segunda-feira, 31 de março de 2008

Cinema nacional sem tiros

Filmes como Chega de saudade e Falsa loura provam que a produção brasileira não se limita às histórias sobre a violência urbana

IVAN CLAUDIO

PÉS-DE-VALSA O filme Chega de saudade retrata o universo de freqüentadores de bailes, como os personagens de Maria Flor e Stepan Nercessian

Um lucrativo segmento ganhou força na recente produção de filmes nacionais: o que retrata a violência urbana. De Cidade de Deus a Tropa de elite, passando obviamente por Carandiru, o que se tem é uma sucessão de tiros, sangue e tortura – e também de rentáveis bilheterias.

Intelectuais costumam debater se esse tipo de obra ajuda a conscientizar a sociedade sobre a urgência de políticas públicas nesse setor ou se apenas funciona como gigolô da marginalidade para a obtenção de muito lucro. A discussão é tola: muita gente gosta de ver cenas que envolvem inocentes sendo queimados vivos por traficantes e traficantes sendo sufocados com saco plástico pela polícia – e isso não só nas telas, uma vez que dados recentes apontam que cerca de 40% dos brasileiros não condenam a tortura como método de “arrancar” informação de bandido.
É nessa toada, por exemplo, que Bruno Barreto está finalizando 174 – a infância roubada (sobre o seqüestrador do ônibus 174, Sandro Nascimento) e Marisa Leão, produtora de Meu nome não é Johnny (outro sucesso com tráfico como tema central) negocia a compra dos direitos autorais do livro Abusado, de Caco Barcellos (sobre o traficante Marcinho VP). Há, no entanto, quem esteja virando a câmera para outra direção. Na contramão desse cinema de tiros e “canos” fumegantes, uma produção diversificada (e bem saudável para os olhos e a mente) tenta ganhar espaço. O exemplo mais recente é o filme Chega de saudade, novo trabalho de Laís Bodansky, que estréia em todo o Brasil no feriado da sexta-feira 21. Inteiramente passado num salão de danças em São Paulo, esse filme não tem polícia nem marginal. Mostra apenas uma pequena briga, inocente até, fruto de uma crise de ciúme de um de seus personagens.

Eleito melhor filme pelo júri popular do Festival de Brasília (ganhou também prêmio de direção e roteiro pelo júri oficial), Chega de saudade mostra que as pessoas não querem ver apenas histórias que reproduzem o seu pânico do diaa- dia. E há outros títulos que também estão chegando por esse caminho – Falsa loura, de Carlos Reichenbach (estréia no mês que vem), aborda os desencontros amorosos de uma operária, e Os desafinados, de Walter Lima Jr. (previsto para junho), mostra um grupo de amigos, todos músicos, à época do surgimento da bossa nova. A diretora de Chega de saudade, Laís Bodansky, acredita que o crescimento dessa produção, voltada para temáticas menos apelativas, deve-se a uma maturidade no processo cinematográfico nacional. “Num primeiro momento, os temas mais fortes e emergenciais ganharam atenção. Acho que hoje, com a reconquista do público, existe uma maior receptividade para outros tipos de filme”, diz a cineasta.

A própria trajetória de Laís confirma essa transformação do público. Em plena crise da produção nacional, ela dirigiu um título que se enquadrava nas produções de “tema emergencial”: Bicho de sete cabeças (2001), com Rodrigo Santoro, uma contundente crítica ao sistema manicomial. Ela teve de amargar mais sete anos para chegar de novo às telas. “Na verdade, a minha vontade de fazer um filme sobre o universo dos clubes de dança é anterior ao Bicho”, diz Laís, que costumava freqüentar esse tipo de baile com seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi. “Não há como ir a esses lugares e não observar as pessoas. Já nessa época eu e o Luiz conversávamos sobre o potencial de um filme enfocando o assunto, mas não estava na hora.” Não era apenas o enredo, centrado em personagens em sua maioria acima dos 50 anos, que não se mostrava propício. Laís se sentia ainda verde para lidar com uma trama tão complexa.

Não se deve deduzir, a partir disso, que o enredo de Chega de saudade seja fácil, simples ou rocambolesco. Nada disso. A sua estrutura é intrincada. São diversos personagens interagindo e a câmera de Walter Carvalho tem de saltar de mesa em mesa, de casal em casal, passando pelo garçom, pelo técnico de som e pelos músicos da banda (Elza Soares e Marku Ribas à frente). Existem, a exemplo do que ocorre em todo bom filme, aqueles tipos catalisadores de atenção como o técnico de som vivido por Paulo Vilhena, atormentado pelo assédio do coroa sedutor, interpretado por Stepan Nercessian, sobre a sua namorada (Maria Flor) – é esse coroa quem deixa na solidão da mesa a amante de poucas palavras (personagem feita por Cassia Kiss). Outro casal de destaque é o par pé-de-valsa interpretado por Tônia Carrero e Leonardo Villar. “Trata-se de um típico filme de personagens, sobre como eles se transformam numa noite”, diz Laís. “Essa passagem é construída ponto por ponto, mostrando um olhar, uma lágrima que cai.”

NOVOS FILMES, NOVOS ENREDOS

OS DESAFINADOS
Cláudia Abreu e Rodrigo Santoro fazem o papel de dois músicos dos anos 60 no filme de Walter Lima Jr., programado para chegar às telas em junho

FALSA LOURA
Rosanne Mulholland é uma operária enganada pelos namorados no filme de Carlos Reichenbach, que estréia no mês que vêm

ESTÔMAGO
João Miguel faz uma ótima interpretação de um cozinheiro. A estréia do filme está prevista para abril

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O guia da TV digital

A televisão nacional entra numa nova era, a das transmissões em formato digital. Nesta reportagem, tudo o que é preciso saber para tirar melhor proveito da tecnologia que aumenta as opções de lazer dos brasileiros

Roberta de Abreu Lima

O Brasil entra na era da TV aberta digital neste domingo, 2. A mudança do sistema de transmissão analógico para o digital representa uma revolução comparável à passagem da televisão em preto-e-branco para o sistema em cores, quase quarenta anos atrás. O novo sistema amplia as possibilidades de lazer dos brasileiros, traz ganhos excepcionais na qualidade de imagem e som e abre a possibilidade do uso interativo da televisão. Para aproveitar essas vantagens, é preciso dispor, no mínimo, de um televisor de alta definição e de um conversor de sinal – e tal equipamento não sai barato. Isso não significa que quem tem um veterano televisor de tubo ficará, a partir de domingo, sem ver a novela preferida ou o jogo do time do coração. A transição para o novo sistema só terminará em 2016, quando o sinal digital terá substituído totalmente o analógico. Por enquanto, as transmissões digitais estarão restritas a parte da programação das emissoras. Na TV paga, é bom lembrar, nada muda de imediato. Este guia da TV digital foi preparado com duas finalidades principais. A primeira é tirar dúvidas sobre o funcionamento do novo sistema. A segunda, dar dicas para tirar o melhor proveito da transmissão em alta definição.

O sinal digital deixará a imagem e o som melhores em qualquer aparelho de televisão?
Sim. Nos televisores convencionais, de tubo, as imagens ficarão semelhantes às de um DVD. Desaparecerão os chuviscos e os fantasmas, aquelas silhuetas que aparecem em volta dos objetos que se movem na tela. O som também terá menos chiados. Nas telas de LCD e de plasma, as melhorias serão mais marcantes. Se esses aparelhos forem compatíveis com a alta definição, identificados pela sigla HDTV (High Definition Television), a imagem ficará sete vezes mais nítida.

É preciso comprar um televisor novo para receber o sinal digital?
Não. Para captar o sinal será preciso comprar um conversor, ou set-top box. O aparelho recebe o sinal digital e o repassa para o televisor. É parecido com os decodificadores das TVs por assinatura.

É recomendável comprar o conversor agora?
Os aparelhos que estão à venda agora custam o preço de uma televisão e oferecem poucos recursos. O preço deve cair à medida que mais pessoas decidirem pela compra.

Quem adquirir um conversor já poderá fazer compras pela televisão?
Os conversores que começaram a ser vendidos não estão preparados para isso. Esses aparelhos precisam ter um software para viabilizar a tão prometida interatividade.
Quem tem TV por assinatura precisa comprar um conversor?
Sim. Para captar o sinal da TV digital, todos precisarão de um conversor específico para esse sistema. Embora algumas empresas anunciem pacotes com sinal digital, o padrão é diferente do da TV aberta e a qualidade não chega aos mesmos níveis do sinal digital.

Então os assinantes de TV paga terão dois conversores, um para a TV por assinatura e outro para a TV digital?
A princípio, sim. Mas é provável que os fabricantes lancem conversores capazes de sintonizar tanto a TV aberta digital quanto os canais a cabo ou por satélite.

Quem tem um televisor de alta definição pode comprar qualquer conversor?
Para esse tipo de equipamento é preciso ter um conversor com a conexão HDMI, que transmite em um só cabo os sinais digitais de vídeo e de áudio. O preço dele é um pouco mais alto.
TV digital é o mesmo que TV de alta definição?Não. Uma televisão tradicional, de tubo, com um conversor, não exibe imagens em alta definição. Para que isso ocorra é preciso ter um aparelho compatível com alta definição. Muitos fabricantes anunciaram que lançarão modelos HDTV com conversores embutidos.

Por que o televisor de alta definição é melhor?
É a tecnologia que apresenta a imagem mais próxima à captada pela visão humana. As texturas e os contornos ficam mais definidos e é possível ver detalhes como rugas, manchas e até o suor no rosto das pessoas.

Existe um tamanho de tela ideal para a alta definição?
Modelos com mais de 38 polegadas aproveitam melhor o sinal digital.
É melhor esperar para comprar um televisor de alta definição?Para quem quiser um preço melhor, sim. Alguns modelos tiveram o preço reduzido em 70% desde 2003. Com a ampliação das transmissões digitais e o aumento da procura, o preço deve cair mais. Outro bom motivo para esperar é o fato de que as emissoras só vão transmitir por enquanto parte da programação em alta resolução.

Os aparelhos de DVD vão funcionar normalmente com os televisores de alta definição?
Sim. Porém, quem tiver um televisor de alta definição precisará de um HD-DVD ou de um Blu-ray se quiser ver as imagens também em alta definição.

Os home theaters funcionarão melhor com a TV digital?
Sim, e com o som muito melhor. No sistema analógico, o som transmitido é do tipo mono ou estéreo – para no máximo duas saídas de áudio. No sistema digital, a emissora poderá transmitir programas com som do tipo surround, que funciona em seis saídas – o caso dos home theaters.
É preciso comprar uma antena?
O sinal digital é captado por uma antena do tipo UHF, que pode ser interna ou externa.

A captação do sinal digital será sempre perfeita?
Da mesma maneira que ocorre com o sinal dos celulares, o da TV digital poderá não alcançar algumas localidades. Contudo, em todos os lugares onde o sinal for captado a transmissão será livre de defeitos.

O sinal digital será captado por televisores portáteis?
Sim. A imagem poderá chegar a televisores pequenos e a equipamentos do tamanho de um iPod. "Os televisores portáteis não fizeram sucesso no Brasil porque a imagem ficava muito ruim quando a pessoa estava em movimento", diz Roberto Barbieri, diretor técnico da Semp Toshiba. "Com a transmissão digital, a moda deve pegar."

Será possível ver TV digital em notebooks?
Sim. Já existem dispositivos que, quando plugados na entrada USB, funcionam como antenas. Eles são vendidos com um software que precisa ser instalado.

A TV digital começa em São Paulo neste mês. Quando irá para outros estados?
Na cidade do Rio de Janeiro, a previsão é que a transmissão digital comece no primeiro semestre de 2008. Até dezembro de 2009, todas as capitais terão canais digitais. Em 2013, a tecnologia já deverá ter chegado a todos os municípios.

Quais programas serão transmitidos em alta definição?
De início, as emissoras prometeram apenas novelas, filmes e jogos de futebol no novo formato. A novela Duas Caras, da Globo, já é filmada em equipamentos de alta definição. Gradualmente, toda a grade de programação incorporará a nova tecnologia. O tempo necessário para a migração completa depende das emissoras.

Por quanto tempo será possível adiar a compra do conversor?
Até 29 de junho de 2016. Enquanto isso, os sinais analógico e digital serão transmitidos simultaneamente pelas emissoras. Depois, a transmissão analógica será interrompida. Mas o prazo poderá ser adiado, como ocorreu em outros países.

Quando a TV digital será transmitida para celulares?
A partir deste mês, as emissoras poderão transmitir seus programas para celulares em São Paulo. Nas outras cidades, o sinal chegará simultaneamente ao início da transmissão digital. Para assistir à TV, porém, é preciso ter um telefone especial que ainda não está à venda.

Haverá mais canais?
O sinal digital permite que a mesma freqüência de um canal analógico seja usada para transmitir até oito canais. A TV Cultura de São Paulo, que é pública, já anunciou que vai transmitir mais canais.

A nova tecnologia vai mudar a forma como os programas são feitos?
Sim. "A maior definição faz com que os detalhes fiquem sete vezes mais perceptíveis", diz Fernando Bittencourt, diretor da Central Globo de Engenharia. Isso significa que imperfeições no cenário e no rosto das atrizes, que passam despercebidas na TV analógica, ficarão evidentes em alta definição.

Quais serão os primeiros recursos interativos?
Possivelmente serão os guias de programação, semelhantes aos que existem na TV por assinatura, informando o horário de cada programa nos diversos canais.

Vai ser possível acessar a conta bancária pela televisão?
Sim. Em teoria, a televisão poderá oferecer serviços hoje disponíveis na internet. É o caso do T-bank, programa desenvolvido para bancos, que permite acessar o extrato e realizar transferências e pagamentos via televisão. O celular também pode se conectar com o conversor sem o uso de fios e ser usado para digitar o número da conta.

Será possível controlar o que as crianças vêem?
Sim. Os pais poderão programar o conversor para bloquear a exibição de programas ou filmes impróprios para menores, tendo como parâmetro a classificação indicativa. O recurso, comum nos Estados Unidos, precisa vir instalado no aparelho.

Haverá serviços públicos especiais para TV digital?
Os especialistas afirmam que, do ponto de vista tecnológico, nada impede serviços públicos interativos. A Receita Federal poderia, por exemplo, receber declarações do imposto de renda pela televisão.

Os programas serão transmitidos em outros idiomas?
Há viabilidade técnica, mas a transmissão dependerá das emissoras.

O telespectador poderá participar de votações via televisão?
Sim, mas não agora. Ainda deve demorar anos até ele poder votar nos participantes do Big Brother sem usar o telefone.

Será possível gravar em casa os programas em alta resolução?
Trata-se de uma decisão delicada, que deve ser tomada pelo governo, já que a possibilidade de copiar conteúdos pode incentivar a pirataria. Uma possibilidade é que seja permitido copiar um filme ou programa apenas uma vez, mas não transferir o arquivo para outro aparelho.

Será possível programar o televisor para pular os comerciais durante a gravação?
Essa possibilidade depende da decisão que será tomada com relação à gravação. Nos Estados Unidos, já há gravadores digitais de vídeo com esse recurso, o que causa pânico nos publicitários.

A transmissão digital vai deixar os jogos mais divertidos?
Sim. Já estão sendo desenvolvidos conversores com games embutidos. O certo é que os games em 3D ficam ainda melhores em televisores de alta definição.

O que virá depois da TV de alta definição?
A rede japonesa de televisão NHK criou a Ultra Alta Definição (U-HDTV). Nesse sistema, as imagens são formadas por 32 milhões de pixels (a alta definição tem 2 milhões de pixels). Com esse poder, a U-HDTV possibilita que imagens de alta qualidade sejam exibidas em telas gigantes. O som tem 24 saídas de áudio, contra apenas seis dos atuais home theaters.

Sem ele não dá
O conversor é a peça-chave da TV digital. Mas o preço está além do prometido

Para a grande maioria dos brasileiros, entrar no mundo da TV digital vai custar o preço de uma nova televisão. Os conversores digitais, que começaram a chegar às prateleiras na última semana, custam entre 369 e 1 100 reais, valor bem acima dos 100 dólares prometidos pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa. Esses aparelhos são indispensáveis para captar o novo sinal e serão obrigatórios para os que não têm televisores com conversor embutido, os quais custam a partir de 8 000 reais. A variação de preço depende do que o equipamento oferece. Os mais baratos já trazem benefícios. Deixam a imagem dos canais abertos com a mesma qualidade da de um filme de DVD. O som fica limpo, sem chiados, semelhante ao de um CD.

DigiTV, da Positivo.499 reais
Os conversores mais baratos são recomendados para quem tem as TVs mais simples, de tubo. Deixam a imagem dos canais com qualidade de DVD

DTR 1007, da Philips. 1 099 reais
Quem comprou televisão de alta definição terá de desembolsar mais no conversor. O aparelho vem com entrada USB, o que permite ver fotos, vídeos e ouvir músicas gravadas em um pen-drive
Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br Acesso em: 03/12/07

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O éden sem classes

Lady Chatterley, uma bela adaptação do romance de D.H. Lawrence, resgata uma heroína libertária

Isabela Boscov

Escrito e reescrito pelo inglês D.H. Lawrence (1885-1930) nos últimos anos de vida, numa espécie de febre contra os males de seu tempo, o romance O Amante de Lady Chatterley foi um dos maiores escândalos da história da literatura, comparável ao criado por Gustave Flaubert no século XIX com Madame Bovary. Apenas em 1960, mais de três décadas após sua publicação, ganhou uma versão sem cortes na Inglaterra – onde continuou a ser tachado de pornográfico, doentio ou imoral. A protagonista, a jovem Constance Chatterley, mora com o marido, Clifford, numa propriedade cuja riqueza é mantida pelas minas de carvão adjacentes. Clifford voltou paraplégico da I Guerra, e o contato físico entre ele e a mulher se resume aos cuidados que ela lhe dispensa (e há indícios de que mesmo antes esse contato não era lá grande coisa). Constance está fenecendo, assim como esse mundo de distinções sociais e riqueza ociosa à volta dela. A certa altura, porém, ela começa um caso com Oliver Parkin, o guarda-caça da propriedade, e desabrocha. Lawrence confronta um punhado de tabus: o veterano de guerra impotente, a insatisfação sexual feminina, o adultério – e entre classes sociais diferentes –, as muitas cenas explícitas de sexo e a linguagem franca. Nada disso, porém, poderia ser considerado subversivo nos dias de hoje, e a inteligência com que a diretora Pascale Ferran encontra outro cerne no romance é o trunfo de Lady Chatterley (França/Inglaterra, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país.

O centro do filme, baseado em John Thomas and Lady Jane, a segunda e menos verbosa versão escrita por Law-rence, é o erotismo. Não apenas o do despertar sexual de Constance e Oliver (Marina Hands e Jean-Louis Coul-loc’h), que criam na floresta onde se encontram um éden sem classes: quanto mais a protagonista estreita sua relação com a natureza e com seu próprio desejo, mais essa sensualidade adquire um efeito contagiante. A diretora fotografa de forma inspirada esse lento florescimento, sublinhando os sons da natureza, a mudança das estações e fazendo com que até a fisionomia de Constance pareça cada vez mais limpa e aberta. Ler Lawrence hoje pode ser mais uma tarefa do que um prazer. Mas Lady Chatterley recupera o achado verdadeiramente inovador e transgressivo do autor – a heroína que, em vez de ser punida pelo adultério, como a pobre Emma Bovary, dá as costas a toda convenção e insiste no júbilo que sua paixão lhe proporciona.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

A metamorfose do mal

No magistral A Vida dos Outros, um espião da Alemanha Oriental descobre a beleza

Isabela Boscov

Sentado à frente da máquina de escrever, com fones de ouvido que filtram a conversa vinda do andar de baixo, Gerd Wiesler, cinqüentão, espião zeloso da Stasi, a horrenda polícia secreta da Alemanha Oriental, é o rosto de um estado que se transformou inteiro numa máquina de vigiar e corromper. Um rosto cinzento que, muito apropriadamente, não tem expressão nem inflexão – de um homem cuja existência ninguém registra, mas que vive de registrar a existência alheia. No início do magnífico A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, Wiesler dá a um grupo de futuros espiões aulas sobre técnicas científicas de interrogatório; na cena seguinte, na platéia de um teatro, reage não com a objetividade que prega, mas por instinto. A questão é que espécie de instinto, se profissional ou pessoal. Wiesler olha a figura de Georg Dreyman (Sebastian Koch), bonito, autoconfiante e o único dramaturgo leal ao Partido que também é lido no Ocidente, e se convence de que ninguém pode ser tão perfeito assim. Ou talvez Wiesler tenha se perturbado com o beijo que flagrou, nos bastidores, entre Georg e sua atriz, a bela Christa-Maria (Martina Gedeck). Sejam quais forem seus motivos, no dia seguinte Georg terá deixado de ser o único artista do país livre da vigilância estatal. Wiesler entra em seu apartamento durante sua ausência, esconde microfones por toda parte e, do andar de cima, se transformará no vírus que vai infectar a intimidade de Georg e Christa. No meio do caminho, porém, algo acontece: o espião ouve, em vez de uma conspiração, uma música que o emociona; e, principalmente, escuta nas pequenas interações do casal algo que não conhece, mas que reconhece de imediato como precioso – amor, alegria, atração, beleza, calor. Para sua surpresa e também para seu imenso risco pessoal, ele se reconfigura então de delator em protetor.

Ganhador do Oscar de produção estrangeira deste ano, A Vida dos Outros se passa em 1984, cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, quando a Stasi tinha algo como 100.000 agentes a seu serviço, além de uns 170.000 informantes. Mais metódica e paranóica ainda que a KGB russa, a organização mantinha registros de cada uma das máquinas de escrever do país – o que tornava impossível escrever um texto anônimo – e preservava até amostras do cheiro de seus suspeitos, caso fosse necessário procurá-los com cães. A australiana Anna Funder, autora do premiado livro Stasiland, objetou com veemência ao filme: segundo ela, não há, em todos os registros da Stasi, um único indício de que alguma vez um espião tenha protegido seus vigiados. Essa licença poética, porém, é a única que o diretor estreante Florian Henckel von Donnersmarck toma com a história. Em um roteiro primoroso, ele combina os fatos da vida na Alemanha comunista à trajetória de seus personagens de forma indivisível. Cada detalhe factual corresponde a um ponto dramático do enredo. No cinema recente, de qualquer nacionalidade, é difícil pensar num outro filme que atinja essa fusão entre o ficcional e o histórico de forma tão completa; e, no cinema alemão em particular, esse é um exemplar único na sua recusa em romantizar ou relativizar a crueldade que prevalecia do lado de lá do Muro, como o fazia Adeus, Lênin!. Aqui, a supressão do íntimo e do pessoal é absoluta – um pesadelo orwelliano dentro do qual gerações tiveram de viver, dia após dia.

Se A Vida dos Outros é verdadeiramente superlativo, porém, a razão está em Ulrich Mühe, que foi um dos grandes nomes do teatro alemão-oriental, esteve ele próprio sob vigilância da Stasi e submeteu o diretor a duas sabatinas antes de se confiar a ele. Mühe constrói o impassível Wiesler sem nenhum dos recursos práticos de um ator – olhares, gestos, tons de voz. Mais do que encarnar o personagem e sua metamorfose, ele os irradia para a platéia. E, com sua frase final – um simples "É para mim" –, ele demole até a última justificativa possível para a existência de algo como a Alemanha Oriental. Mühe morreu em julho passado, aos 54 anos, de câncer do estômago. Deixou uma carreira não mais do que breve no cinema. Mas, nem que fosse feita unicamente deste filme, ela já seria colossal.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

Épico ou cômico?

Com Beowulf, Robert Zemeckis fez uma piada ruim – e interminável

Isabela Boscov

Está batendo na porta errada quem pensa encontrar em A Lenda de Beowulf (Beowulf, Estados Unidos, 2007) qualquer coisa que explique ou justifique por que esse poema épico, uma das peças fundadoras da língua e da literatura inglesas, resistiu aos últimos 1.500 anos. Em comum com a saga do guerreiro que livra um reino escandinavo de monstros como o medonho Grendel e um dragão, o filme que estréia nesta sexta-feira no país tem os nomes dos personagens e, vá lá, uma ou outra situação. Umas poucas coincidências, enfim, complementadas por quantidades imoderadas de tolice, chatice e humor involuntário. Como já fizera em O Expresso Polar, o diretor Robert Zemeckis se vale aqui da performance capture, técnica que costuma ser usada tão-somente como auxiliar na feitura de um filme, e que só ele entende como sua principal razão de ser.

Em linhas gerais, o que a performance capture faz é pegar atores como Anthony Hopkins, Robin Wright-Penn e John Malkovich, vesti-los em macacões cheios de sensores para que as coordenadas de seus movimentos e expressões sejam transmitidas ao computador, e então transformá-los em desenho animado – processo ao fim do qual todos eles ficam mais esquisitos e canastrões, com cara de algo que sobrou de Shrek. O inglês Ray Winstone, que é um grande ator mas tem uma bela barriga de cerveja, ilustra o máximo de sucesso que Zemeckis conseguiu atingir: no papel de Beowulf, ele aparece malhadésimo (o melhor momento é a cara de ai-jesus que a rainha faz quando ele deixa cair a túnica), mas drenado de qualquer talento – uma espécie de Patrick Swayze viking. Já Angelina Jolie, como a bruxa que seduz os guerreiros, demonstra o que acontece quando se tenta retocar o irretocável.

Como agravante, A Lenda de Beowulf foi feito para ser exibido em 3D nas salas que dispõem do sistema. Toda a energia que poderia ter sido empregada na confecção do roteiro – algum roteiro – foi despendida em bolar situações em que objetos e pessoas são arremessados perpendicularmente à tela. Some-se a isso a apelação que Zemeckis confunde com sexo e violência, mais uma variedade extensa de sotaques bizarros, pretensamente arcaicos, e o que se tem não é mais uma epopéia. É uma piada, ruim e interminável.

Fonte: Revista Veja - www.veja.com.br - Acesso em: 26/11/07

Diretor de "Tropa de Elite" é tema de reportagem no "NYT"

DA REPORTAGEM LOCAL

O cineasta José Padilha, diretor do filme "Tropa de Elite", foi tema de longa reportagem na edição de sábado do jornal "The New York Times". Escrito pelo correspondente Alexei Barrionuevo, o texto foi publicado na seção fixa de perfis do diário.

Sob o título "Um cineasta e um desafiador da consciência do Brasil", a reportagem narra a trajetória de Padilha no cinema, a partir do documentário "Os Carvoeiros", de 1999, até o debate em torno da atuação da polícia suscitado por "Tropa de Elite".

O filme, que estréia nos EUA no dia 25 de janeiro, já havia sido tema de reportagem no "New York Times". Em 14 de outubro, dois dias depois da estréia no Brasil, o jornal publicou matéria sobre o longa, tratando inclusive da pirataria do filme."

Eu não sei o que isso significa, mas nunca esperei criar este grande fenômeno social", afirmou Padilha na reportagem de anteontem.O diretor disse ainda que o filme foi "grosseiramente mal-entendido por alguns, especialmente no Brasil".

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - www.folha.uol.com.br - Acesso em: 26/11/07

Filme de Cao Hamburguer leva prêmio em Huelva

"O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", longa que representa o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro, recebeu o prêmio especial do júri no Festival de Cinema Ibero-Americano de Huelva, na Espanha. O grande vencedor da 33ª edição foi "Luz Silenciosa" (México), de Carlos Reygadas. Leonardo Medeiros foi eleito o melhor ator por "Não por Acaso".

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - www.folha.uol.com.br - Acesso em: 26/11/07