sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O mestre e a bela

O Desprezo mostra que a arte de Godard continua plena

INÁCIO ARAUJO

O Desprezo é um filme de encontros. O de Godard com BB: dois ícones da Europa pós-pós-guerra, em trajetos até então opostos: Brigitte Bardot, símbolo do cinema comercial, e Godard, símbolo do cinema-como-arte.Também encontro entre o novo e o eterno: Jack Palance, o produtor de cinema, deus do presente, e a Grécia de Homero, da Odisséia. Encontro entre o clássico e o moderno: Fritz Lang, que faz o diretor que vai filmar A Odisséia, e Godard, que faz seu assistente. Evoca-se a possibilidade de o cinema reconstruir qualquer lugar. A corrida de Piccoli pelas ruas de Cinecittà são um momento antológico, em que Godard filma as "ruas de cinema do estúdio e a verdade dessas ruas, que recebemos como espectadores quando vemos um filme.O cinema de Godard teve, como prioridade, um aspecto documental, o desejo de captar a atualidade. Por uma vez, seu olho parece mirar outros horizontes. Existe, primeiro, a intriga, a crise conjugal entre o roteirista (Michel Piccoli) e a atriz (Bardot).Godard a leva a sério, mas não como o cineasta clássico. É um instante que parece concerni-lo: quando BB deixa de amar o marido e passa a desprezá-lo. Podemos buscar as ressonâncias, não as causas. É o mistério da mulher, de sua decisão, de seu rosto que permanecerão para sempre perturbadores em O Desprezo. O drama conjugal puxa todos os demais. Lá está o produtor de cinema, com sua previsível impaciência com a cultura e suas demonstrações de potência. Lá está Lang, como que ciente de sua grandeza, mas também da insuficiência dessa grandeza. E BB. E Palance.Parece que Godard empenha-se em trabalhar sobre um feixe de contradições amplo. Tão amplo, que o set de filmagem parece uma Babel, cheia de línguas cujas distâncias uma tradutora procura aplainar. Uma língua os une, que é o cinema. E o cinema surge como o elemento de atualidade que nunca falta a Godard. Porque existe uma diferença entre o ambiente descrito e o cinema godardiano.Os extras do DVD incluem documentários e entrevistas. Universal.

Play

A Primeira Página - Direção de Billy Wilder. A terceira versão para cinema da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur traz um encontro luminoso entre Walter Matthau, como o chefe de redação cínico, e Jack Lemmon, o repórter que se demite em momento decisivo do jornal. Billy Wilder restabeleceu aqui a dupla masculina original, que Hawks havia transformado em casal duelista em Jejum de Amor. O mundo de Wilder é mais amargo que o de Hawks, e seu olhar, menos olímpico. Mas não menos bem-humorado. O fato de Lemmon e Matthau serem homens faz o filme se diferenciar de Jejum... e propicia um final exemplar. Comédia. Versátil.

Cassino Royale - Direção de Martin Campbell. A convincente estréia do inglês Daniel Craig como o agente 007, na adaptação do único romance de Ian Flemming que permanecia inédito na série oficial com o personagem, ganha tapete vermelho nesta edição especial em DVD, com um disco exclusivo para os extras. O destaque é o documentário Bond Girls São Eternas, com a atriz inglesa Maryam dAbo (007 Marcado para a Morte) entrevistando outras 15 atrizes que também pertencem a esse clube invejável. Os bastidores da substituição de Pierce Brosnan por Craig e das elaboradas cenas de ação aparecem em outros extras. Ação. Sony Pictures.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Piaf, uma vida de amor e tragedia

A cantora francesa Édith Piaf ganha uma ótima cinebiografia e tem seu livro de memórias lançado no País

IVAN CLAUDIO

PERFEIÇÃO Marion Cottilard interpreta Piaf no filme cuja trilha tem clássicos como La vie en rose e Hymne à l’amour

Paris, 1929. Um contorcionista faz o que pode para ganhar algumas moedas, jogadas pelos pedestres no chapéu que sua filha carrega. “E a menina, não faz nada?”, pergunta um deles. A garota, vacilante, faz a única coisa que sabe: cantar. E canta a única música que sabe de cor: a Marselhesa, hino nacional da França. Surgia naquela tarde parisiense um dos maiores mitos da música, a cantora Édith Piaf (1915-1963), que imortalizou canções como La vie en rose, Non, je ne regrette rien e Hymne à l’amour. Essa passagem está em Piaf – um hino ao amor, filme francês que estréia na sexta-feira 12, sobre a grande intérprete e sua vida de tragédias e amores. A mesma história da Marselhesa está também no livro Piaf – no baile do acaso (Martins Fontes, 192 págs., R$ 45), escrito pela própria cantora, na época com 43 anos. Ou seja, quatro anos antes de sua morte, de câncer, e precocemente envelhecida pela vida boêmia e pelo vício de morfina – ela chegava a injetar diariamente dez ampolas da substância.

MITO A artista no fim da vida, quando cantava que “não se arrependia de nada”

Na apresentação do livro fica-se sabendo que a própria Piaf ajudou a criar e a perpetuar as lendas em torno de si. A primeira, aliás, diz respeito ao seu nascimento. Ela insiste que veio ao mundo num dia frio de inverno nos degraus do número 72 da rua Belleville, enquanto seu pai, que havia saído atrás de uma ambulância, se aninhara no balcão do primeiro bar, só voltando depois que dois policiais haviam feito o parto.

Mas a maternidade do bairro registra o fato de forma mais natural, indicando inclusive o nome do médico que atendeu sua mãe. O filme dirigido por Olivier Dahan, com a esplêndida Marion Cottilard, faz jus ao mito e oferece uma história digna das letras de suas canções. Filha de uma cantora de rua, Piaf (cujo nome real era Édith Gassion) foi abandonada pela mãe quando o pai servia o Exército francês. Na seqüência, vai morar com a avó, que dirigia um bordel. Lá, contrai uma infecção nos olhos e fica sem ver por alguns meses. Recuperada, passa a trabalhar com o pai no circo, e, mais tarde, nas ruas de Paris.

MEMÓRIAS Piaf evita falar dos amantes no livro

Aos 15 anos, Piaf começa a ganhar a vida cantando pelas esquinas as músicas populares que aprendeu com a mãe e as prostitutas. É quando o dono de cabaré Louis Leplée a descobre. Diante da minguada estatura (ela media 1,42m), escolhe seu pseudônimo: La Môme Piaf (o pequeno pardal). Mas o sonho dura pouco. Seu protetor é assassinado e ela cai de novo na boêmia e no alcoolismo, herdado dos hábitos do pai, que lhe servia conhaque e vinho para afastar o frio. Piaf, claro, teve uma segunda chance e conheceu o estrelato. Viveu também muitos amores e muitas perdas. Casou duas vezes: com o cantor americano Jacques Pills e com o cabeleireiro Théo Sarapó. Os amantes foram muitos, como o cantor Yves Montand, o ator Eddie Constantine e o ciclista André Pousse. O grande amor de sua vida foi, certamente, o campeão de boxe Marcel Cerdan, que morreu num acidente de avião num vôo de Paris a Nova York. E o pior: viajando a pedido da própria Piaf, que se encontrava em turnê pelos EUA. Essa tragédia é um dos momentos sentimentais do filme. No livro, só ganha um parágrafo. “Com a morte de uma pessoa que eu amava, meu universo desabou. Achei que nunca mais conseguiria ser feliz (...) A fé me salvou.” E a música, claro.

Fonte: Revista Veja - 08/10/07

Hollywood em São Paulo

Fonte: Revista Isto é - 08/10/07

Estrelado por atores americanos, filme de Fernando Meirelles transforma a capital paulista em cenário da mais cara produção do País
IVAN CLAUDIO

‘‘Já sei o nome desse filme: A sujeira do Anhangabaú.” A frase não foi dita por nenhum crítico mal-humorado, mas por um morador de rua que na fria tarde do domingo 30 acompanhava no centro de São Paulo as filmagens de Blindness (Cegueira), de Fernando Meirelles. É o filme mais caro já feito no País (R$ 50 milhões). Essa co-produção entre Brasil, Canadá e Japão fechou por um dia o Vale do Anhangabaú, que passou a lembrar uma praça de guerra. Carros batidos, trincheiras, fumaça e sujeira por toda parte compunham o cenário apocalíptico armado pelo longa-metragem que está fazendo São Paulo lembrar Hollywood – seus atores principais são as estrelas americanas Julianne Moore, Danny Glover e Mark Ruffalo. Figurantes chegam a 300 e até o cachorro tem um regra-três, caso resolva esnobar a objetiva.

As filmagens já passaram pelo Canadá e Uruguai. A ficção é baseada no livro Ensaio sobre a cegueira, do autor português José Saramago, e trata de uma cidade tomada por uma epidemia que torna as pessoas cegas – deve ficar pronta a tempo de estrear no Festival de Cannes, em maio de 2008. “Está tudo dentro do cronograma, a equipe está feliz, é isso o que importa”, disse Meirelles. A questão do prazo é um dos detalhes que tornam Blindness tão diferente de Cidade de Deus, por exemplo, responsável pelo sucesso internacional de Meirelles. Quem explica é a produtora Andrea Barata Ribeiro, sócia de Meirelles na produtora O2: “Os contratos internacionais são mais complexos e incluem um seguro como garantia de que o filme será terminado.” Outras exigências também são novidade para os brasileiros. Julianne Moore não entra em cena sem saber quantas câmaras vão ser direcionadas para ela. “Não posso fazer o making of quando ela está rodando”, diz Andrea.

ACTION Meirelles fechou o centro de São Paulo, que ganhou placas em inglês e a presença de Glover, Ruffalo e Julianne.

Na maioria das filmagens estão sendo usadas quatro câmaras, mas o aparato técnico é bem maior. Para rodar a simples seqüência em que o ator japonês Yusuke Iseya sai de casa e toma um táxi com a mulher foram usados quatro caminhões com equipamentos e um gerador de 100 KVA, que equivale a 900 lâmpadas de 100 Watts. “Fiquem todos atrás da grade porque vai entrar um carro em alta velocidade”, disse um segurança. “Se vier acima de 80 já está multado”, retrucou um dos “marronzinhos” de plantão no local. Essa cena transformou as ruas Piauí e Aracaju, no bairro de Higienópolis, nas ruas Canal St e Royal St, de Nova York. O Viaduto do Chá virou a 3rd St e a rua Líbero Badaró a Grand Avenue. Em toda a extensão dessa última, seis trailers e quatro motorhomes eram alimentados por um gerador de 150 KVA, o suficiente para abastecer um prédio de sete andares. Embora o enredo do filme não se dê explicitamente em Nova York, carros de polícia, táxis e placas de rua levam a crer que se está na Big Apple. Falado em inglês e com elenco de diversas nacionalidades, o filme tem mudado os hábitos até dos técnicos. “I’m sorry. Com licença”, gritava um eletricista. “Aqui todo mundo tem de falar duas línguas”, explicava ele à multidão de curiosos.

Projeto distribui ingressos gratuitos no interior de SP

Flávia Guerra

Para aumentar a freqüência e diminuir as estatísticas que dizem que o público brasileiro ainda vê poucos filmes brasileiros no cinema, surge uma tentativa: o programa Vá ao Cinema. Lançada oficialmente ontem pelo secretário de Estado da Cultura, João Sayad, a iniciativa vai distribuir gratuitamente 150 mil ingressos de cinema em 15 cidades do interior paulista. Nesta primeira fase, que compreende o mês de outubro, cada uma das cidades receberá 15 mil vale-ingressos, que valerão somente para assistir a filmes nacionais inéditos nas cidades.A distribuição será feita por monitores contratados pela empresa Sodexho, responsável pela emissão dos ingressos. Esses monitores terão a tarefa de visitar escolas de cada uma das cidades e explicar aos alunos como funciona o projeto, que representa investimento de R$ 1 milhão em seus dois primeiros meses e a distribuição de 300 mil ingressos (para os meses de outubro e novembro).As primeiras cidades contempladas são Araras, Jacareí, Jundiaí, Indaiatuba, Taubaté, Santa Bárbara d’Oeste, São José dos Campos, Santos, Praia Grande, Barueri, Amparo, Araraquara, Jaú, Mogi Guaçu e Mogi Mirim.Para 2008, os investimentos previstos são de R$ 7 milhões e distribuição de 2 milhões de ingressos. Mais que aumentar a freqüência atual do brasileiro no cinema, o projeto visa à formação de público.

E o palhaço Adam Sandler prova que é grande ator dramático

Luiz Carlos Merten

Pode-se pegar carona no filme de Guilherme de Almeida Prado, Onde Andará Dulce Veiga?, para formular outra pergunta - onde andará Paul Thomas Anderson? O talentoso diretor de Boogie Nights - Prazer sem Limites e Magnólia anda meio sumido, após o fracasso de público e, por que não admiti-lo?, de crítica de Embriagado de Amor. O filme passa hoje às 22 horas no People + Arts.Se você for à internet, verá que Paul Thomas Anderson não está parado, mas seus novos trabalhos estão demorando para surgir. Vale (re)ver Embriagado de Amor, com Adam Sandler no papel de sua vida, confirmando que palhaços, muitas vezes, são capazes de grandes atuações dramáticas. Jim Carrey que o diga. Ele não é menos do que excepcional em O Show de Truman e O Mundo de Andy.Embriagado de Amor conta a história desse sujeito tímido que vive oprimido pelo matriarcado dentro da própria família. Ele é o único varão numa família de sete irmãs. Solitário (e consumido pelo desejo), ele liga para um desses serviços de sexo por telefone e passa a ser perseguido pelo personagem de Philip Seymour Hoffman, o ator-fetiche do diretor. Hoffman é ótimo, como sempre, mas o filme é de Sandler.

sábado, 6 de outubro de 2007

Devoção à barulheira

Por que, no caso do heavy metal, falar de"tribo roqueira" é mais do que uma metáfora

Sérgio Martins

Metaleiros: pose agressiva para compensar a timidez

Os punks, os góticos, os emos – admiradores de todos os gêneros de música pop costumam se reunir em grupos com gírias, roupas e adereços próprios. São as tais tribos urbanas. A expressão, claro, tem sentido figurado. Entre os fãs de heavy metal, porém, quase se pode utilizá-la na acepção literal. "Os metaleiros me fazem lembrar de tribos guerreiras do passado. Mais do que a afinidade musical, eles têm uma espécie de comprometimento ideológico", diz o antropólogo Sam Dunn, um dos três diretores do documentário Metal: uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (Canadá, 2005), em cartaz desde sexta-feira no país. E talvez seja até mais apropriado dizer que os fãs do metal formam uma seita, tal a devoção às vezes irracional com que eles seguem os mandamentos de seus ídolos. Em uma das cenas mais bizarras do filme, um fã tatua o nome da banda Slayer no braço – e a tinta usada é o seu próprio sangue. Dunn e seus dois co-diretores, Scott McFadyen e Jessica Joy Wise, retratam o metal e seus exaltados fãs de forma generosa. Mas são também realistas na caracterização, digamos, psicossocial do metaleiro típico. Ele é em geral um jovem tímido e não muito hábil com as meninas (a seita é majoritariamente masculina). As guitarras distorcidas, a bateria acelerada e as letras que falam de demônios e exaltam a misoginia oferecem uma forma de extravasar ressentimentos.

O diretor Sam Dunn na Noruega: ele é antropólogo

O documentário traz entrevistas com ídolos do metal, como Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath, e Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden. Alguns até demonstram lampejos de inteligência. Alice Cooper cita os massacres comuns nas peças de Shakespeare para defender um de seus shows – que, nos anos 70, foi censurado sob a alegação de que era "sangrento" demais. "Será que esse pessoal nunca leu Macbeth? Faz parte do currículo escolar inglês", diz o cantor. Não se segue daí que a mitologia pobrinha do heavy metal seja comparável aos dramas elisabetanos. A seita metaleira, afinal, tem um uso mais notório para a cabeça: seus integrantes a balançam em ritmo feroz durante os shows. Felizmente, a maioria deles limita-se a soltar suas bruxas no terreno seguro de festivais como o de Wacken, na Alemanha, exibido no documentário. Mas há extremistas. Na Noruega, o vocalista da banda Burzum foi preso por incendiar igrejas cristãs. O país escandinavo abriga os expoentes do black metal, subgênero que pretende levar a sério o satanismo que para bandas como Black Sabbath era só recurso cênico. "Satã é liberdade", prega o líder da banda Gorgoroth, entrevistado em Metal. É, os fiéis falam em línguas estranhas.

Fonte: Diário Catarinense - 06/10/07

Osso duro de roer

Tropa de Elite é um retrato da guerra urbana brasileira, vista da perspectivade um dos lados combatentes: os policiais

Jerônimo Teixeira

O capitão Nascimento (Wagner Moura) "lida" com um bandido: um batalhão de policiais honestos, mas violentos como cães de guerra

O tiroteio crítico é quase tão intenso quanto os choques entre policiais e bandidos na tela. Tropa de Elite (Brasil, 2007) só entrou em cartaz na sexta-feira no Rio e em São Paulo (a exibição no resto do país começa no dia 12), mas há tempos é um filme discutido, e também um dos mais vistos no país: pelo menos 1 milhão de DVDs piratas foram vendidos desde agosto. Depois de sua exibição no Festival do Rio, no mês passado, a patrulha ideológica abriu fogo: o filme do diretor José Padilha foi acusado de aceitar a tortura (veja quadro na pág. 137) e criminalizar o usuário de drogas. A indefectível pecha de "fascista" também foi levantada. Tudo bala perdida: Tropa de Elite não é nada disso. É um retrato desassombrado da violência urbana brasileira (ou, mais especificamente, carioca), do ponto de vista dos policiais que matam e morrem na guerrilha das favelas – de certa forma, é uma perspectiva complementar à de Cidade de Deus, que apresentava a mesma tragédia pelo lado de favelados e traficantes. Protagonista e narrador do filme, o capitão Nascimento, interpretado com uma convicção assustadora por Wagner Moura, espanca drogados, aterroriza moradores inocentes, tortura a mulher de um bandido e executa traficantes. Ele expõe suas razões com uma sinceridade fria. Tropa de Elite apresenta o ponto de vista de Nascimento, mas não o referenda. É um filme incômodo, o que talvez seja seu maior mérito.

A tropa de elite referida no título é o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope. Treinados para a guerrilha urbana, seus membros só entram em ação em situações excepcionais, no combate em favelas. "O Bope é uma espécie de aerossol da criminalidade. Quando as moscas se acumulam, você passa o inseticida e elas morrem – mas logo vêm outras. Da mesma forma, o Bope entra na favela, mata uns marginais, mas logo aparecem outros", diz José Vicente de Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública. O filme se passa em 1997, época em que o Bope tinha pouco mais de 100 integrantes. "O PM que conseguia passar nas provas de admissão do Bope entrava para uma verdadeira seita, cujos valores incluíam a recusa de toda forma de corrupção, mas também o exercício de uma violência sem limites", explica o antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor, ao lado dos policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, do livro Elite da Tropa (Objetiva), que inspirou o filme. Hoje, o Bope já conta com 400 integrantes – o que representa cerca de 10% do efetivo da PM carioca – e perdeu esse caráter de seita fechada. As queixas registradas contra o batalhão na ouvidoria da Polícia Militar, porém, ainda dizem respeito quase exclusivamente a casos de violência e abuso, e não de corrupção. O Bope só participa de ações localizadas e portanto não convive com a população, o que diminui as oportunidades para pedir propinas. Seus membros também são mais bem remunerados do que o PM convencional – têm uma gratificação de 500 reais sobre o salário básico de 780 reais.

Os policiais novatos Neto e Matias carregam o cadáver de um marginal: honestidade cercada de podridão

A história de Tropa de Elite se centra no esforço do capitão Nascimento para deixar o Bope. Ele está para ganhar um filho e não quer mais participar de ações arriscadas. Precisa encontrar alguém que o substitua na tropa. Os melhores candidatos são os novatos Neto (Caio Junqueira) e André Matias (André Ramiro, ex-bilheteiro de cinema que também é novato na carreira de ator). O Bope aparece para os dois como uma ilha de honestidade no meio da podridão da PM convencional. Cada um dos dois aspirantes tem seus méritos e limitações. Neto gosta da dureza militar, mas é impetuoso demais, a ponto de às vezes colocar os companheiros em risco desnecessário. É um homem dividido. Cursa direito em uma faculdade privada e esconde dos colegas que é policial.

O núcleo dramático formado por Matias e seus colegas é um dos pontos mais polêmicos – e acertados – do filme. Os estudantes são críticos da violência policial, mas condescendentes com os bandidos de quem compram drogas. Alguns fazem trabalho voluntário em uma ONG que opera no Morro do Turano em virtual cumplicidade com o tráfico. O filme é duro na sua caricatura dos "playboyzinhos" que sustentam a bandidagem, mais duro até do que no retrato de bandidos e policiais. Estes têm clareza do papel brutal que lhes cabe na guerra das favelas. O comprador de drogas, ao contrário, vive no inferno das boas intenções: escuda-se nas "passeatas pela paz" para justificar suas contravenções hedonistas. "O usuário recreativo sabe que as drogas que ele compra vêm de grupos armados que controlam comunidades carentes. Ele faz uma escolha consciente de sustentar o crime. Não há como argumentar contra esse fato", diz Padilha.

Na exibição de Tropa de Elite no Festival do Rio de Janeiro, houve gente da platéia "torcendo" pelo Bope, com gritos de "caveira, caveira" (o logotipo do batalhão é uma caveira atravessada por um punhal). Tropa de Elite parece estar isolado entre duas formas de incompreensão: a patrulha ideológica e uma claque difusa que, revoltada ou confusa com o cerco da criminalidade, acredita que o policial "justiceiro" é a solução. Tropa de Elite, afinal, se vale de algumas convenções do filme policial americano – por exemplo, o policial que vinga a morte do parceiro –, em que justiceiros como o "Dirty" Harry de Clint Eastwood têm uma longa tradição. Mas há diferenças óbvias: nem o truculento vingador interpretado por Charles Bronson na série Desejo de Matar ameaçaria empalar com um cabo de vassoura um garoto cujo único crime foi ter aceito um par de tênis de presente dos traficantes. A torcida da caveira talvez seja mais um sintoma da crise moral e institucional que ronda a segurança pública no Brasil. Há algo de profundamente errado em uma sociedade que só aplaude sua polícia quando ela se comporta como o bandido.

NA FRONTEIRA ENTRE A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE

"Todo policial do Bope sai do quartel com seu saquinho plástico. Serve para pôr na cabeça do marginal, apertando bem na base, que fica amarrada no pescoço. O sujeito sufoca, vomita e desmaia. É meio nojento, mas eficaz." Assim o livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, descreve o que seria a técnica mais utilizada pelos policiais para obter a localização de armas e drogas. O capitão Nascimento de Tropa de Elite é um adepto do saco plástico. Entre os 3 milhões de espectadores estimados da versão pirata do DVD, há os que se horrorizam com essas cenas de tortura – mas há também quem a aprove como forma de lutar contra a bandidagem. Essa discussão que o filme enseja no Brasil tem sido intensa nos Estados Unidos há três anos, desde a divulgação de fotos de presos torturados na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

O estado de emergência imposto pelo terrorismo entre os americanos fez com que a idéia de que a tortura é justificável em alguns casos passasse a ser defendida. Em Not a Suicide Pact (Não um Pacto de Suicídio), Richard Posner, um dos mais respeitados juristas americanos, escreveu que "interrogatórios coercitivos que se aproximem da tortura ou a incluam podem resistir a contestações constitucionais, desde que os resultados de tais interrogatórios não sejam utilizados em processo criminal". Traduzindo do legalês: a Constituição americana admite a tortura se as informações obtidas não forem utilizadas para levar o torturado a julgamento. A proposição é discutível, já que a oitava emenda da Constituição americana, de 1791, proíbe, com muita clareza, "punição cruel e pouco usual". Um consultor jurídico da Casa Branca, John Yoo, tentou contornar essa interdição, estreitando a definição de tortura para enquadrar somente práticas que possam causar a morte.

Os liberais que se opõem ao governo Bush têm se enredado em considerações igualmente capciosas. Argumentam, por exemplo, que as informações obtidas de terroristas torturados são irrelevantes ou pouco confiáveis. Se fosse esse o problema, bastaria desenvolver técnicas mais apuradas para infligir dor. Com essa ênfase canhestra na eficiência do interrogatório, não é de estranhar que o herói ficcional da era do terror seja Jack Bauer. Interpretado por Kiefer Sutherland na série 24 Horas, o agente do contraterrorismo não hesita em esgoelar, espancar ou dar choques nos inimigos. Como o capitão Nascimento, Bauer nunca deixa de cumprir sua missão. A suposta "eficiência" do saco plástico e do fio elétrico, porém, não deveria sequer entrar em questão. A tortura deve ser recusada porque ultrapassa uma fronteira muito nítida entre a civilização e a barbárie. Não existe falácia jurídica ou malandragem conceitual que a torne admissível.