoas neste ano. “É maravilhoso poder cantar para uma multidão a céu aberto”, diz a menina, de voz doce e atitude madura, que desde os cinco anos ouve Beatles e Led Zeppelin, tocados no violão ou assobiados pelo seu pai, um engenheiro apaixonado por música. “Meus pais me apóiam muito e entendem que às vezes preciso faltar às aulas para ensaiar”, diz Mallu, que passa cerca de seis horas por dia nas lojas à procura de CDs raros e, no resto do tempo livre, pesquisa na internet sobre artistas de canções folk.

Histórias semelhantes à de Mallu pipocam pelo Brasil. Nem em seus mais distantes sonhos a paulista Laura Neiva, 14 anos, que nunca fez aulas de teatro, imaginava receber um papel importante no filme À deriva, de Heitor Dhalia, diretor do longa O cheiro do ralo. Através de uma despretensiosa página no Orkut, a menina foi localizada pela equipe de produção do filme em setembro do ano passado e convidada para testes. “Achei uma loucura. Como alguém podia achar que eu aceitaria um convite feito pela internet?”, conta a garota. Numa coincidência do destino, uma das suas amigas conhecia um professor de teatro que reconheceu a pessoa que deixou o recado no Orkut. Três meses depois, Laura aceitou o convite. Após três dias de oficina de teatro, ela esbanjou talento e ganhou o papel de filha da atriz Débora Bloch com o ator francês Vincent Cassel. “Ela superou as nossas expectativas. Procurávamos apenas uma menina bonita, desconhecida do público. Achamos mais do que isso. Uma futura grande atriz”, garante Chico Acioly, preparador de elenco do filme.

REVELAÇÃO Laura Neiva, 14 anos, foi descoberta no Orkut pelos produtores do filme À deriva, de Heitor Dhalia. Após três dias de oficina de interpretação, a garota, que nunca estudou teatro, ganhou o papel de filha de Débora Bloch e do ator francês Vincent Cassel na produção

A indústria cultural precisa se reciclar e apresentar “caras novas” ao mercado todos os anos, o que fomenta uma rede de “olheiros” (caçadores de talentos), ávidos por novas possibilidades de investimento. São profissionais que navegam diariamente por sites, blogs, fotologs e comunidades em busca de artistas desconhecidos. “A gente está sempre de olho no que rola pela internet, e usa como critério o que é bem feito e o que pode render um retorno do público”, afirma Luiz Pimentel, gerente de conteúdo do MySpace Brasil. A internet, vista no passado como uma ameaça às gravadoras, se tornou parceira das empresas. “A rede virtual facilita a divulgação de produtos e o encontro de novos talentos, além de democratizar a comunicação com o público”, opina Marcelo Soares, diretor de novos negócios da Som Livre.

Com a rede, a resposta do mercado é rápida e pode surpreender até mesmo os mais talentosos. Fechar contratos com grandes empresas e fornecer conteúdos para sites de marcas consolidadas não estava nos planos de André Czarnobai, 28 anos, quando ele estudava jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Durante uma greve da faculdade em 1997, ele decidiu se comunicar com os amigos via e-mail através de um tipo de publicação informal de baixo custo, conhecida entre jornalistas como fanzine. Os textos agradaram tanto que, em quatro meses, André e oito colaboradores transformaram o fanzine na revista eletrônica Cardosonline, em homenagem ao apelido que o autor tinha na faculdade. Em 2001, a revista tinha cinco mil assinantes e mais de 300 colaboradores. Em 2002, o jovem inquieto descobriu o mundo dos blogs e, desde então, percebeu que as suas idéias poderiam render bons contratos.

O sucesso dos seus textos humorísticos, que mesclam ficção e realidade em narrativas literárias, levou uma editora gaúcha a propor a compilação dos contos num livro. Em 2005, foi publicada a obra Tavernas e concubinas, que levou Czarnobai a fechar parcerias com agências de publicidade no Brasil, México, na Colômbia e Argentina. Há um mês produziu um documentário para a GNT, presta “consultoria criativa” para o mercado audiovisual e já prepara um novo blog. “Sempre procurei fazer tudo por conta própria em vias alternativas, sem esperar que as coisas aconteçam”, comenta. Com tantos bons exemplos de sucesso e possibilidades no mercado, cabe aos novos artistas usar, e abusar, da internet. É de graça e funciona.

A fotografia no banco dos réus

Fonte: Revista Isto é - www.istoe.com.br
Acesso em: 05/05/08

Imagens que causaram polêmica dentro e fora dos tribunais levam a pensar sobre os limites éticos da criação

NATÁLIA RANGEL

OUSADIA O Vaticano criticou essa publicidade da Benetton, em 1992. Ela foi retirada de outdoors na Itália e na França. A grife temeu o desgaste de sua imagem

A atriz americana Brooke Shields tinha 27 anos quando a tradicional Christie’s de Nova York realizou um dos mais polêmicos leilões de sua história. O mundo estava às vésperas do ano 2000. Embora a atriz tivesse lutado na Justiça para retirar desse leilão uma foto dela que fora feita quando tinha dez anos e na qual aparece nua numa banheira e com ares de ninfeta, a sua imagem estava lá, à disposição de quem tivesse dinheiro, na verdade muito dinheiro, para arrematá-la. Foi vendida por US$ 151 mil. Esse caso, até por envolver a fama de quem envolvia, trouxe à tona a discussão sobre a tênue fronteira entre a fotografia como arte e a fotografia como pornografia, como sensacionalismo a serviço de interesses publicitários ou mero atalho arrivista seguido por alguns fotógrafos. Brooke Shields, que ficou famosa pelo filme A lagoa azul, queria de volta a imagem registrada pelo americano Garry Gross para um ensaio intitulado The Woman in a child (A mulher numa criança). Ela perdeu a briga porque os juízes da Suprema Corte dos EUA julgaram não existir apelo erótico ou invasão de intimidade no referido retrato. Essa imagem, que correu o mundo, é apenas uma entre as tantas e polêmicas fotos que estão reunidas na exposição Controvérsias, uma história legal e ética da fotografia, no Museu d’Elysée, na cidade suíça de Lausanne. A mostra se compõe de retratos históricos, alguns proibidos pela Justiça, alguns execrados pelo público, outros que serviram de prova crucial em julgamentos – criando até jurisprudência sobre o direito autoral da imagem.

MORTE Em 1985 os bombeiros não conseguiram resgatar a menina Omayra Sanchez. O fotógrafo Frank Fournier registrou durante três dias a sua terrível agonia

Há cenas desumanas o bastante para chocar o mundo e abalar governos, como o retrato que mostra oficiais americanos torturando prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque, em 2004 – a divulgação do registro anônimo pela rede CBS abalou a credibilidade do presidente dos EUA, George W. Bush. A foto, provavelmente, foi feita por um desvairado e cruel soldado americano para mostrar a superioridade de seu país. Foi parar na CBS. Nas mãos da imprensa a sua função mudou: passou a ser uma arma ética para denunciar a barbárie. Uma das fotografias que mais despertam atenção na atual exposição, no entanto, remonta a 1985. Trata-se da imagem da menina colombiana Omayra Sanchez, que ficou presa a escombros durante três dias após a erupção do vulcão Nevado del Ruiz. Morreu sem que os bombeiros conseguissem resgatá-la. A sua agonia foi registrada pelas lentes de Frank Fournier.

Às vezes condenada, às vezes absolvida, o fato é que a fotografia é colocada freqüentemente no banco dos réus – mas também, em contrapartida, levou muita gente a sentar nele. É o caso, por exemplo do consagrado pintor francês Gustave Courbet. Em 1871, ele foi preso e acusado de integrar um grupo de subversivos que jogara ao chão a estátua de Vendôme, símbolo do império francês. A única prova apresentada contra Courbet foi justamente uma foto de Bruno Braquehais que registra o momento em que curiosos observam a estátua caída – e Courbet é justamente um desses curiosos que aparecem na foto. Num outro processo judicial, nos EUA e uma década depois, a fotografia ganhou por decisão da Corte o status de obra de arte – e os fotógrafos passaram a ter direitos autorais sobre a imagem. A conquista foi resultado da ação movida por Napoleón Sarony contra uma empresa que usou numa propaganda, sem sua prévia autorização, um retrato que ele fizera do escritor irlandês Oscar Wilde.

NINFETA Brooke Shields foi fotografada por Garry Gross aos dez anos. Contra sua vontade, essa foto foi leiloada por US$ 151 mil quase duas décadas depois

Em 1992, também a publicidade protagonizou uma polêmica numa campanha criada pelo italiano Oliviero Toscani para a marca Benetton. A imagem de uma freira e de um padre se beijando na boca foi duramente criticada pelo Vaticano e acabou sendo retirada da televisão e de outdoors da França e da Itália – a própria Benetton optou por não correr o risco de um eventual desgaste de sua imagem. Ainda na galeria das obras consideradas sacrílegas pelos católicos está Piss-Christ, de Andrés Serrano, que enquadra um crucifixo mergulhado na urina do artista – na verdade, pouco há de sacrilégio. O que se vê é quanto a sua criação é de péssimo gosto e ele, alguém disposto a criar barulho apenas para se promover. Isso, é claro, sempre recai no campo da subjetividade, porque qualquer artista tem direito à liberdade de expressão. Para o curador da exposição agora em cartaz na Suíça, Daniel Girardin, o seu objetivo não é provocar e reviver antigas polêmicas, mas deixar claro que a tolerância da sociedade se transforma com o passar do tempo. A própria mostra, que levou quatro anos para ser organizada e reúne fotos de diversos países, é prova disso.

domingo, 4 de maio de 2008

Jean Rouch e Morin expandiram um gênero

Fonte: Folha de São Paulo - www.folha.uol.com.br
Acesso em: 04/05/08

COLUNISTA DA FOLHA

Jean Rouch (1917-2004) chegou ao cinema a partir da etnologia, marca evidente de alguns de seus documentários mais célebres, como "Eu, um Negro" (1958) e "Jaguar" (1967).

Mas não foi com seus filmes africanos, e sim com o parisiense "Crônica de um Verão" (1960), que ele solidificou as bases do chamado "cinema verdade", nome infeliz para uma estimulante expansão dos limites do documentário.

Co-dirigido pelo sociólogo Edgar Morin, "Crônica" realiza um triplo movimento. Primeiro, colhe, no verão de 1960 em Paris, depoimentos de pessoas comuns sobre suas vidas, suas aspirações, suas idéias de felicidade. Em seguida, coloca em contato alguns desses personagens, fazendo-os entrevistar-se mutuamente. Por fim, Rouch e Morin exibem o material filmado para os próprios entrevistados, ensejando uma calorosa discussão sobre o documentário e os temas abordados.

O racismo, a imigração, as dificuldades de emprego, os choques culturais, as transformações morais, tudo isso vem à tona de modo vivo, em ato. Os próprios diretores aparecem em cena, conversando com seus entrevistados e sendo questionados por eles. Suas idéias iniciais vão se transformando ao longo das filmagens.

Uma das cenas mais surpreendentes é justamente uma conversa entre Rouch e Morin sobre os rumos que o filme vinha tomando. Tudo tem muita leveza e frescor.

Não é difícil perceber, retrospectivamente, a influência exercida por Rouch e seu "metadocumentário" sobre cineastas posteriores, como Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Evaldo Mocarzel. Em todos eles, a despeito das enormes diferenças que os separam, há essa disposição de "ver o outro" e deixar que ele se expresse e se construa diante da câmera.

Depois de Rouch, que soube tirar proveito dos equipamentos mais ágeis de captação de som e imagem surgidos nos anos 50, o documentário perdeu definitivamente a inocência e aprofundou seu duplo caráter de investigação e de arte. (JOSÉ GERALDO COUTO)

CRÔNICA DE UM VERÃO
Direção: Jean Rouch
Distribuição: VideoFilmes
Quanto: R$ 64,90 (em média)
Avaliação: ótimo

Autor usa cinema para explicar novelas

Fonte: Folha de São Paulo - http://www.folha.uol.com.br/
Acesso em: 04/05/08

CÁSSIO STARLING CARLOS
CRÍTICO DA FOLHA

O que cinema e novela têm em comum, além de narrar histórias em linguagem audiovisual? Responder a questão é o esforço de José Roberto Sadek em "Telenovela - Um Olhar do Cinema".

Com origem em tese de doutorado defendida na USP e texto ligeiramente adaptado para publicação, o livro guarda interesse para quem pesquisa ou trabalha com ficções de TV e para o público que consome com voracidade as narrativas que se impuseram há décadas com a força da "vida como ela é".

Uma das vantagens do trabalho de Sadek é priorizar o exame das estruturas, em vez de se ater aos simbolismos, aos significados ou ao estudo dos conteúdos, como os poucos bons estudos até agora já publicados.

Com esse objetivo, o autor recorre ao paradigma do que se convencionou denominar "cinema clássico", um modelo de contar histórias tornado predominante graças à sua adoção em escala industrial, o que implica ser inteligível pelo maior número e diversidade de espectadores. Como o cinema industrial, a TV obedece a princípios que se norteiam pela lógica de mercado e, portanto, buscou na matriz clássica as condições para o consumo de suas ficções na maior escala possível.

A trama linear, a estrutura dramática que toma por base relações de causa e efeito e a distinção nítida de protagonistas e antagonistas são algumas das características do "cinema clássico". A novela parte desses pressupostos, mas os altera por vezes radicalmente, por um conjunto de fatores: a forma seriada que se estende por meses, a duração irregular dos capítulos, a flutuação de ênfase e de audiência nos focos dramáticos, a intromissão de marketing que interrompe seu fluxo.

Ora, como demonstra o autor, tais alterações acabam configurando para a novela uma linguagem de teor e articulações específicas. Sua astúcia é investigar a novela com o olhar do cinema sem pretender tingi-la com aspectos supostamente mais nobres deste modo de expressão. Nem, ao contrário, elevar a novela a um patamar de popularidade que a imponha como modelo para o cinema copiar no esforço da sedução.

TELENOVELA - UM OLHAR DO CINEMA
Autor: José Roberto Sadek
Editora: Summus Editorial
Quanto: R$ 31 (152 págs.)
Avaliação: bom