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segunda-feira, 2 de junho de 2008

A nossa surpresa em Cannes

Fonte: Revista Época - 02/06/08

A atriz Sandra Corveloni arrebatou o júri do Festival e ganhou o segundo principal prêmio do cinema mundial logo na sua estréia

Rodrigo Turrer

"O prêmio me tirou da tristeza e da prostração"
Sandra Corveloni gastou a última semana explicando ao mundo quem é. “Minha rotina agora é dar entrevistas”, diz a atriz de 43 anos. Justificável. Afinal, a desconhecida Sandra embasbacou o mundo do cinema em Cannes ao desbancar as divas Juliane Moore e Angelina Jolie, arrebatar oito dos nove votos do júri e ser escolhida a melhor atriz do Festival por sua atuação em Linha de Passe, dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas. De lá pra cá, ela trocou o relativamente pacato revezamento entre família, aulas de teatro que ministra e ensaios de peças, por uma média de dez entrevistas diárias. “Minha vida virou de cabeça pra baixo. Estou sempre pendurada no telefone.” O sinal das mudanças é visível. Sandra agora vive cercada por assessores, que monopolizam suas entrevistas e controlam seu tempo com rigor britânico. Também leva uma amiga a tiracolo, para ajudar com os celulares e relaxar de vez em quando, “porque ninguém é de ferro, né?!”. O espaço em branco nas folhas de sua agenda sumiu. Assim como sua voz, que de tanto falar com jornalistas ficou rouca. A transformação em celebridade instantânea ainda é recebida com estranhamento pelo marido, o professor de italiano Maurizio de Simone, com quem é casada há uma década, e pelo filho Orlando, de seis anos. “Ele não está entendendo nada, tadinho”, diz Sandra. Era com Orlando que ela brincava na sala da sua casa, na zona sul de São Paulo, “desligada do festival”, quando recebeu a ligação confirmando sua vitória. E dando início a vertiginosa caçada da imprensa por suas declarações. Tamanho assédio pode ser compreendido pelo ineditismo do feito de Sandra. Linha de Passe é sua estréia no cinema. Antes desse filme, ela havia trabalhado em meia dúzia de curtas experimentais. Seus vinte anos de carreira foram dedicados aos palcos. No papel de Cleuza, uma empregada doméstica moradora da periferia de São Paulo, grávida e mãe de quatro filhos que querem mudar de vida como jogadores de futebol, ela ganhou o principal prêmio cinematográfico do planeta depois do Oscar. É verdade que Cannes aposta em novatos - mas nem tanto. Sandra é uma das raras atrizes a emplacar com o troféu máximo do festival logo de cara. Nessa entrevista, ela fala sobre essa conquista, as dificuldades para se tornar atriz profissional, e como o prêmio a ajudou a sair de uma tristeza profunda por causa da perda de uma gravidez.
ÉPOCA - Como você soube que havia recebido o prêmio?
Sandra Corveloni - Eu sabia que, por volta de três horas da tarde, estava começando a cerimônia de premiação, e pensei em entrar em contato com a Daniela [Thomas, diretora do filme com Walter Salles], em Cannes. Mas não liguei. Comecei a brincar com o meu filho, fazer as minhas coisas, e estava desligada de Cannes quando tocou o telefone. Era a Ana Luiza, assessora de imprensa do Linha de Passe. Estava uma loucura, porque ela falava comigo, falava com o Walter, com todo mundo que estava do lado dela, uma baita confusão. Ela me deu parabéns e eu perguntava: “parabéns por quê?”. Em seguida, ela me disse que ligaria depois, de novo. Fui para internet procurar, e nada. Logo ela me ligou, e disse “confirmadíssimo! Você ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes”. Foi uma gritaria, uma choradeira. Meu filho não entendia nada, perguntou se minha peça tinha ganhado.
ÉPOCA - Você esperava ser escolhida quase por unanimidade como melhor atriz?
Sandra - Eu esperava um prêmio coletivo. Sempre torci por isso. Mas eu não esperava que a minha personagem arrebatasse o júri dessa maneira. Eu achei que o filme tinha potencial, poderia até ganhar como melhor filme. A história vai fundo na alma da família, na ausência de um pai, das oportunidades escassas, da violência, um tipo de realidade de muitas famílias brasileiras. E é um filme coletivo. Apesar de a Cleuza ser a única mulher, a mãe, ou como disse o Walter Salles, a coluna moral para onde os filhos sempre voltam, ela não é a protagonista. Por isso nunca passou pela minha cabeça que eu poderia ganhar.
ÉPOCA - O que significou pra você essa premiação?
Sandra - Olha... a ficha ainda não caiu. Claro que estou felicíssima, honradíssima. Abre uma janela enorme para mim. Mas está uma loucura, porque logo que soube da premiação começaram os telefonemas e as entrevistas. Minha vida virou de cabeça pra baixo. Eu tenho falado pelos cotovelos. Todo mundo quer saber como foi. E é normal. A gente tem de compartilhar mesmo.
ÉPOCA - Quais as principais mudanças que você sentiu na sua rotina?
Sandra - Minha rotina agora é dar entrevistas. Eu estou sempre pendurada no telefone. Em casa, eu não consigo. Tento manter um tempo para ficar com meu filho, fazer as coisas da escola com ele, mas está bem difícil. De domingo à tarde até agora tenho dado quase dez entrevistas por dia. Está impossível ficar com ele, conversar. Até pra comer, dormir, trocar de roupa está difícil.
ÉPOCA - E sua família?
Sandra - Meu filho Orlando, de seis anos, não está entendendo nada, tadinho. Aliás, outro dia na TV disseram que ele tinha cinco anos, e ele ficou bravo. Disse: “eles falaram que tenho cinco. Mas eu tenho seis. E meio” (risos).
ÉPOCA - Você é uma atriz de teatro consagrada, com mais de 20 anos de carreira, mas nunca teve tanta atenção da mídia como agora. Esse assédio, digamos, tardio, da imprensa a incomoda?
Sandra - Não. Acho supernatural que as pessoas queiram saber. É importante. Claro, a gente de teatro batalha pra conseguir matéria e tem dificuldade para sair em jornais e revistas. Mas, ao mesmo tempo, acho que estou divulgando o trabalho do teatro e dos atores, além do filme. É um trabalho que vai levar para o mundo inteiro uma realidade do cinema e do teatro brasileiro, porque no filme tem uma porção de gente de teatro.
ÉPOCA - Como foi passar do teatro para o cinema?
Sandra - Foi bem tranqüilo. Trabalhei muito com a Fátima Toledo [preparadora de elenco]. E o Walter e a Daniela sabiam exatamente o que queriam. Foi um processo profundo de trabalho, sem correria, sem pressa para ficar pronto. Então foi fácil. Claro, sou atriz de teatro, e um pouco exagerada por natureza. Então, no começo, eu sempre era alertada, “menos, Sandra, menos”. Mas depois foi natural, e não senti tanta diferença.
ÉPOCA - Por que você demorou para estrear no cinema?
Sandra - Eu já tinha feitos alguns testes antes. Mas sempre perdi oportunidades porque estava muito envolvida com o trabalho no teatro. Às vezes não dava para conciliar. Dessa vez a Denise Weinbberg [atriz], que está no filme, me indicou para fazer o teste. Eu fiz uma vez, eles gostaram, fiz outro... No total, fiz três testes com a preparadora de atores, e um teste para câmera. Eles aprofundaram os testes e gostaram. E eles também sabiam o que queriam, o que estavam procurando, o que ajudou muito.
ÉPOCA - No filme você interpreta uma mãe-coragem, uma mulher que vive na periferia e é mãe e pai de quatro garotos que sonham em mudar de vida como jogadores de futebol. Aquela paisagem da periferia não é totalmente estranha para você, certo?
Sandra - Não. Como já fiz teatro em muitos lugares de São Paulo, conheço bem a cidade. Não me assustou aquela periferia da Zona Leste, mesmo tendo ficado lá só uma semana. Participava de caravanas da prefeitura e já me apresentei em todos os lugares possíveis, fiz espetáculos itinerantes nos confins da Zona Sul à Zona Norte. Você passa por tudo. Conheço muito São Paulo e sabia como era.
ÉPOCA - Mas você também vem de uma família humilde, não?
Sandra - Sim. Nasci em Flórida Paulista, no interior de São Paulo, e vim para a capital [paulista] com cinco anos. Eu, meus pais, uma irmã e um irmão mais velhos. Meu pai era agricultor, tinha um sítio lá e as coisas estavam difíceis. Ele se cansou daquela vida e resolveu aproveitar um convite de uma tia minha, que prometeu ajudar e sabia de um trabalho pra ele, numa gráfica. Viemos morar em Pirituba. Mas, na minha infância, ali era bem mais tranqüilo. Pirituba parecia uma cidade do interior, todo mundo se conhecia, a gente ia a pé pra escola. Então, meu conhecimento da periferia é muito mais pelas minhas viagens por São Paulo.
ÉPOCA - E como você começou a estudar teatro?
Sandra - Queria alguma coisa, mas não sabia o que era. Tinha feito colégio técnico no Senai e estava bem encaminhada. Havia ido bem num estágio no Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP, e arrumei um emprego bacana. Mas não estava feliz. Quer dizer, tinha 19 anos, ganhava superbem, fazia um trabalho legal, que eu gostava, mas... não estava bem. Então comecei a fazer umas aulas de dança, de expressão corporal, e percebi que aquilo tinha a ver comigo. Comecei a procurar coisas mais específicas no teatro, e fiz uma oficina no Sesc Pompéia. Me apaixonei. Aí emendei uma coisa na outra. Montei grupos de teatro amador, depois de me formar no Tuca [Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]. E logo depois, em 1991, fiz Beckett In White, minha estréia profissional. Foi quando participei de uma oficina no Tapa [coletivo teatral paulista], e fiquei. Faço trabalhos com outros grupos, claro, mas estou no Tapa há uns 15 anos. Sempre em contato com eles.
ÉPOCA - Você passou por muitas dificuldades pra se tornar atriz, então?
Sandra - Nossa! Levei muita porta na cara e balde de água fria na cabeça. Fiz teatro em empresas, para alertar sobre segurança no trabalho e era horrível. Quando fazia escola de teatro, fiz até animação de festa infantil. Era uma loucura. Um dia, estava vestida de Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo e as crianças cortaram minha peruca. Aí falei: “chega” e larguei isso. Mas fazer teatro é sempre meio difícil.
ÉPOCA - Sei que é um assunto delicado, mas você sofreu um aborto recentemente. Como é lidar com dois sentimentos tão distantes: a dor pessoal da perda, e a conquista profissional inesperada?
Sandra - Na verdade sofri um parto prematuro. Era um bebê grande, de cinco meses, bem desenvolvido. Foi complicado. Tive várias complicações, passei por cirurgias. Foi uma loucura. Isso foi no dia 6 de maio. Por isso eu não fui pra Cannes. Mas realmente é estranho. [Silêncio] Isso me tirou da tristeza, um pouco. Me obrigou a levantar de qualquer jeito. Foi um presente na minha vida. Me tirou da tristeza e da prostração. Estava muito, muito, muito triste. Com o prêmio, tive que sacudir a poeira e virar meu pensamento, mudar o foco completamente. E de uma certa forma foi muito bom, eu melhorei. Fiquei melhor emocionalmente.
ÉPOCA - Como você não foi para Cannes, ainda não recebeu o prêmio em mãos, certo?
Sandra - Não. Acho que vou pegá-lo só nesta semana. Estou ansiosa para ver o Walter voltar de Cannes com o prêmio. Vamos nos encontrar para conversar sobre o filme, porque ainda tem muita coisa para acontecer, foi só o primeiro festival. Vou ficar feliz quando receber, porque é o símbolo disso tudo que está acontecendo.
ÉPOCA - Você está ansiosa quanto ao futuro? Já tem novos projetos?
Sandra - Vou trabalhar na divulgação do filme, que estréia no segundo semestre. E tenho muitos projetos com o Grupo Tapa. Eu continuo de co-dirigindo o espetáculo “Amargo Siciliano”. Ainda não recebi novos convites profissionais.
ÉPOCA - Acha que pode ser indicada para novas premiações? Um Oscar, como a Fernanda Montenegro depois de ganhar o Festival de Berlim por "Central do Brasil"?
Sandra - Não penso muito nisso, para ser sincera. Tudo pode acontecer, mas não quero ficar criando expectativas, viajando nessas. Sou muito pé-no-chão, e não gosto de contar com o ovo dentro da galinha.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Entrevista: Lucrecia Martel

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 23/05/08

O mais argentino dos filmes de Lucrecia Martel

Em La Mujer sin Cabeza ela volta a falar da família e leva espectador à reflexão

Luiz Carlos Merten

Lucrecia Martel confessa-se surpresa e até mesmo um tanto perplexa. Ela pensou que estava fazendo com La Mujer sin Cabeza seu filme mais comercial, ou pelo menos o mais fácil, com o qual finalmente ganharia dinheiro no cinema - e ri quando conta isso -, mas a reação das pessoas nas entrevistas que tem dado, aqui no 61º festival, indicam que, na verdade, ela deu um grande nó na cabeça dos espectadores.

Por que você achou que A Mulher sem Cabeça seria mais facilmente assimilável do que O Pântano e A Menina Santa?

Porque este é um clássico filme em três atos. Bem, talvez exagere um pouco ao dizer ''clássico'', mas La Mujer sin Cabeza tem esses três momentos muito específicos - o acidente, a suspeita de uma mulher, de que pode ter matado alguém, e os desdobramentos do caso. Achei que tudo isso era mais claro do que a construção de meus filmes anteriores, mas pelo visto me enganei. Muita gente com quem tenho conversado simplesmente não entende o filme, ou me acusa de ter dificultado as coisas para o público.

Talvez seja o preço que você tenha de pagar por seu cinema, que não é exatamente conforme o modelo que o público brasileiro adora - histórias simples e humanas, contadas de forma direta. Digo isso, mas faço a ressalva de que seu cinema tem um público entusiasmado no circuito alternativo brasileiro...

Não tento complicar desnecessariamente as coisas. Para mim, o cinema é um sistema de pensamento. O plot, a trama, nunca é o mais importante, mas eu não posso me desligar dela, porque senão não conseguiria articular um discurso coerente. Acho que a riqueza do cinema argentino está na sua diversidade. Ainda não vi Leonera, mas ouço que Pablo (Trapero) criou uma história forte. Lisando Alonso, com quem talvez me identifique mais, está aqui com Liverpool. Ele é muito bom na sua maneira de partir de um detalhe para conseguir abordar o mundo. Cada um tem o seu estilo. O meu consiste em criar uma estrutura que expresse o que penso e também convide o espectador a pensar.

A piscina, a religião, o segredo - aqui a suspeita -, a família apodrecida, a vida na província. Todos os seus temas reaparecem aqui.

Mas são os temas que me interessam. Cresci numa cidade de interior, integrante de uma família enorme. Um clã, por assim dizer. É natural para mim colocar todas essas coisas em meus filmes, mas eu espero não me repetir. Essas coisas estão no filme, mas a serviço de outra reflexão.

Sobre o quê, exatamente?

Prosseguindo com aquilo que você falou antes, sobre as histórias simples e humanas, acho que isso é só uma parte do cinema e da realidade argentinos. Dou-me agora conta de que Uma Mulher sem Cabeça, que para mim é simples, é o mais argentino dos meus filmes e isso o torna complicado para o restante do público mundial.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A volta de Indiana Jones

Fonte: Revista Isto é - Acesso em 19/05/08 - http://www.istoe.com.br/

Ausente dos cinemas há duas décadas e agora interpretado por um Harrison Ford sessentão, o popular herói dos filmes de aventura retorna em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal

IVAN CLAUDIO Colaborou Natália Rangel

EM FORMA Indiana Jones (Harrison Ford) briga com um soldado russo na nova aventura filmada, em parte, em florestas do Havaí

As novas gerações não viram Indiana Jones nos cinemas – a sua última aparição nas telas aconteceu em 1989. Pois bem, um dos heróis recentes mais aclamados dos filmes de aventura está de volta depois de quase duas décadas de descanso em sua quarta e eletrizante apresentação, no aguardado filme Indiana Jones e o reino da caveira de cristal – estréia no Brasil e em diversos países no feriado da quinta-feira 22. O seu retorno marca também o reencontro de três das maiores estrelas de Hollywood: Steven Spielberg, diretor de toda a série, George Lucas, criador do personagem e dos enredos, e o ator Harrison Ford, que aos 65 anos encarna mais uma vez o corajoso e bem-humorado Indiana. É para as novas gerações que se endereça a atual versão: Indiana Jones é um professor e arqueólogo americano que enfrenta tribos selvagens, árabes ensandecidos e nazistas armados até aos dentes em explorações arriscadas nos confins do mundo, tudo para ganhar a posse de raridades arqueológicas dotadas de poderes sobrenaturais. Apesar da coragem com que enfrenta perigos de toda ordem, ele tem um ponto fraco: morre de medo de cobras. Uma de suas idiossincrasias, comum em todas as histórias anteriores e que até virou parte de seu charme, continua presente: o personagem veste no calor dos trópicos uma jaqueta de couro, não a tira sob nenhum pretexto, e usa um chapéu de feltro mais apropriado ao inverno dos EUA. Mantém ainda o seu chicote afiado. As três aventuras (a primeira foi em 1981), que estão sendo relançadas em DVD, renderam em bilheteria cerca de US$ 1,18 bilhão.

O arqueólogo conta a com a ajuda de Mutt (Shia LaBeouf) e Marion (Karen Allen)

Desde que foi anunciada a filmagem desse quarto episódio, uma superprodução de US$ 125 milhões, ele passou por diversos títulos. Alguns deles: Indiana Jones e a cidade dos deuses, Indiana Jones e o destruidor dos mundos, Indiana Jones e os quatro cantos da terra, Indiana Jones e a cidade perdida do ouro, Indiana Jones em busca da santa aliança. Como parte de uma calculada estratégia de marketing, toda vez que Spielberg se referia ao novo trabalho dizia apenas que estava se divertindo bastante com “Indiana Jones e ...” – soletrava então, de forma incompreensível, qualquer coisa sem sentido. A expectativa foi crescendo até que o ator Shia LaBeouf, que interpreta o novo parceiro de aventuras de Indiana, soltou o título da produção durante o MTV Music Awards, em setembro do ano passado. A partir daí, o tal “reino da caveira de cristal” passou a cintilar na curiosidade dos fãs, mas ninguém estava autorizado a dizer nada sobre o que se passava dentro dos quatro estúdios em que Spielberg enfurnou-se por três meses (as cenas de florestas tiveram locações naturais no Havaí). Como quem guarda um tesouro, o diretor exigiu que os atores e toda a equipe técnica assinassem um termo de compromisso que os proibia de revelar qualquer detalhe da produção. Foi o ator Tyler Nelson quem cometeu a inconfidência. Mero figurante do filme (interpreta um soldado russo que dança balalaica), ele concedeu entrevista a um jornal de sua cidade natal, a obscura Edmond, em Oklahoma, revelando que a história mostrava Indiana Jones e o exército soviético brigando por uma relíquia de quartzo. Foi processado por Spielberg e na montagem final cortaram a sua dança folclórica.

Passada em 1957, em plena Guerra Fria, que opôs o países capitalistas e comunistas (respectivamente capitaneados pelos EUA e pela extinta União Soviética), a trama mostra Indiana Jones numa expedição particular ao Peru em busca da tal peça sumida. Não se trata de uma relíquia qualquer: o objeto sagrado pertence ao reino de Akator (referência ao reino subterrâneo de Akakor, que teria existido na fronteira entre o Brasil e o Peru) e guarda poderes desconhecidos que podem levar um povo a dominar o planeta. Os russos, por exemplo, e seu batalhão de homens de verde. À frente deles está a bela e fria oficial Irina Spalko, cujo papel ficou a cargo de Cate Blanchett. Spielberg quis que Cate tivesse ares da estrela alemã Marlene Dietrich, famosa por interpretar espiãs nos anos 30. Do outro lado do confronto, está Indiana e ele ganhou um amigo bem mais jovem, o “rebelde sem causa” Mutt Williams, interpretado por Shia LaBeouf. Spielberg pediu que o ator assistisse aos filmes Juventude transviada (com James Dean) e O selvagem (com Marlon Brando) para que entrasse no clima de seu personagem. LaBeouf não economizou na brilhantina do topete empinado. Algo pode parecer errado para os saudosistas que esperam ver na tela um personagem estacionado no tempo no que diz respeito a sua idade – ou seja, esperam pelo Indiana Jones jovem das três aventuras anteriores. É justamente aí que está um dos golpes de mestre de Lucas e Spielberg: eles envelheceram 20 anos o personagem para, dessa forma, poderem manter o galã Harrison Ford nesse papel. Tem-se, assim, um Indiana Jones sessentão.

Esse foi, com certeza, um dos fatores que emperraram o projeto desse quarto episódio: ainda que quisesse, Ford não conseguiria encarnar um Indiana com o mesmo vigor de duas décadas atrás. Ele está em forma, mas o tempo é implacável também para os astros e impõe os seus limites. Segundo o ator, que se submeteu a uma dieta de proteínas e a três horas diárias de academia, basta colocar o chapéu de feltro e a jaqueta de couro para o personagem “baixar” novamente. E ele jura ter dispensado dublês em muitas cenas de ação: “No primeiro filme eu rompi um ligamento do joelho, no segundo tive um problema nas costas que me levou à cirurgia em meio às filmagens. Agora, apesar de mais velho, não saí com nenhum machucado.” Há, no entanto, outro motivo para a demora no retorno do herói às telas. Em entrevista à revista americana Vanity Fair, Lucas contou que tanto Spielberg quanto Ford não gostavam da história que ele havia lhes apresentado, ainda em 1993. Nesse ano, Lucas se encontrara com Ford nas filmagens do seriado de tevê O jovem Indiana Jones e veio então a idéia de retomar a saga, desde que estivesse presente nela a tal caveira de cristal. “Sem a caveira, nada de Indiana”, dizia Lucas. Ao longo de 15 anos a história foi sendo desenvolvida por roteiristas do porte de N. Night Shyamalan (O sexto sentido), Frank Darabont (Um sonho de liberdade) e Chris Columbus (Harry Potter e a câmera secreta). Chegou- se enfim a um acordo (caveira mantida) justamente com a versão que envelhecia o herói. “O personagem batia com a minha idade, vivia um outro momento histórico e o que li era um grande roteiro. Então respondi: legal, vamos fazer mais um”, disse Ford. Com esses ajusajustes, outras novidades foram sendo incorporadas. A primeira delas é que, com a ação no período da Guerra Fria, a referência cinematográfica não deveria mais ser os matinês dos anos 30: a trama tem agora um jeitão de ficção científica série B. Não faltam, é claro, as impagáveis cenas de areia movediça, típicas dessas produções mais baratas.

VILÃ Cate Blanchett interpreta a militar Irina Spalko, em raro papel de ação

Sempre perfeccionista, Spielberg mandou o fotógrafo Janusz Kaminski “estudar” todos os títulos anteriores filmados por Douglas Slocombe para que o visual do presente não destoasse demais. Outra operação se deu em relação à reconstituição de cenários, como a Universidade Marshall, onde Indiana Jones dá aula com o nome de Henry Jones. O diretor evitou também o ritmo frenético dos blockbusters atuais porque acredita que o humor e a graça do personagem e das situações que ele vive vêm da tradição da comédia muda de Charles Chaplin e Buster Keaton. “Para conseguir o lado cômico que procuro nos filmes de Indiana, só mesmo sendo fora de moda”, disse Spielberg ao jornal The New York Times. Resta saber, no entanto, se a nova geração, que não teve a felicidade de ver Indiana Jones nos cinemas, vai gostar desse estilo cool e pleno de referências ao passado. Em 1981, quando Lucas e Spielberg revolucionaram os filmes de aventura, eles eram os grandes e terríveis rebeldes em Hollywood – Spielberg tinha 35 anos e ainda não filmara o seu clássico E.T. – o extraterrestre; Lucas contava 37 anos e se consagrava com O império contra-ataca. Hoje, os enfants terribles do cinema americano são os irmãos Wachovski, adeptos de uma estética bem mais alucinante. Mas bastou o trailer do novo Indiana Jones ser colocado no ar para, em cinco dias, ser visto por mais de dois milhões de internautas (o equivalente a 278 acessos por minuto). A julgar por esse número, o velho Indiana Jones ainda tem fôlego para muitas aventuras.

“SOU IMPREGNADO DE INDIANA JONES”

ISTOÉ – Qual é a sua lembrança do primeiro convite para interpretar Indiana Jones?
Harrison Ford – Tom Selleck fora convidado, mas não pôde aceitar porque estava comprometido com uma série televisiva. Recebi então um telefonema de George Lucas me pedindo para ler o roteiro e depois encontrar Steven Spielberg em sua casa. Eu não o conhecia, mas estava muito entusiasmado com a história. O encontro foi ótimo. Deu no que deu.

ISTOÉ – É verdade que o personagem iria se chamar Indiana Smith?
Ford – Não tenho idéia de onde George o tirou. O que sei é que Indiana era o nome do cachorro que ele tinha.

ISTOÉ – Como deu tanta personalidade ao personagem?
Ford – Quando se lê que ele anda com um chicote, usa um chapéu de feltro e não tira a jaqueta de couro na selva, percebe-se que ele é uma pessoa particular. É só vestir suas roupas para logo compreender quem ele é. E, então, saber o que o ator tem de fazer.

ISTOÉ – Então foi só colocar de novo o chapéu para ele retornar?
Ford – Sim. Tive uma longa experiência como Indiana Jones e não me surpreende que eu esteja impregnado dele.

ISTOÉ – Por que o público se identifica tanto com Indiana Jones?
Ford – Porque ele vive aventuras imprevisíveis. O que mais atrai, no entanto, é a alegria e o prazer proporcionados por uma história bem contada.

ISTOÉ – O que impressiona em Spielberg?
Ford – A sua fluência e talento cinematográficos. Tem apurado senso de como o cinema funciona e ama todo esse processo, o que dá prazer de trabalhar ao seu lado.

ISTOÉ – Acreditava que seria possível retomar a série depois de 19 anos?
Ford – Eu imaginava que isso iria acontecer um dia. Cinco ou seis anos depois do terceiro episódio, começamos a conversar sobre essa possibilidade.

ISTOÉ – Foram escritos muitos roteiros?
Ford – Algumas versões da história não foram na direção certa, mas eu sabia que iríamos achar o tom.

ISTOÉ – Harrison Ford, 19 anos mais velho, agora com 65 anos de idade. Isso é mostrado com humor no filme?
Ford – Indiana está tão bem conservado como eu.

ISTOÉ – Muitos atores evitam as continuações. Não é o seu caso.
Ford – O show business tem sido generoso comigo.

"Indiana é uma pessoa particular. É só vestir as suas roupas para logo se compreender quem ele é" Harrison Ford, ator

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Entrevista: Juliette Lewis

Ela trocou Hollywood pelo rock

A famosa atriz revela por que prefere a música ao cinema e mostra no Brasil a força de sua banda
Por NATÁLIA RANGEL

Juliette Lewis, 34 anos, vem ao Brasil na próxima semana para mostrar o seu lado roqueiro. Ela e sua banda Juliette and the Licks se apresentarão no País depois de cinco anos de estrada. A americana Juliette, "nascida e criada em Los Angeles", é mais conhecida do público como atriz. Atuou em diversos filmes importantes nos quais trabalhou com prestigiados cineastas - ficou famosa, por exemplo, a cena em que, ainda adolescente, é seduzida por Robert De Niro no aterrorizante Cabo do medo, de Martin Scorsese. Ela também estrelou, ao lado de Brad Pitt, o thriller Assassinos por natureza, de Oliver Stone. Juliette, por sinal, teve um longo namoro com Brad, hoje marido de Angelina Jolie. A atriz não se arrepende do tempo dedicado ao cinema mas deixa claro que gosta mesmo é de música. E de rock. Acaba de lançar o álbum Four on for floor (gravadora ST2) que tem a participação do baterista Dave Grohl, líder do Foo Fighters e ex-Nirvana. De Los Angeles, durante uma folga em sua longa turnê, Juliette falou, por telefone, a
ISTOÉ:

ISTOÉ - Há quanto tempo está em turnê?
Juliette Lewis - Estamos na estrada há um ano e dois meses, viajamos pela Europa, pelos EUA e agora faremos alguns países da América Latina. Mas hoje (quarta-feira 17) estou de folga em Los Angeles, minha cidade. Nasci e me criei por aqui.

ISTOÉ - E foi por aí também que começou logo cedo no cinema?
Juliette - É verdade. Fiz testes e comecei fazendo uns seriados meio trash. Mas logo consegui bons papéis e me deslumbrei com o mundo do cinema. Antes eu já fazia música e sabia que voltaria a trabalhar com isso.

ISTOÉ - E como é trabalhar em Hollywood?
Juliette - Eu adoro cinema. Quando estou escrevendo música, cenas de grandes filmes me vêm à cabeça o tempo todo. Mas você fica um pouco refém da indústria cinematográfica quando trabalha como atriz. Não consegue mais organizar a sua própria agenda e fica encastelada em sets de filmagem. Eu adoro o contato com o público, me traz uma energia poderosa.

ISTOÉ - E como surgiu a banda?
Juliette - Eu tinha medo de montar a minha banda. Sabia que quando começasse a montá-la, isso me tomaria por completo. Desperdicei muito tempo fazendo bobagens antes de tomar a decisão.

ISTOÉ - Que tipo de bobagens?
Juliette - Exagerando no álcool, em drogas em geral, badalando muito. Mas sobrevivi. Acho que aprendi a colocar a minha energia nas coisas certas: a música que fazemos é urgente, perigosa e se propõe a divertir.

ISTOÉ - Foi difícil tomar a decisão de criar o grupo Juliette and the Licks?
Juliette - Eu fiquei muito intimidada no início. Não tinha ainda um ponto de vista do que eu queria. Não sou a guitarrista da banda e era minha responsabilidade achar os músicos, nos inspirarmos mutuamente para começar um trabalho juntos com uma identidade musical. E eu acho que quatro anos depois a gente chegou lá e eu gosto do resultado.

ISTOÉ - O que você acha da decisão do Radiohead de colocar o seu novo CD, In rainbows, diretamente à venda na internet na forma de download e dar a opção aos fãs de pagar o quanto quiserem?
Juliette - Eu estou muito ansiosa em saber como as pessoas vão reagir a isso. É uma experiência muito interessante e moderna. E que só pode ser feita por uma banda que já tem diversos discos lançados, dinheiro e muito sucesso. Eu não acho que uma banda iniciante possa fazer isso. Na verdade, não estou certa. Talvez funcione. Eu sou uma pessoa que compra CDs. Não gosto de ouvir músicas no computador.

ISTOÉ - Onde você guarda as suas músicas favoritas?
Juliette - Eu tenho um iPod, mas até hoje não passei as músicas para ele. Viajei toda a turnê com diversos cases cheios de CDs. A verdade é que computadores dão pau, uma ou outra vez isso acontece. E eu não quero correr o risco de perder todas as minhas músicas.

ISTOÉ - Você toca guitarra?
Juliette - Toco mal. A guitarra me assusta. Os dedos se prendem nas cordas, eu me enrolo toda. Sou muito impaciente. Eu toco piano desde criança e, nesse inverno, quando teremos um tempo livre, vou compor para o nosso próximo disco.

ISTOÉ - No seu novo disco você está pintada e vestida com trajes indígenas. Qual a idéia?
Juliette - Não é nada político, não estou engajada na defesa das populações indígenas. Na verdade, eu admiro a cultura dos bravos guerreiros indígenas e sou fisicamente tão pequena que gosto de me imaginar uma brava guerreira. E a cultura dos povos indígenas é marcada pelo espírito de liberdade, o que acho que me acompanha a vida inteira, especialmente nessa minha decisão de seguir a jornada musical.

"Brad Pitt já foi meu marido, trabalhamos juntos em Assassinos por natureza. Ele é um dos atores que apóiam meu lado musical"

ISTOÉ - E o público? Tem sido receptivo com o seu trabalho?
Juliette - Sinto que sim. Em Londres, há três anos, nós tocávamos para 100 pessoas em pequenos clubes, e hoje voltamos e reunimos 25 mil num estádio. É uma experiência poderosa. Escrever uma música, tocar e sentir pessoalmente isso tudo. É muito poderoso, sinto que achei o lugar certo para estar na vida.

ISTOÉ - Você sente que há algum preconceito pelo fato de você ter vindo do cinema?
Juliette - Entre os músicos não sinto tanto, recebi e ainda recebo a colaboração de muitas pessoas. Mas sei que há críticos que não darão o devido valor ao meu disco por esse motivo.

ISTOÉ - E quais artistas colaboraram na sua carreira musical?
Juliette - O Dave Grohl, do Foo Fighters, toca bateria em todas as faixas do meu novo CD. A P.J. Harvey me emprestou uma canção e eu fiz uma regravação dela (Hardly wait) no meu disco anterior. E sabe como eu aproximo o cinema da música? Eu já gravei trilhas sonoras de cinema. É o caso dessa música. Faz parte da trilha do filme Estranhos prazeres. Mas muitas pessoas colaboraram, inclusive pessoas do cinema, Martin Scorsese, Brad Pitt, muitas pessoas me deram apoio, já foram aos shows.

ISTOÉ - O que você imagina do futuro da música na era digital?
Juliette - Acho que com a internet e as gravadoras perdendo o poder que tinham, o caminho serão os shows. Eu acho que caminha para isso. Sair sempre em turnê e ter uma conexão maior com as pessoas. Muitas pessoas, talvez, não vão dar o valor que mereço por eu ter vindo do cinema, ser uma estranha aqui. Mas essa é a realidade.

ISTOÉ - O que você ouve e admira?
Juliette - Eu adoro os experimentalismos feitos por Nico e John Cage nas décadas de 60 e 70. Nico é inspiradora. Na cena atual, amo Björk, Queen of the Stone Age, Foo Fighters. Acho que são pessoas que estão criando outros sons, investigando e trazendo novidades para a cena musical. Amo tudo que emocione, crie uma imagem ou deixe a mente livre.

ISTOÉ - Musicalmente, o que você ouviu recentemente que mais a impressionou?
Juliette - Talvez uma jam session informal de John Frusciante, do Red Hot Chilli Peppers. Ele estava deitado enquanto fazia milhares de experimentalismos, produzindo sons barulhentos com guitarras. A ponto de deixar qualquer pessoa enlouquecida. E na seqüência, ele mandava outro som, realmente bonito. Quando você assiste ao show, percebe como essa alternância de sons e ritmos é poderosa.

ISTOÉ - Você está feliz?
Juliette - Eu tenho 34 anos, sou uma mulher de verdade agora. Às vezes não acredito que cresci.

ISTOÉ - Por quê?
Juliette - Comecei a trabalhar tão criança, era sempre a mais nova, precoce. E, de repente, virei protagonista. Minha geração já está sendo superada por outras que estão chegando por aí.

ISTOÉ - Você pensa em voltar ao cinema?
Juliette - Sei que farei um filme algum dia. Mas não sinto necessidade de fazer um filme só para fazer um filme. Quero trabalhar com pessoas que estejam tentando quebrar regras e fazendo algo novo em cinema. Gosto do Lars Von Trier, do Dogma (movimento cinematográfico que prega a desglamourização), de Quentin Tarantino.

ISTOÉ - Você é casada?
Juliette - Não. Fui casada até cinco anos atrás e hoje somos ótimos amigos. Eu quero alguém que me mantenha aquecida durante a noite. Mas não agora.
"Adoro as experiências musicais feitas por Nico nos anos 60 e 70. É nela que eu continuo me inspirando"

ISTOÉ - Vai passar muitos dias no Brasil?
Juliette - Não teremos tempo este ano. É uma pena porque seria incrível encontrar músicos brasileiros depois do show. Tocar instrumentos e cantar. É incrível como é possível aproximar as pessoas através da música. Não precisa do idioma, nada, porque já existe uma linguagem.

ISTOÉ - O que você mais gosta nesse disco?
Juliette - Eu adoro a mistura de estilos que ele faz. As canções são muito diferentes entre si. Adoro Inside the cage, é uma das minhas favoritas. Estou orgulhosa desse CD.

ISTOÉ - Como o cinema interfere na sua música e vice-versa?
Juliette - Quando estou compondo sempre me lembro de uma cena, de rostos e lugares onde fui para realizar as filmagens. E é muito bom poder trabalhar com ambas as artes, duas áreas criativas. Eu gosto de misturar linguagens estrangeiras. Também participei de videoclipes, como Come to my window, de Melissa Etheridge.

ISTOÉ - Conhece alguma coisa da cultura brasileira?
Juliette - O Carnaval. Sei que tem algumas partes do País em que há bastante misticismo e diversidade musical. E que tem muito sol. Já ouvi tanta gente dizer que o Brasil tem a melhor música do mundo que estou ansiosa para conhecer mais. Quero conhecer a Bahia, pesquisar sons e percussão.

ISTOÉ - O que espera do show por aqui?
Juliette - É lindo que eu esteja indo para aí nesse momento. Quando decidir formar a banda há quatro anos, logo quis sair em turnê. E o meu empresário, organizando a primeira agenda de shows nos EUA, ainda não tinha nem um disco, e ele me perguntou que cidades eu gostaria de incluir. Eu, para mostrar que tinha grandes planos para a banda e que queria ir realmente longe com ela, disse para ele, coloque aí o Brasil, não sei qual cidade, mas quero ir ao Brasil. O seu país veio à minha cabeça do nada, eu jamais o tinha visitado. Bom, demorou um pouco, mas na semana que vem estarei aí.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Entrevista: Rodrigo Pimentel

Sociedade aceita tortura policial, diz ex-PM que inspirou filme

Rodrigo Pimentel, co-autor do roteiro de "Tropa de Elite" e inspiração para o personagem de Wagner Moura, diz que prática, "lamentavelmente, funciona"

RAPHAEL GOMIDEDA
SUCURSAL DO RIO

Co-autor do livro "Elite da Tropa" e do roteiro do filme de "Tropa de Elite", o ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) Rodrigo Pimentel, que inspirou o personagem de Wagner Moura no longa, diz que a PM do Rio é violenta porque, "lamentavelmente, a tortura funciona". Aos 36 anos, é coordenador de segurança de um banco privado. Ontem, um grupo de 23 oficiais da PM anunciou que entrará hoje na Justiça com um pedido de proibição do filme "Tropa de Elite". Os policiais afirmam que a obra põe em risco a integridade física dos policiais do Bope, além de ser ofensiva à corporação. Planejam ainda uma segunda ação judicial, em que pedirão indenizações por danos morais.

FOLHA - A sociedade aceita a violência e a tortura da polícia?
RODRIGO PIMENTEL - Há no Rio um pacto velado de ignorar os direitos humanos e a tortura. Dezenas de professores, jornalistas, policiais e promotores que viram o filme me ligam, mas ninguém comenta as cenas de tortura. Passam despercebidas. Imaginei que fosse um tratado sobre a tortura e as pessoas a ignoram. O foco passa a ser corrupção policial e tráfico. Cito a morte de João Hélio e a capa de jornais de Rio reproduzindo a foto dos bandidos presos, algemados, e os policiais enforcando os presos, apertando o gogó. Aquela cena por si só já define tortura. Não sou solidário com aqueles bandidos pelo que fizeram, mas não se viu no Rio voz contra isso. A operação do Alemão, por exemplo, acho legítima e gostei do resultado, de 19 mortos.

FOLHA - Gostou?
PIMENTEL - Foi um marco da polícia, que ali saiu da passividade para a atividade, com investimento em inteligência.

FOLHA - Na sua opinião, houve assassinatos no Alemão?
PIMENTEL - É bem provável e razoável [supor] que possa ter havido algum tipo de execução. A OAB, que tradicionalmente tem compromisso com a legalidade, exonerou o presidente da comissão de Direitos Humanos [João Tancredo] que tentou investigar o caso.

FOLHA - Os assassinatos fazem parte do modus operandi da polícia?
PIMENTEL - Boa parte das mortes "em confronto" com a polícia são execuções.

FOLHA - Por que a tortura é usada?
PIMENTEL - Lamentavelmente, a tortura funciona, e o filme deixa isso bem claro. O PM chega ao assassino de um colega com muita rapidez. É eficiente, embora não seja ética nem legal.

FOLHA - E como ocorre na PM?
PIMENTEL - No Bope nunca se pregou a tortura. Nunca um comandante reuniu a tropa e ensinou a torturar, oficialmente. Fiquei sete anos lá -entrei 2º tenente e saí capitão- e nunca vi pregação contra a tortura. Mas nunca vi um comandante dizer: "Não quero, não aceito e vou prender quem fizer".

FOLHA - Em que situações a tortura acontece?
PIMENTEL - Tem uma situação típica da ação policial: o marginal é preso com uma pistola. O PM vai "trabalhar o marginal", esse é o termo, interrogar onde estão os comparsas, as armas, o pó. "Trabalhar" virou sinônimo de tortura. Acredito que o marginal não vá dar tudo isso de mão beijada, até porque terá de prestar contas por isso.

FOLHA - O Capitão Nascimento do "Tropa de Elite" é o senhor?
PIMENTEL - Não, é o Wagner Moura (ri). Na verdade, nasceu de quatro ou cinco capitães.

FOLHA - Como começou seu envolvimento com cinema e seu afastamento da PM?
PIMENTEL - Quando João Salles e Kátia Lund filmaram "Notícias de uma Guerra Particular", fui designado para acompanhá-los no Bope, como uma espécie de censor: ficar ao lado dos soldados, para que falassem só o que deviam. Comecei a lhes contar meus dissabores e decepções. Assinei a autorização para o filme, e meu comandante falou: "Ficou meio esquisito".

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - 10/09/07

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Entrevista: Sílvio Tendler

"O mundo do lado de cá"

Cineasta critica a globalização, diz que o Brasil está permissivo demais e aposta em uma reação que venha das periferias

Por FRANCISCO ALVES FILHO

Sílvio Tendler é um cineasta com curiosa mistura de outsider e campeão de bilheterias. No único intervalo em sua filmografia política, Tendler fez O mundo mágico dos Trapalhões e levou 1,8 milhão de espectadores aos cinemas. É o recorde para um documentário no Brasil. Os segundo e terceiro lugares também são dele, Jango e Os anos JK, respectivamente. Hoje, as bilheterias andam minguadas, mas ele resiste. "Não se pode ter a monotonia do entretenimento, como se no cinema não houvesse espaço para a reflexão", defende. Formado em história, ele discorre nessa entrevista sobre a desorganização social e política do País, a esperança numa renovação vinda das periferias e em novas formas de manifestação dos estudantes, que também lhe serviram de tema para um documentário sobre a UNE. Agora, chega às telas o documentário Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá, em que o intelectual expõe seu conceito de globalitarismo, a opressão patrocinada pelo atual modelo de globalização. "A grande batalha de hoje é pela opinião pública e eu acho que a gente tem de colocar pontos de vista diferentes, alternativos", enuncia Tendler.

Reconhecido por intelectuais de todo o mundo, o geógrafo Milton Santos recebeu o cineasta carioca para expor suas idéias numa tarde de 2001. Durante a conversa, documentada por uma câmera, Santos expôs suas críticas ao modelo de globalização que torna escassos os recursos naturais e empobrece ainda mais os miseráveis. Quase ao fim da conversa, Tendler questionou: "Professor, o que lhe dá a certeza de que suas idéias vão ter algum tipo de conseqüência?" Com os olhos brilhantes e o sorriso simpático, o geógrafo respondeu: "Você". Foi sua última entrevista - ele morreria cinco meses depois, de câncer - e, desde então, Tendler sentiu-se comprometido em multiplicar a mensagem do único acadêmico do Hemisfério Sul a receber o prêmio Vautrin Lud, espécie de Nobel da Geografia. Diabético, cardíaco e hipertenso, o cineasta mantém o bom humor e o espírito provocativo.

ISTOÉ - O que é globaritarismo, conceito criado por Milton Santos?
Sílvio Tendler - Ele formulou essa idéia em 2001, no livro Por uma outra globalização, pouco antes de morrer. É o fundamentalismo que faz do consumo a grande característica da nossa sociedade. A economia se ancora nisso. O mundo está produzindo muito mais do que a sociedade tem capacidade de consumir. Esse processo está levando à destruição do planeta e à desigualdade social. Isso é o globaritarismo: a imposição de padrões consumistas, inclusive a quem não tem condições de consumir. Milton Santos comparou esse fenômeno ao nazismo e ao fascismo.

ISTOÉ - Qual o modelo viável para substituir esse globaritarismo?
Tendler - Milton Santos não foi contra a globalização. Ele diz no filme, inclusive, que nunca houve civilização, agora é que estamos fazendo os primeiros ensaios do que será a humanidade. É contra a perversidade de nossos dias. Temos que construir um futuro melhor. E eu acredito nisso. Outro dia um jornalista me perguntou se eu não achava que a globalização era inevitável. Eu respondi que não só inevitável como necessária, desejada. Não sou contra a globalização. Mas contra esse modelo que permite a circulação de mercadorias e não permite a circulação de humanos.

ISTOÉ - Vivemos em desorganização política e social. Como implantar um modelo mais justo?
Tendler - Isso não é necessariamente ruim, já que evita o aparelhamento político que vivemos em outros tempos através de correntes políticas hegemônicas que pregavam idéias quase de forma totalitária. Temos uma grande diversidade política cultural em que várias minorias expressam seus pensamentos: os homossexuais, os sem-teto e por aí vai.
"Há uma cultura emergindo da periferia. Meninos da Baixada Fluminense com uma câmera de R$ 200 fazem cinema"

ISTOÉ - De onde viria essa renovação?
Tendler - Há uma cultura que está emergindo da periferia. Há os rappers que revelam a realidade das favelas. Temos meninos da Baixada Fluminense com uma câmera de R$ 200 fazendo cinema. Dou aula em uma universidade na qual o pessoal só quer filmar com câmeras caras. Ninguém acredita que com uma camerazinha de R$ 200 se pode fazer um filme de verdade. Tem o índio na floresta que usa a câmera para denunciar a derrubada de árvores. O outro índio, graças à internet e à parabólica, cria a rede de povos da floresta. Hoje há vários movimentos culturais autônomos na periferia. Não há como explicar o fenômeno dos Racionais MCs, por exemplo, que não aparecem na tevê. Tem o YouTube como uma vertente de renovação cultural, com trabalhos que fugiram do controle da grande mídia.

ISTOÉ - Um de seus trabalhos recentes é sobre a história do movimento estudantil. O sr. acha que os estudantes ainda podem mudar o País?
Tendler - Entrevistei do primeiro presidente da UNE ao que estava em exercício quando fiz o filme, o Gustavo Petta. Os dois dizem que a força do movimento jovem se deslocou para a periferia. A juventude está engajada, mas de outras formas. Hoje lidam com hiphop, lutam pelos direitos das minorias. Mudaram as formas de luta. Cabe aos líderes adequar as práticas da UNE à demanda do movimento estudantil.

ISTOÉ - É possível comparar os estudantes de hoje com aqueles que faziam grandes passeatas na década de 60?
Tendler - O País e o mundo eram muito diferentes. O Brasil tinha 160 mil universitários, hoje tem dois milhões. O crescimento das universidades foi maior que o crescimento demográfico. Além disso, a maioria dos estudantes estava em instituições públicas, estavam preocupados com as grandes questões nacionais, com a qualidade do ensino e outros temas. Hoje, a maioria vem de universidades privadas, buscam principalmente um lugar no mercado de trabalho.

ISTOÉ - Como essa crise afeta o seu trabalho?
Tendler - Quando lancei JK e Jango fiquei seis semanas no Rio e em São Paulo e repercutiu muito. Hoje, não tenho mais o mesmo espaço. A lógica de mercado obriga você a dar graças a Deus por achar uma vaga.

ISTOÉ - Vale a pena fazer filmes de conteúdo político e social?
Tendler - Acho que está na hora de a sociedade brasileira se rediscutir. A gente tem que usar o cinema e outros meios de comunicação para colar os caquinhos do nosso arcabouço social. O que talvez explique as baixas bilheterias é que temos a liberdade de chegar à sala, mas não temos os meios de chegar ao público, você não consegue se comunicar com o espectador. Eu acabo virando uma exceção. Lancei o filme em cinco cinemas, com sessões alternativas, contra 500 cinemas com horário integral dos Simpsons. A batalha desigual é essa. Os caras vêm com uma tremenda mídia do Exterior, com grana, mídia nacional, são heróis da tevê, a garotada vê, curte... Mas não é por isso que eu vou deixar de fazer cinema. Eu acredito nisso. Trabalho de formiguinha. Melhor falar para três mil pessoas que para nenhuma.
"Em um dos episódios da série Malu mulher, um dos personagens tenta o suicídio. Na Suécia, esse episódio não foi ao ar"

ISTOÉ - Quais as conseqüências dessa concentração de poder midiático?
Tendler - Acabou a idade da inocência. Milton Santos dizia que quatro ou cinco grupos dominam a mídia no mundo. Não estava falando apenas do jornalismo, mas também do entretenimento. Como a indústria dos games, por exemplo. As pessoas dizem que eu sou didático. Na minha interpretação, didático é o cinema americano, que ensina a matar. A gente fica assistindo a essa violência no cotidiano com uma passividade... A gente não quer falar a verdade: o rei está nu, essa é a indústria de massas. As crianças desde pequenas se habituam com o conceito de serial killers a partir dos games. Elas vêem filmes desse tipo. Com as novas tecnologias é possível misturar personagens reais e animação. Toda essa violência que a sociedade está vivendo é formada pela cultura de massas e ninguém discute. Isso serve de controle social, prega o egoísmo, a individualidade, as pessoas deixam de ter solidariedade.

ISTOÉ - A classificação indicativa poderia ajudar?
Tendler - O grande problema da classificação indicativa seria o despreparo das pessoas que fazem essa indicação. Vou te dar um exemplo surrealista: meu filme foi indicado para 12 anos por ter "palavras de baixo calão" e "cenas de violência". Quem vê, constata que os palavrões não são gratuitos e a violência é de fundo social. Em plena ditadura fiz JK e Jango, que foram censura livre. Os dois filmes têm cenas de violência também, tem gente sendo assassinada nas manifestações de rua de 68.

ISTOÉ - Qual seria a solução?
Tendler - Não sei, mas sou contra a excessiva permissividade que vivemos hoje. Em um dos episódios da série Malu mulher, dos anos 80, um dos personagens tenta o suicídio. Quando a série passou na Suécia, esse episódio não foi ao ar. A sociedade sueca se deu ao direito de dizer: "Isso não passa na nossa televisão." Acho que a gente tem que ter uma preocupação com nossos jovens. Não sou careta, mas acho que vivemos numa sociedade excessivamente permissiva e de muita liberalidade. Estamos acostumados a ver drogas e sexo, tudo circulando com naturalidade. Acho que devíamos ter uma organização maior da sociedade para tratar disso. O que eu não acredito é na capacidade de esses organismos estatais fazerem essa regulação por nós. São um bando de burocratas, completamente despreparados.

ISTOÉ - O meio ambiente é um tema que o sr. pensa em levar para as telas?
Tendler - Sou contra esse terrorismo internacionalista do tal desenvolvimento sustentável. O Al Gore vem com esse filme falando de meio ambiente (Uma verdade inconveniente), mas o cara já foi vice-presidente dos Estados Unidos. Já poderia ter feito pelo menos um terço daquilo que ele prega no filme. Ele só passa a ter preocupação ecológica quando vira cineasta? Como vice-presidente não? Quero discutir o que é esse tal desenvolvimento sustentável, quero saber o que vai ser essa terra daqui a 40 anos dentro de um ponto de vista menos catastrófico, menos terrorista.

ISTOÉ - O sr. acredita que o brasileiro pode recuperar a fé na política?
Tendler - Como disse Milton Santos, a gente precisa encher de conteúdo a palavra democracia, já que quando falamos sobre democracia hoje não sabemos exatamente sobre o que estamos falando. Ficamos apenas com a forma. A gente elege uma pessoa e não sabemos para quê. Não sabemos qual o seu programa político, o que ele vai fazer com nosso voto. Todo dia você ouve falar, por exemplo, em reformas. Reforma tributária, reforma política... O que são essas reformas? Qual o conteúdo? Você sabe o que os políticos estão discutindo em Brasília? Cada dia está pior a convivência entre o cidadão e a política, está cada vez mais difícil o cidadão se ver efetivamente representado pelo Congresso Nacional. Mas sem a política a gente não avança.

Fonte: Revista Isto É