segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Lelouch e a arte que simplifica o complicado

Diretor francês, homenageado da Mostra, fala de vida, cinema, atores e de seu novo filme, o ótimo Crimes de Autor

Luiz Carlos Merten

Em 47 anos de carreira, Claude Lelouch realizou 41 filmes, praticamente um por ano. O primeiro, Le Propre de l'Homme, é de 1966, mas foi com o sexto, em 1966, que ele recebeu dois dos mais cobiçados prêmios do mundo (os mais?) - a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro da Academia de Hollywood, outorgados a Um Homem, Uma Mulher. Desde então, Lelouch virou um grande nome do cinema mundial, mas não uma unanimidade. A crítica francesa colou-lhe um rótulo - o de 'industrial do amadorismo'. Cahiers du Cinéma despreza seu cinema. Ele retribui - diz que a revista e a nouvelle vague (com as exceções de François Truffaut e Jacques Demy) fizeram muito mal ao cinema francês.

Mostra Lelouch é um sujeito muito simpático, que está completando 70 anos em 2007. Na sexta, ele concedeu a entrevista que você vai ler, no bar do Hotel Crowne Plaza. No sábado pela manhã, foi passear na Av. Paulista. À tarde, após a sessão de seu novo filme, Roman de Gare - que recebeu o título de Crimes de Autor -, participou de um bate-papo na Faap. Havia muita gente para ver (e ouvir) Lelouch, mas havia ainda mais gente à espera do filme de Gael García Bernal, que também discutiu sua estréia na direção, com Déficit, exibido horas mais tarde.

Crimes de Autor é um 'polar', como dizem os franceses - um policial. Mas talvez não se deva defini-lo somente assim, porque tem momentos de romance, de comédia, de musical. Lelouch adora a mélange (mistura) de gêneros. Deve ser um de seus problemas com os críticos, ele acha - 'Eles não gostam.' Crimes de Autor começa como um flash-back. Fanny Ardant é esta famosa autora de best-sellers policiais que está sendo acusada de haver matado seu 'ghost writer', o cara que realmente escrevia seus livros. A trama dá muitas reviravoltas, é cheia de pistas falsas. 'Foi um dos roteiros mais trabalhosos que escrevi', admite o diretor. Crimes de Autor começou a ser gestado há 15 anos, quando Lelouch teve a primeira idéia. Ele a maturou durante muito tempo. A feitura do filme, propriamente dita, foi rápida - um ano para tudo, roteiro (o período mais longo), realização e montagem.

Quase 50 anos de carreira, 41 filmes, muitos prêmios. O que Lelouch aprendeu sobre a vida neste período? 'Aprendi que a vida é feita de alegrias e tristezas, de bons e maus momentos, e que se deve simplificar as coisas complicadas.' Ele está falando da vida, mas está dando uma definição de cinema - o seu cinema. 'Cada um desses 41 filmes me dá a impressão de haver sido o primeiro. Fazer um filme é como ir à escola. Aprendo sempre. Sou o contrário de um intelectual, que ama complicar as coisas simples.' Desde que fez Um Homem, Uma Mulher, ele acredita em milagres. 'O próprio filme foi um milagre. Fiz sem dinheiro, em condições precárias, apoiado no entusiasmo da equipe. Além dos prêmios que recebeu, Um Homem, Uma Mulher estourou em todo o mundo.' Quando terminaram a filmagem do original, os atores Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e ele combinaram - se estivessem vivos dali a 20 anos, voltariam aos personagens, para saber o que havia ocorrido com eles.' Em 1986, fizeram Um Homem, Uma Mulher - 20 Anos Depois, mas a repercussão, desta vez, foi mínima.

O amor é o tema dominante da obra de Claude Chabrol, mas ele fez filmes como Retratos da Vida, que cobrem décadas da vida de seus personagens, atravessando a guerra. 'Foi um filme que fiz inspirado nas histórias que meus pais me contavam sobre a Resistência. Em todos os meus filmes, falo sempre de pessoas que conheci, ou com quem cruzei', confessa. Por que o 'polar'? 'Porque é um gênero muito rico e popular. Porque a idéia do crime perfeito é atraente. Quem nunca pensou em matar alguém?' Sobre crime perfeito, ele acrescenta - 'O maior serial killer de todos é Deus, que vive cometendo o crime perfeito.'

A partir do chabadá romântico de Um Homem, Uma Mulher, a música é sempre importante no cinema de Lelouch. 'Trato-a como se fosse uma personagem', ele explica. Quase sempre a música é composta antes e ele já trabalha as cenas com os atores tendo a música de fundo. Por que Gilbert Bécaud em Crimes de Autor? 'Porque é um dos grandes da música francesa e, infelizmente, está um pouco esquecido.' Crimes de Autor repete, no fim, até certo, a mais bela cena do cinema de Lelouch. No desfecho de Viver por Viver, de 1967, Annie Girardot espera a chegada de um avião. Ela não sabe se Yves Montand virá nele. O que se passa no rosto da atriz é algo notável. Annie, a Nádia de Rocco e Seus Irmãos, é uma grande atriz, mas Lelouch fez sua parte - ele nunca lhe disse se Montand desceria ou não daquele avião. Brincar de Deus, jogando com as emoções humanas (e dos atores), também é uma das atribuições do diretor. Ah, sim. Por que ele escolheu Fanny Ardant para Crimes de Autor? 'Porque precisava de uma atriz carismática para fazer uma mulher que não é simpática.'

O sonho acordado de David Lynch

Cineasta propõe viagem sensorial e deixa que o arranjo de sentidos seja construído pelo próprio espectador

Luiz Zanin Oricchio

Hoje é a última chance para ver Império dos Sonhos, de David Lynch. A recomendação tem de vir acompanhada de um aviso: não se trata de filme para todos os gostos. À parte a obviedade dessa observação, deve-se lembrar que Lynch é um experimentador. Joga com a narrativa, com as relações lógicas entre acontecimentos e personagens, e também com a textura do filme. Muitos fãs de Lynch estranham que Império dos Sonhos tenha sido feito em digital, o que limita a possibilidade da paleta de cores possível com uma película de 35 milímetros. Mas, vamos nos recordar que esse tipo de pesquisa com vídeo começou lá atrás, em 1980, com o Antonioni de O Mistério de Oberwald. Não chega a ser novidade. Nem chega a ser nova a constatação de que o trabalho com o digital fecha algumas possibilidades e abre outras. São opções. Tanto assim que o próprio Lynch já declarou que não pretende mais filmar com película, tamanha a liberdade que experimentou com o digital.

Dito isso, e o filme? Bem, o que se pode antecipar é que Lynch propõe uma viagem sensorial, na qual importa o sentido (quer dizer, a direção) mas nem tanto o significado. Isso quer dizer que será virtualmente impossível se comportar diante desse 'objeto' como fazemos quando alguém nos pede para dizer de que determinado filme 'fala' e então nos pomos a contar uma historinha: aconteceu tal e tal coisa, este personagem se apaixona por outro e entra em antagonismo com um terceiro, etc. Nada disso. O filme é como uma instalação; ele nos propõe coisas, e ao contrário das artes visuais, é diacrônico, caminha em determinada direção, mas deixa que o arranjo dos sentidos possíveis seja construído pelo próprio espectador. Essa é a proposta. Tanto assim que, nas entrevistas concedidas no Festival de Veneza, no ano passado, Lynch se mostrou muito lacônico. Se alguém lhe propunha uma interpretação, qualquer uma, ele dizia que estava certa. Se outra pessoa levantava hipótese contrária, ele respondia que também era possível. Nesse momento, o autor desaparece como intérprete da própria obra.

Cabe a nós, portanto, decifrá-la. E, sobretudo, deixarmo-nos levar, nessa viagem fascinante de três horas, por labirintos que são os do sonho ou do próprio inconsciente. Visto sem as amarras da razão, isto é, de nossas expectativas prévias, ele pode ser estimulante, engraçado, irônico, inteligente e, sobretudo, surpreendente - como um objeto surrealista. Sabemos que há uma atriz (Laura Dern), que deve fazer um filme (Império dos Sonhos é também metacinema), mas que esse é um projeto maldito. O que se sugere de Hollywood, esse império interior, é bastante corrosivo. E o que significam esses personagens com máscaras de coelhos que surgem num palco a cada instante? O que você quiser, caro espectador.

Se, apesar de tudo o que se disse de Lynch, a sua praia for outra, dá para recomendar o muito mais linear A Arte das Lágrimas, do dinamarquês Peter Schonau (Memorial da América Latina, 20h40). É um filme que começa como comédia e vai sutilmente mudando de rumo no meio do caminho até se transformar em drama familiar dos mais cabeludos. Como só os nórdicos parecem ter coragem de fazer.

Serviço Unibanco Arteplex 1: Hoje, 20h10. Cotação: Ótimo

Joe Wright reinventa o desejo de reparação de Ian McEwan

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 22/10/07

Filme com a musa do diretor, Keyra Knightley, acrescenta à discussão sobre literatura uma outra, sobre o próprio cinema

Joe Wright acaba de dirigir um comercial milionário da marca Chanel. Keira Knightley é a estrela. Está linda, num longo de seda que mapeia seu corpo. Keira está em Desejo e Reparação, que Wright adaptou do romance de Ian McEwan - editado no Brasil somente como Reparação -, e também em Orgulho e Preconceito, que ele havia adaptado de Jane Austen. Prepare-se para um dos choques desta Mostra, como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominik, e Sombras de Goya, de Milos Forman. Os três tratam da ambivalência humana e discutem arte e vida. A literatura e o cinema em Desejo; o teatro, no Assassinato: e a pintura em Goya.

Pode-se gostar do filme de Joe Wright exatamente pelo que muitos críticos contestam nele - o excesso. Na sessão para a imprensa, sábado de manhã, havia gente reclamando, gente que em geral leu o livro e acha que o diretor carrega nos excessos melodramáticos na segunda parte. A chave para se entender Desejo e Reparação está naquela praia, durante a guerra. O diretor constrói um plano-seqüência que parece puro virtuosismo técnico, mas propõe algo mais. Sua idéia é que a guerra é este limite, não apenas para os indivíduos, mas para as sociedades.

A sociedade britânica de Desejo e Reparação parece aquela filmada por Joseph Losey - baseia-se no embate entre as classes sociais. Muito da tragédia que ocorre no filme - uma menina de 13 anos interpreta mal o que viu e, baseada nos seus preconceitos (e eles também são ditados pelo desejo ), condena um homem num caso de estupro. Este homem ocorre ser de uma classe inferior e também de ser o amado de sua irmã. Ele sofre o Diabo. Na cena da praia, devorado pela febre, o herói busca água e vai parar num cinema, reduzido a um nada diante da tela gigante que mostra Michèle Morgan e Jean Gabin em Cais das Sombras, de Marcel Carné, de 1938.

Será a arte, o cinema, maior que a vida? É esta a idéia que está em discussão em Desejo e Reparação. No livro, é a literatura, e Joe Wright mantém a discussão, com a entrada em cena de Vanessa Redgrave, para uma participação memorável, que só uma atriz como ela pode proporcionar. Mas à discussão sobre literatura, que é a do livro, ele soma essa outra sobre o cinema. Van Gogh disse, num carta ao irmão Theo, que pintava para consolar. Esse consolo tem aqui outro nome, reparação. Desejo e reparação. Desejo DE reparação. Keira, não é preciso nem dizer, é maravilhosa.

(SERVIÇO)
Serviço Cinemark ShoppingEldorado, sala 7: Hoje, 22 horas. IG Cine: quarta, dia 24, 19 horas. Reserva Cultural, dia 1.º, 16h10.Cotação: Ótimo

sábado, 20 de outubro de 2007

E a pequena Miss Sunshine ficou mais velha

Filme completa um ano em cartaz neste fim de semana

Luiz Carlos Merten

Embora o fato não seja novo, ocorre cada vez com menos freqüência. A rotatividade dos lançamentos e a sobrevida que muitos títulos ganham no mercado de DVD praticamente eliminam as chances de que um filme permaneça muito tempo em cartaz. O último caso recente havia sido 2046, de Wong Kar-wai, que ficou um tempão no HSBC Belas Artes. No mesmo espaço, outro filme completa um ano em cartaz neste fim de semana. É A Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Parabéns!

Mais do que assinalar o fato como algo pouco freqüente no mercado brasileiro (e até internacional), pode-se procurar entender os motivos que fizeram com que Miss Sunshine virasse o que os norte-americanos chamam de ‘sleeper’, um filme cujo sucesso colhe todo mundo de surpresa. Os críticos gostaram de Miss Sunshine - os adjetivos variaram de ‘simpático’ à classificação ‘excelente’ -, mas foi o público, com o boca a boca, que selou a consagração. Claro que ajudou a indicação do filme para o Oscar da Academia de Hollywood. É verdade que os acadêmicos preferiram premiar o Martin Scorsese de Os Infiltrados - mais cinemão, é impossível -, mas a exposição que esse filme pequeno, independente, ganhou na mídia bastou para que todo mundo soubesse da existência de Miss Sunshine.

Dayton e Valerie são estreantes. Vieram da TV, onde faziam comerciais. Nada mais na contramão do consumismo do que esta história sobre uma família disfuncional que cai na estrada. De perto, ninguém é normal, mas a família reunida na van de Miss Sunshine parece sob medida para compor um pequeno retrato do bestiário da classe média dos EUA. O pai, a mãe, os filhos, o avô, o tio enrustido - cada um tem seu problema especifico, mas todos estão a bordo, coexistindo como grupo e unidos em torno do mesmo objetivo. A Miss Sunshine do título é essa menina de 7 anos, sem gracinha - mas a atriz Abigail Breslin é graciosíssima -, que sonha vencer um concurso de beleza para crianças. A família atravessa os EUA, da Califórnia à Flórida. Quando chegam ao local do concurso, a menina não se enquadra no modelito das demais concorrentes. Impulsionada pelo avô, ela põe para quebrar.

Um pouco antes de Miss Sunshine, o diretor argentino Pablo Trapero havia feito outro filme legal, sobre outra família disfuncional na estrada, mas o público nem de longe fez de Família Rodante um grande sucesso. O segredo de Jonathan Dayton e Valerie Faris está na empatia que eles conseguiram estabelecer com as platéias - no plural, já que o filme fez aquilo que se chama de ‘cross-over’, agradando a diversas faixas de espectadores. A viagem é transformadora para todos os personagens, o elenco (Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carrell, Alan Arkin)é perfeito, o desfecho é, como se diz, ‘ultrajante’, além de muito divertido. Miss Sunshine ganhou dois Oscars - melhor roteiro original, do estreante Michael Arndt, e melhor coadjuvante (Arkin). Um jovem e um veterano. Diferentes gerações, celebrando um filme também diferente.

(SERVIÇO)Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA/ 2006, 101 min.) - Dir. Jonathan Dayton e Valerie Faris. 14 anos. HSBC Belas Artes 6 - 14h30. Cotação: Ótimo

'Capitão Fábio' abre boteco em Perdizes

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 20/10/07

Ator de ‘Tropa de Elite’, Milhem Cortaz aproveita popularidade

Sérgio Duran

Ninguém sabe direito qual é o destino final do capitão Fábio no filme Tropa de Elite, de José Padilha, depois do “pede pra sair”. Pois bem, ele virou dono de boteco e inaugura hoje uma modesta casa em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Brincadeiras à parte, o ator Milhem Cortaz, de 34 anos, diz nunca ter gozado de tamanha popularidade quanto agora, com o filme em cartaz. “O Tropa foi, para mim, uma espécie de novela das oito da Globo.”

Cortaz discorda das críticas de que o filme seja fascista, de que defenda o Estado policial ou ainda que seja uma narrativa do ponto de vista dos policiais. “É um dos filmes mais sinceros e cidadãos que eu já fiz”, afirma. “Faz a gente ver o nosso ridículo. Quem não encontra um preto na rua à noite e muda de calçada? Bem lá no fundo, todo mundo é reacionário. É bom que as coisas estão ficando mais claras nessa discussão.”

Para o ator, a formação de documentarista de Padilha colaborou para a construção de “um filme vital” para o Brasil neste momento. “De repente tudo conspirou a favor, até o assalto ao Luciano Huck”, considera. “O que escreveram depois, me desculpe, foi nada a ver. Só porque o cidadão ganhou dinheiro na vida passou a merecer ser assaltado?”, questiona.

Cortaz é um ator produtivo no cinema. Antes do capitão Fábio, interpretou o matador Peixeira em Carandiru, de Hector Babenco, papel que rendeu, em suas palavras, o respeito da classe artística. “Mas foi o capitão Fábio que me deu popularidade”, conta. Em sua opinião, o militar que interpretou é um homem “do bem”, apesar de cobrar propina para proteger comércios e de explorar a prostituição em Copacabana (zona sul do Rio), entre outras atividades paralelas. “Esses esquemas são completamente naturais para ele”, explica. “Porém quando os outros dois companheiros pegam o dinheiro do jogo do bicho e deixam o comandante furioso, ele não entrega os amigos. Ele assume a culpa”, analisa.

Tropa é o 31º filme da carreira de Cortaz. Há pelo menos outras três produções para estrear, entre as quais Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, no qual figura até José Celso Martinez Corrêa.

O Cortás Pastéis - Espetos (Avenida Professor Alfonso Bovero, 584), conta, é um projeto familiar. Ele montou o negócio, na verdade, para o pai, Milhem Cortás Neto, de 65 anos, comerciante aposentado que durante décadas foi proprietário de uma lanchonete, ao lado da Estação Vergueiro do Metrô. Chamava-se Tinho e tinha como quitute mais famoso do cardápio o pão de queijo. No boteco que inauguram hoje, eles investirão em espetinho, pastel de feira e cachaça. “Será um boteco tradicional mesmo. Eu sempre adorei boteco, desses bem toscos, simples mesmo. Também sempre adorei cachaça. Não bebo cerveja”, conta Cortaz, que tem ascendência árabe e italiana, estudou no Teatro Piccolo de Milão na década de 80 e é um velho conhecido dos palcos paulistanos.
A todos os amigos ele pediu que levem um prato de casa para a inauguração do bar. No futuro, quando o cliente se tornar assíduo, terá direito a deixar um prato no boteco e a pedi-lo toda vez em que visitá-lo. Será uma forma de fazer com que todos se sintam em casa quando estiverem no boteco. “Aqui será um espaço da minha família, de amigos e parceiros”, diz. “Essa foi a maior vantagem de abrir esse bar. Nos últimos seis meses, conversei mais com o meu pai do que nos últimos seis anos. Montei isso aqui para ficar mais perto dele.”

Quatro vezes o talento de Gael

Data: 20/10/07

Ator, diretor e produtor fala sobre filmes, diretores, mulheres e amor

Luiz Carlos Merten

Quem leu, anteontem, a entrevista de Hector Babenco na abertura da 31ª Mostra Internacional de Cinema talvez se surpreenda ao saber que Gael García Bernal desmente seu diretor em O Passado. Babenco disse que após a filmagem, ao levar Gael para o aeroporto, perguntou-lhe por que quis fazer o papel. Gael teria respondido que era filho de pais separados, não falava (nem via) o pai há anos quando ele ressurgiu em sua vida e o levou ao cinema. O filme era Pixote. “Hector não me levou ao aeroporto. E eu vi Pixote em Londres, quando lá estudava, aos 16 anos”, ele conta. A pergunta vem, inevitável - se não foi como Babenco conta, por que ele quis fazer O Passado? “Em primeiro lugar porque tinha muita vontade (ganas) de trabalhar com Hector. E gostei do roteiro, que despertou em mim a vontade de fazer um filme de amor, coisa que não fazia há tempos.” A versão do diretor é tão bonita - apesar da sinceridade de Gael - que dá vontade de lembrar John Ford. Print the Legend, dizia o mestre no desfecho de O Homem Que Matou o Facínora, um dos grandes westerns crepusculares do cinema. Quando a versão é melhor, imprima-se a versão.

Gael chegou a São Paulo na quinta-feira, para uma curtíssima estada. Veio prestigiar a exibição de O Passado e falar um pouco sobre outros três filmes aos quais está ligado, no evento deste ano. Gael García Bernal pode virar o ‘muso’ da 31ª Mostra. Além de O Passado, é ator e diretor (sua estréia) em Déficit, atua em Sonhando Acordado, de Michel Gondry, e produz - por meio da empresa Canana, que fundou em parceria com outro astro mexicano, Diego Luna - Cochochi, de Laura Amélia Guzmán e Israel Cárdenas. Ele se admira - achava que eram só três. O filme de Gondry é do ano passado. Gael adora o diretor. “É muito inventivo.”

Houve outro motivo para que Gael quisesse fazer O Passado. “Queria voltar à Argentina”, ele conta, e o filme é muito argentino, com esse personagem de jovem-velho (como o define o diretor) que é tipicamente portenho. “Rimini é diferente dos outros personagens que tenho criado. Ele é dependente. É um personagem cujas mulheres e as palavras o guiam do princípio ao fim. Rimini tem uma relação distinta com cada uma delas. São as mulheres que o conduzem até onde deve chegar.” É curioso que Gael cite as palavras, porque uma das características marcantes do filme é que, nos 10 ou 15 minutos finais, Rimini quase não fala. Deve dizer duas ou três palavras, uma frase. Gael atua muito mais com o físico, o olhar, os gestos do que propriamente com a palavra. É difícil?
“Havia muita coisa difícil neste filme, mas por isso ele era estimulante. O amor é uma vertigem física vivida pelos personagens. Eles, principalmente as mulheres, se jogam na paixão”, ele diz. Embora a citação a Adèle H, de François Truffaut, não se refira exatamente a isso - o filme entra para dar a (des)medida das mulheres que amam demais -, Babenco compartilha, com o autor francês, dessa certeza de que ele (e seus personagens) vivem o amor como embate entre o gesto impulsivo e a palavra consciente. Além do roteiro, sobre o qual trabalhou, Gael leu, naturalmente, o livro de Alan Pauls em que Babenco se baseou. O filme elimina partes inteiras do livro. Há uma parte sobre um pintor, que culmina com o roubo de um quadro, que deve ocupar umas 50 páginas. Babenco tirou tudo.

“Não senti falta. Creio que a história do pintor era outra história, paralela à de Rimini e suas mulheres.” Ele não contesta as escolhas do diretor. “Não - porque ele é quem tem o filme na cabeça. O prazer de participar de um filme como este é se entregar à batuta de um maestro como Hector.” Ele desmente insinuações, que saíram na imprensa internacional, de que teria brigado com o diretor, como brigou com Pedro Almodóvar, durante a realização de Má Educação. “É o tipo do boato maldoso que certas pessoas gostam de difundir.” Babenco contou que Gael ajudou no processo de seleção das atrizes - Analía Couceyro, Moro Anghileri e Ana Celentano. “Foi muito rico trabalhar com elas, mas tem de ser assim. Se não houver interação, não há prazer.”

Quando iniciou a filmagem de O Passado, Gael estava em pleno processo de montagem do filme que assinala sua estréia como diretor - Déficit. É a história do filho de um político corrupto (e influente). Durante um fim de semana numa casa da família, fora da Cidade do México, Cristóbal - é o nome do personagem - estabelece um jogo de poder com as mulheres e os amigos, mas o tema do filme é a sua crise, a vontade de ser ele mesmo. “O que me atraiu foi essa idéia de trabalhar sobre um personagem da classe alta, coisa que nunca havia feito antes. Ele carrega o peso dos atos do pai e a idéia é justamente discutir a responsabilidade individual. Não precisamos seguir com os erros que nos são impostos.”

Ele não pensou em outro ator para fazer o papel? “Pensei, sim. Até por ser minha estréia, queria ficar mais livre, para me dedicar só à direção. Ocorre que chegamos em cima da rodagem sem um ator definido e, a esta altura, já estava tão envolvido com o personagem que decidi fazê-lo eu mesmo.” Foi um filme experimental feito em digital, com baixíssimo orçamento. “A idéia era justamente viabilizar uma produção de baixo custo, sem nenhuma ajuda. Não podemos ficar nos queixando de que falta apoio, que falta isso ou aquilo. É preciso fazer. Formávamos uma equipe jovem - todo mundo na faixa de 30 anos, ou menos. Como trabalhávamos com vídeo, podíamos repetir bastante. Foi assim que, embora tivéssemos um roteiro-guia, pudemos improvisar bastante. Duas ou três cenas, inclusive, foram acrescentadas ao roteiro em função do que descobríamos na filmagem.”

Haver-se transformado, ele próprio, em diretor mudou alguma coisa na maneira de Gael atuar, ou entender o cinema? “Com certeza, sim”, ele diz. “Entendo agora melhor o ponto de vista do diretor.” Por falar em diretores, Gael trabalhou com Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos e Babel) e Alfonso Cuarón (E Tua Mamãe Também), que constroem hoje uma carreira internacional, consagrados em Hollywood. Isso o surpreende? “Não, pois são muito inteligentes e dominam sua linguagem. E os dois são generosos. Não se preocupam só com eles. Gostam de apoiar. Ambos têm um lado paternal muito forte. Considero-os meus mentores.” Em matéria de diretores, ele dedica um carinho todo especial a Walter Salles, com quem fez Diários de Motocicleta. Embora tenha convivido com filhos de exilados políticos, quando garoto, no México, ele diz que foi Walter quem lhe permitiu descobrir o Brasil. E Carlos Reygadas, que ganhou o prêmio da crítica no Festival do Rio, com Luz Silenciosa? “Carlos é um amigo muito exigente. Gostaria de trabalhar com ele, mas não dá. Carlos só utiliza atores não profissionais.” Sobre a empresa que criou - Canana -, esclarece. “Não queremos, nem Diego nem eu, viabilizar só nossos projetos. Cochochi nos chegou, nos apaixonamos pela idéia. Resultou num filme maravilhoso.”

(SERVIÇO)
Cochochi, de Israel Cárdenas, Laura Guzmán. Cinesesc: Hoje, 20h10. Unibanco Arteplex 1: Dia 25, 18h50. HSBC Belas Artes 2: Dia 28, 16h30. Cotação: Ótimo
Déficit, de Gael García Bernal. Faap: Hoje, 19h30. Cinesesc: Dia 22, 15h10. Cinemateca. Dia 26, 15h10. Cotação: Regular
O Passado, de Hector Babenco. Cinesesc: Dia 24, 22h10. Cine Bombril 1: Dia, 26, 18h10. Cinemark Eldorado: Dia 28, 19 h. Cotação: Bom
Sonhando Acordado, de Michel Gondry. Cinemateca: Hoje, 19 h. Cinesesc: Dom., 13h30. Cotação: Regular

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Photoshop para leigos: menos caro e mais fácil

Confira teste exclusivo do novo Photoshop Elements 6, cujos recursos (e preço) são destinados ao usuário amador

Bruno Sayeg Garattoni

Ao contrário do que muita gente pensa, o Photoshop não é exclusividade dos fotógrafos profissionais. Ele tem uma versão amadora, que se chama Photoshop Elements e foi especialmente projetada para usuários leigos - além do preço bem menor, traz recursos exclusivos e ferramentas de edição simplificadas, mais fáceis de usar.

O Link testou, com exclusividade, a nova versão do programa: o Photoshop Elements 6, que chega ao mercado brasileiro em novembro. Na verdade, o Elements é um pacote composto por três programas: um organizador, um editor e um “exportador” de fotos (para gravar tudo em CD ou jogar na internet).O uso do programa começa pelo organizador. Que, como seu nome diz, organiza em grupos e categorias as fotos armazenadas no PC (ou descarregadas de uma câmera). Exatamente como faz o programa gratuito Picasa - leia mais na página 4. Ocorre que, ao contrário do Picasa, o organizador do Photoshop não é lá muito organizado.Se você deixar, ele pega as fotos da sua câmera e joga num grande “bolo”, junto com as imagens que já estão no PC. O Picasa é mais esperto: cria automaticamente um álbum, cujo nome o usuário é convidado a digitar.Para piorar as coisas, não tem um campo de busca para procurar fotos! Ou melhor, tem - mas está escondido. É preciso clicar em Find e aí selecionar busca por legenda (caption) ou nome do arquivo (filename).Acontece que, como o programa não solicitou que você nomeasse o lote de fotos durante a importação, elas ficaram sem nenhum tipo de identificação (como “churrasco”, “Natal”, etc.). Têm apenas os nomes estranhos, e sem sentido, do tipo DSC100094.jpg , com que vieram da câmera digital. Ou seja: na prática, não dá para fazer busca nenhuma.É possível evitar esse problema. Basta selecionar, antes de importar as fotos, a opção Custom. Mas o Photoshop deveria ser mais esperto. Mesmo.A interface gráfica do organizador também não ajuda. É poluida e ligeiramente confusa, muito inferior à do Picasa.O Photoshop compensa com um recurso inovador: o Find by visual similarity (encontrar por semelhança visual). Essa função analisa o conteúdo de determinada foto e encontra outras parecidas com ela (um pôr-do-sol, por exemplo). Legal.Mas não é o bastante. O organizador do Photoshop Elements é bem ruinzinho.

SHOW DE EDIÇÃO

Já o editor de fotos, é simplesmente excelente. Ele traz ferramentas exclusivas que realmente ajudam a trabalhar com as fotos. Confira, no quadro da página 5, como no Photoshop os retoques são sempre mais fáceis de fazer.E não só isso: o resultado final também fica melhor. Veja o caso da Varinha mágica (Magic wand). É uma das principais ferramentas, talvez a mais importante, em qualquer software de fotografia, pois ajuda a selecionar as regiões da foto que serão tratadas (como a pele de uma pessoa) sem que você precise demarcá-las, milímetro a milímetro, com o mouse. Nessa tarefa, o Photoshop foi muito mais preciso do que o similar gratuito Gimp. Sua coleção de filtros e ferramentas, com dezenas de opções, também é sem igual. Outra exclusividade do Elements é a edição guiada (Guided Edit). Ela realmente ensina, passo-a-passo, como melhorar as fotos: pois mostra, numa sequência lógica, tudo o que você precisa fazer (cortar a foto, retocar as cores e a iluminação, aumentar a nitidez, etc.).Basta ir seguindo as instruções, apertando os botões que aparecem na tela. Mas é preciso saber inglês (o software não tem versão em português).O Photoshop permite ver as fotos no modo Before & After, que mostra lado a lado o “antes” e o “depois” da foto que está sendo editada. Ou seja: fica muito mais fácil avaliar o efeito de uma ajuste, ou de um filtro, antes mesmo de aplicá-lo. As modificações não são destrutivas, ou seja, não afetam a foto original.

TIPO EXPORTAÇÃO

Na hora de exportar as fotos, seja para a internet ou para um CD, o Photoshop Elements também se destaca. As galerias de fotos online, que ficam hospedadas no site Photoshop Showcase.com, são muito bonitas - podem conter elementos sonoros e gráficos 3D.O gerador de slideshows é um caso à parte. Ele é um verdadeiro editor multimídia, que permite misturar vídeos e MP3 às fotos - e depois gravar tudo num CD que roda em toca-DVDs comuns (ideal para presentear a família).Como um todo, o Photoshop Elements 6 é excelente - só o organizador, infelizmente, deixa a desejar. O preço, em torno de R$ 300, é um pouco alto. É mais negócio comprar o pacote promocional, de R$ 460, que inclui também o sensacional editor de vídeo Premiere Elements (semiprofissional).É um bom dinheiro, claro. Mas, para o amador que gosta muito de editar fotos (e vídeos), não há nada melhor.